Que a rudeza seja vermelha
e a pureza, ainda mais.
Porque o sol avermelhado,
abre no peito vias vermelhas,
da música que traz.
Porque os céus vermelhos,
são a beleza da sua verdade,
são vermelhos de paz.
Que a fortaleza, seja vermelha,
quando se machucam os joelhos,
que sangram felicidade.
Que seja vermelha a dança,
que seja a centelha, de uma esperança vermelha.
E seja vermelha a saudade
de cada palavra, com a força e a sinceridade,
vermelhas.
Oi pessoal! "Os que não foram fora" são os textos, poemas e poesias que sobreviveram à autocrítica. Sempre quis editar um livro mas vou escrevendo na mesma medida em que vou selecionando os textos e jogando alguns fora. Por essa e por outras, não consegui pensar num título que representasse um conjunto de poesias que eu queria editar. Foi quando me deram uma sugestão de título que eu gostei: "as que não foram fora".
Saturday, May 22, 2010
Tuesday, May 04, 2010
Salto
Lá do alto
o som ressoa a escalada.
De onde a vida dá um salto:
e o alto voa no nada
voa no alto de lá.
Tuesday, March 09, 2010
Sinuca do Chicão
O chefe disse que eu tinha um serviço e que era um dos complicados. É como dizem: alguém tem que fazer. Perdido, perguntei se ali era a sinuca do Chicão.
- Não é.
Antes que eu pedisse mais informação, me empurraram porta adentro e me deparei com um sujeito de chapéu, cara de poucos amigos e um cigarro de palha. Ele deu uma tacada e disse, em seguida:
- O Chicão está ali dentro.
Eu entrei, ainda um pouco atordoado. Antes de passar pela porta de metal pude ver que na cintura do sujeito de chapéu havia uma arma, provavelmente uma pistola semi-automática. Naquela saleta, logo pude ver um homem sentado atrás de sua mesa e senti como se meus pulmões tivessem tragado pelo menos vinte cigarros de uma vez só. A fumaça formava uma névoa tão densa que era difícil enxergar o rosto do homem. A luz do lugar não ajudava, já que eu estava a um metro daquela figura obscura e mal podia enxergar sua fisionomia. Perguntei:
- Você é o Chicão?
Aquele rosto indefinido deixou seu cigarro aceso no cinzeiro e deitou sua mão ao lado direito da sua poltrona. Foi quando percebi a presença de um cachorro enorme, bastante forte, claramente bem alimentado e disciplinado.
- Quem quer saber?
Antes de demonstrar meu descontentamento e irritação, lembrei-me da pistola na cintura do sujeito de chapéu. Pensando nisso e no tamanho do cachorro, me identifiquei como funcionário do Sr. Nantelli. O homem inclinou-se pra olhar minha identificação e voltou à posição inicial, com o braço repousado à direita. Mas antes de afagar a cabeça do cão, disse:
- Esse aqui é o Chicão.
Passou-me a coleira e advertiu:
- O Chicão tem quinze anos, é um matuto, velhaco, filho da mãe. Você entendeu?
Eu acenei com a cabeça que sim. Antes que eu pudesse dizer algo, o homem se adiantou e advertiu outra vez:
- Só banho e tosa. Nada daquele perfume que vocês colocaram da última vez.
Abrindo a porta, pude ver algumas lágrimas enchendo os olhos do homem. E pouco antes de eu fechar a porta, ele fez um aceno rápido, olhou para o cachorro e disse:
- Tchau, Chicão!!
Foi quando percebi porque chamavam a casa de “Sinuca do Chicão”.
Thursday, February 25, 2010
O vento
Era uma volta, de bicicleta.
Era uma volta, que ia a pé,
era uma volta, que às vezes, nem é.
Uma volta que,
completa,
ia daqui
até,
nem perto nem longe,
mas aí.
E a volta não há,
só há um vento que sopra
só pra ir
ou voltar.
O vento que faz a bicicleta voar.
Monday, October 26, 2009
O chão
Se eu puder voar
antes de chegar ao chão
o chão voará,
voará por entre as árvores...
que estarão cantando,
A revoada,
o vento e o nada, que são.
E às passadas,
aos saltos e foles,
as notas serão
Como é o vento,
entoando sua canção de ar.
soando o movimento
as vidas que vão,
nas músicas que voam,
Vão levantando vôo
levam a enlevar,
Os vôos,
antes de chegar ao chão
o chão voará,
voará por entre as árvores...
que estarão cantando,
A revoada,
o vento e o nada, que são.
E às passadas,
aos saltos e foles,
as notas serão
Como é o vento,
entoando sua canção de ar.
soando o movimento
as vidas que vão,
nas músicas que voam,
Vão levantando vôo
levam a enlevar,
Os vôos,
Tuesday, September 01, 2009
Qualquer coisa
Gosto de escrever nas horas vagas. Mas se escrever é uma tarefa, sinto a preguiça chegando, invadindo a minha sala e me dizendo que está com saudades. No entanto, logo me diverti com a idéia de que posso escrever qualquer coisa. Principalmente quando ficou claro que “qualquer coisa” é uma concessão. “Qualquer coisa” é uma coisa, assim, tipo, sei lá, que tem a ver. Não é qualquer coisa. É uma coisa específica.
Mas então que coisa seria essa?? A princípio, me parece uma coisa liberal, direcionada e objetiva. Só que depois de alguma análise, a coisa pode ser subjetiva também e até mesmo sem uma direção fixa. E como se não bastasse a simples complexidade da coisa toda, a coisa tem lá suas restrições. Enfim, é uma coisa realmente difícil.
E foi pensando nessa dualidade da coisa que surgiram algumas soluções. A primeira foi a mais óbvia. Relembrando a sabedoria popular, sabemos que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Ou seja, uma coisa é escrever “qualquer coisa”. Outra coisa é escrever uma coisa qualquer. Todavia, não satisfeito com o tratamento simplório dado à questão, surgiu a segunda possível solução: a coisa, nesse caso, seria uma coisa taoísta, que vai além da dualidade desse mundo de concepções equivocadas, incompletas e ilusórias. Para definir “a coisa”, seria necessário entender as nuanças entre muitos extremos e opostos que se sobrepõem, delineando assim o caminho de sua compreensão.
Contudo, o significado real da coisa ainda não parecia contemplado. Foi quando descobri uma terceira solução e esta sim, me passou mais segurança e satisfação: percebi que a coisa não precisava ser conceituada ou explicada. A coisa, em si, não carregava sua auto-definição. A coisa era o reflexo direto da intenção. Se a intenção fosse correta, não escreveríamos qualquer coisa. E por outro lado, com a intenção correta, poderíamos escrever qualquer coisa.
Mas então que coisa seria essa?? A princípio, me parece uma coisa liberal, direcionada e objetiva. Só que depois de alguma análise, a coisa pode ser subjetiva também e até mesmo sem uma direção fixa. E como se não bastasse a simples complexidade da coisa toda, a coisa tem lá suas restrições. Enfim, é uma coisa realmente difícil.
E foi pensando nessa dualidade da coisa que surgiram algumas soluções. A primeira foi a mais óbvia. Relembrando a sabedoria popular, sabemos que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Ou seja, uma coisa é escrever “qualquer coisa”. Outra coisa é escrever uma coisa qualquer. Todavia, não satisfeito com o tratamento simplório dado à questão, surgiu a segunda possível solução: a coisa, nesse caso, seria uma coisa taoísta, que vai além da dualidade desse mundo de concepções equivocadas, incompletas e ilusórias. Para definir “a coisa”, seria necessário entender as nuanças entre muitos extremos e opostos que se sobrepõem, delineando assim o caminho de sua compreensão.
Contudo, o significado real da coisa ainda não parecia contemplado. Foi quando descobri uma terceira solução e esta sim, me passou mais segurança e satisfação: percebi que a coisa não precisava ser conceituada ou explicada. A coisa, em si, não carregava sua auto-definição. A coisa era o reflexo direto da intenção. Se a intenção fosse correta, não escreveríamos qualquer coisa. E por outro lado, com a intenção correta, poderíamos escrever qualquer coisa.
Liberdade
Pra que amassar as folhas da grama,
sem passar por ela?
Pra onde perder o olhar,
que sequer se encontrou?
Como ouvir as músicas da água,
se não se ouve a própria respiração?
Por quanto se espera pra sorrir,
se o sorriso é estar aqui?
Qual a vida que se liberta,
se a vida é liberdade?
O que é que fará o teu dia,
se não basta o amanhecer?
Quando haverá a beleza,
senão quando o sol nascer?
sem passar por ela?
Pra onde perder o olhar,
que sequer se encontrou?
Como ouvir as músicas da água,
se não se ouve a própria respiração?
Por quanto se espera pra sorrir,
se o sorriso é estar aqui?
Qual a vida que se liberta,
se a vida é liberdade?
O que é que fará o teu dia,
se não basta o amanhecer?
Quando haverá a beleza,
senão quando o sol nascer?
Monday, June 08, 2009
Tele-marketing
O guri não atende ao telefone, está ocupado desenhando. E deixa o telefone tocar, porque sabe que ainda não sabe atender direito. O pai vem correndo atender, dá um “alô” meio ofegante. O guri logo se interessa, pára de desenhar e fica olhando o pai ao telefone.
E o pai diz:
- Não, não. Não. Não, muito obrigado. Não, eu realmente não quero, obrigado. Não, olha, obrigado, obrigado mesmo, mas eu não quero. Então. Eu fico muito agradecido, realmente, muito obrigado, mas não, obrigado. É, não, não quero não. Nããão, nããão... mas obrigado, viu? Infelizmente, minha resposta é não. Pois é, desculpe, mas não... Não, obrigado. Tchau-tchau.
Antes de voltar a desenhar, o guri fica pensativo.
- Pai, aquilo que você não queria...
- O que é que tem?
O guri pensa mais um pouco. E conclui:
- Tem certeza?
Wednesday, February 11, 2009
Elevadores
Todos tinham aquela expressão de elevador. Aquele silêncio de elevador. A respiração de elevador, o pensamento de elevador. A postura de elevador. A disposição itinerante, a fixação na busca ávida da luzinha que indica o fim da agonia - e finalmente, o andar que se quer descer.
De repente, há uma palavra imprópria para elevadores. Obviamente proibida à etiqueta em elevadores.
- Oi...
Soava como um pouso de pára-quedas forçado, no mínimo singular, isto é, num elevador. Além disso, a palavra descabida não era ninguém falando ao celular. E também não era um cumprimento discreto para ninguém.
Era, de fato, só um “oi” mesmo. Daqueles que socializam. Um “oi” bem intencionado, simples, sem grandes pretensões. Quer dizer, simpático. Daqueles que socializam.
Mas dentro do elevador. Fechado. Fechado, isolado, cerrado e em movimento, com pessoas dentro, entende? Daquelas que apertam os botões discretamente, ou que dizem “Ahm... quinto, por favor...”. Quer dizer, pessoas mesmo, passageiros, itinerantes, que entram no contexto da realidade de elevador. E que, uma vez dentro do contexto, ou do elevador, não sabem o que fazer: pessoas que olham para cima, que olham para baixo, que olham para a porta, que olham no celular, que olham o relógio, ou que olham para um nada específico, quando por uma dádiva divina, ainda há um. São pessoas de elevador, que realmente não têm escolha. Talvez até tivessem, afinal sempre se pode usar a escada. Mas agora já estavam ali.
Porém, como aquilo não podia estar acontecendo, só duas ou três pessoas se dignaram a olhar para trás, e, antes que pusessem seus olhos nos nadas de elevador novamente, acalmassem seus corações e voltassem aos seus pensamentos cotidianos, tiveram que ouvir de novo:
- Oi!!
Agora sim. Agora ainda mais alegre, o “oi” havia transcendido seu aspecto transgressor. Havia mais que uma simples transgressão da ética, dos bons costumes de elevador, da educação e da etiqueta em elevadores. Naquele elevador, já não se tratava mais de enfrentar meros constrangimentos ou afrontas aos itinerantes. Pois que então, naquele elevador, aqueles itinerantes tornavam-se os escolhidos pela vida, pelo tempo, pelo acaso, pelo destino. Ou, só pelo elevador, mesmo. Mas a grande questão é que era preciso sabedoria, para presenciar com firmeza o momento, o exato momento, em que a convivência em elevadores talvez mudasse - e nunca mais fosse a mesma. Toda aquela situação era provavelmente um marco biográfico, uma experiência única, algo que só ocorre a cada cinco ou seis eclipses, um contato imediato com algum tipo de vida alienígena, sei lá. E a vida alienígena ainda resolveu acrescentar:
- Tudo bom?
Também não era um vendedor. Tampouco uma criança e nem mesmo um moço do campo com costumes menos urbanos, tentando puxar conversa... Não era ninguém pedindo esmola. E não era alguém cordial, que procurava chamar a atenção para algo que pudesse ter caído do bolso de outrem.
Não. Para o terror de todos ali presentes, era uma jovem de ar disposto, dizendo um “oi” simpático - daqueles que socializam - como se não estivesse em um elevador. Ou, pior ainda, como se simplesmente ignorasse o fato. Vai saber se os alienígenas usam elevadores. Além disso, a moça se vestia bem, não aparentava insanidade mental. Tinha os olhos vivos e uma expressão saudável. Para uma alienígena então, estava ótima.
Em seguida, um senhor mais à frente da porta resolveu voltar-se e encarar a jovem. Se ela dizia "oi” em elevadores, teria que pelo menos se dispor a suportar a sua antipatia. Afinal, não se diz um “oi” socializador como aquele, assim, dentro de um elevador, impunemente. Se a moça tivesse assistido a um ou dois filmes de ficção científica já saberia como os extraterrestres podem ser incivilizados. Não seria surpresa alguma se ela estivesse ocultando um “laser” destruidor dentro da pochete, esperando o momento certo para agir. Era preciso detê-la o quanto antes. E para isso, o senhor da frente virou-se, estufou o peito e encarou a moça.
Mas nada a atingia. Nada a intimidava. Para a senhorita alienígena era como se o elevador e a sua moral fossem uma realidade paralela, uma insignificante ilusão. Talvez fosse, sei lá, a volta do messias, dessa vez em forma de mulher, aparecendo pela primeira vez em um elevador só pra testar a receptividade das pessoas. Ou podia ser uma campanha publicitária de pasta de dente, já que o mau hálito não permitiria proferir um "oi" coletivo daqueles dentro de um elevador cheio.
Contudo, antes que o senhor da frente encerrasse seu olhar reprovador, a moça disse, logo em seguida ao aterrorizante “Tudo bom?”, que estava fazendo uma pesquisa de campo e...
- Minha primeira pergunta é... o senhor socializa em elevadores?
Tuesday, January 27, 2009
Azul da manhã
Há um azul do dia.
Desde a manhã
há uma música azulada e fria,
que os olhos amanhecem
com o infinito.
Há uma manhã,
infinitamente sã,
que nasce todo dia
e toca a música que guia
o olhar bonito.
Tuesday, October 28, 2008
Hermenegildo
É óbvio que se você é o Hermenegildo, piadas com seu nome e afins já deixaram de ser interessantes há muito tempo. “Hermenegildo” não é engraçado. A maioria das pessoas só não percebeu ainda porque a maioria não se chama Hermenegildo.
Mas receber um nome como Hermenegildo e ter que aturar as situações que surgem por conta disso, não é o único, nem o maior problema do Hermenegildo. A questão é que não é fácil ser a pessoa, a personalidade, o ser humano em si, a individualidade e a peculiaridade cuja alcunha é, por culpa do destino ou de seja lá o que for, Hermenegildo. Isso porque um Hermenegildo não tem muitas opções: ou o indivíduo nunca supera o próprio nome, quer dizer, receberá sempre mais atenção por conta do seu nome peculiar do que pela pessoa que de fato é, ou então “Hermenegildo” será só uma piada de mau gosto da vida: que não passa de uma pequena e, quem sabe, divertida parte de toda uma personalidade, isto é, apenas um detalhe curioso a respeito do grande, do notável, do interessantíssimo e muito, muito bem apessoado, Hermenegildo.
- Como??
- Hermenegildo.
- Ah.
Ser nomeado Hermenegildo é inegavelmente um desafio extra. Se o Hermenegildo fracassa, quer dizer, perde o emprego ou a namorada, investe num negócio que acaba não dando certo ou qualquer outra situação semelhante, a maioria freqüentemente procura pensar positivo porque poderia ser pior, mas acaba por concluir em seguida:
- Ainda por cima o nome do cara era Hermenegildo!
Ou ainda mais fatalista:
- Também, com um nome daqueles, não ia dar certo nunca!
Por outro lado, o Hermenegildo tem a vantagem de conhecer melhor as pessoas. Fica mais fácil separar os imbecis dos decentes e os falsos dos honestos no primeiro momento em que são apresentados. A reação ao ouvir “prazer, Hermenegildo...” com certeza serve como uma avaliação psicológica. Algumas pessoas tendem a repetir o nome em tom de pergunta. Outras tentam disfarçar a surpresa com um notável desembaraço: “posso te chamar de Gil?”. E outras preferem “Menê”, que apesar de também não ser uma ótima solução, evita confundir com algum Gilberto. Contudo, nenhuma personalidade surpreende mais do que a senhora que ouve “Hermenegildo” e não esboça nenhuma reação em especial. É claro que, mais tarde, o psicólogo descobre que a singular senhora se chama Gilda, é casada com o Hermen e, logicamente, tem um filho: o Hermenegildo. Dona Gilda fica menos nervosa porque durante a consulta, o Menê fica trabalhando com o Hermen, que antes era Emerson, como consta na carteira de identidade. O que é uma corruptela estranha, é verdade, mas a questão não é essa, a questão é que o filho dela explode de raiva toda vez que ela o lembra de ir tirar o próprio RG, e Dona Gilda com o coração apertado argumenta: "mas Hermenegildozinho...". E não adianta, ele se irrita e ela não sabe por quê.
É obviamente uma suposição comum. O senso estético ou a perspectiva particular dos pais, aliada à conseqüência inevitável da junção dos nomes “Hermen” com “Gilda”, resultou em Hermenegildo. Tudo bem, acontece. É preciso entender isso, acontece. O que não dá pra entender é quando logo depois de cumprimentar o Hermenegildo, você estende a mão para ser apresentado ao Hermenegildo Júnior. Quando falamos em Hermenegildo Júnior, não sabemos mais com o que estamos lidando. O Hermenegildo foi um acidente, mas Hermenegildo Júnior é um incidente. E perigoso, porque se um Hermenegildo pode chegar a ser um sujeito bastante revoltado, o Hermenegildo Júnior, então, será capaz de qualquer coisa. Para um Hermenegildo Júnior, nomear o filho como uma homenagem ao pai, é o de menos.
Thursday, August 28, 2008
Juvena
Juvena era trabalhadora. Dizia que não era questão de dignidade, era questão de inteligência: quem queria entender a vida e crescer em qualquer direção, tinha que aprender a trabalhar. Dizia isso, enquanto esfregava alguma coisa e esbarrava na vassoura, pela milionésima vez. Era o hábito que não perdia, vivia derrubando a vassoura a cada cinco minutos.
Todos sempre elogiavam a limpeza de Juvena e ela sustentava uma pose característica, orgulhosa. Declarava sua paixão pelo serviço bem-feito. E em seguida, derrubava a vassoura de novo.
As pessoas se incomodavam com a vassoura caindo de cinco em cinco minutos, claro. Mas raramente comentavam, porque a Juvena era um tipo difícil de achar: honesta, trabalhadora, confiável e eficiente. E daí se derrubava a vassoura a cada cinco minutos?
E no caso, “a cada cinco minutos” não era exagero. Juvena tinha tanta energia que por onde passava, parecia que havia pelo menos cinco mulheres limpando, conversando e derrubando vassouras. Além de tudo, Juvena tinha uma iniciativa inteligente, colocava-se ao trabalho sem precisar de muitos direcionamentos e tudo o que pudesse ser além de sua alçada, ela mesma perguntava e descobria. Por isso mesmo, nunca tivera problemas comuns de diaristas e empregadas domésticas que costumam quebrar ou estragar as coisas tentando limpá-las.
Juvena era tão boa no que fazia e tão enraizada nos valores que primavam pela qualidade que chegava a provocar sérias indagações em certos patrões mais abastados. Não entendiam como uma mulher com idéias tão claras a respeito da vida e da capacidade do ser humano, podia estar ali, simplesmente limpando a casa. Mas logo que viam a dona de pensamentos tão lúcidos derrubando a vassoura de cinco em cinco minutos, de certa forma, as indagações iam se dispersando.
E mesmo entre trabalho e mais trabalho ainda, Juvena arrumou um namorado. E no segundo dia de namoro, ele disse a ela: você é uma mulher quase perfeita. Só precisa aprender a não derrubar essa maldita vassoura, de cinco em cinco minutos. Até parece que você não sabe o que está fazendo.
Juvena terminou o namoro no terceiro dia. No dia seguinte, não derrubava mais vassouras. E no outro dia, sentiu-se tão cheia de si, tão perfeita por não derrubar mais a vassoura, que se demitiu. Inventou uma pequena presilha para evitar que vassouras caíssem quando mal posicionadas. Ficou milionária e ainda diz que só não inventou a caneta bic porque chegaram antes dela.
Todos sempre elogiavam a limpeza de Juvena e ela sustentava uma pose característica, orgulhosa. Declarava sua paixão pelo serviço bem-feito. E em seguida, derrubava a vassoura de novo.
As pessoas se incomodavam com a vassoura caindo de cinco em cinco minutos, claro. Mas raramente comentavam, porque a Juvena era um tipo difícil de achar: honesta, trabalhadora, confiável e eficiente. E daí se derrubava a vassoura a cada cinco minutos?
E no caso, “a cada cinco minutos” não era exagero. Juvena tinha tanta energia que por onde passava, parecia que havia pelo menos cinco mulheres limpando, conversando e derrubando vassouras. Além de tudo, Juvena tinha uma iniciativa inteligente, colocava-se ao trabalho sem precisar de muitos direcionamentos e tudo o que pudesse ser além de sua alçada, ela mesma perguntava e descobria. Por isso mesmo, nunca tivera problemas comuns de diaristas e empregadas domésticas que costumam quebrar ou estragar as coisas tentando limpá-las.
Juvena era tão boa no que fazia e tão enraizada nos valores que primavam pela qualidade que chegava a provocar sérias indagações em certos patrões mais abastados. Não entendiam como uma mulher com idéias tão claras a respeito da vida e da capacidade do ser humano, podia estar ali, simplesmente limpando a casa. Mas logo que viam a dona de pensamentos tão lúcidos derrubando a vassoura de cinco em cinco minutos, de certa forma, as indagações iam se dispersando.
E mesmo entre trabalho e mais trabalho ainda, Juvena arrumou um namorado. E no segundo dia de namoro, ele disse a ela: você é uma mulher quase perfeita. Só precisa aprender a não derrubar essa maldita vassoura, de cinco em cinco minutos. Até parece que você não sabe o que está fazendo.
Juvena terminou o namoro no terceiro dia. No dia seguinte, não derrubava mais vassouras. E no outro dia, sentiu-se tão cheia de si, tão perfeita por não derrubar mais a vassoura, que se demitiu. Inventou uma pequena presilha para evitar que vassouras caíssem quando mal posicionadas. Ficou milionária e ainda diz que só não inventou a caneta bic porque chegaram antes dela.
Monday, May 12, 2008
De sol
Dos ares da manhã
se vê teu gesto de sol:
onde nasce a alma sã,
onde o dia que canta, não está só.
E o nascer dos olhos, que há em ti
me lembra dos pássaros,
cantando por aí.
se vê teu gesto de sol:
onde nasce a alma sã,
onde o dia que canta, não está só.
E o nascer dos olhos, que há em ti
me lembra dos pássaros,
cantando por aí.
Friday, May 02, 2008
Você vai?
As mais simples relações sociais nacionais ainda podem ser bastante confusas. Uma mesma conversa pode ter diferentes significados, tudo depende de um entendimento abstrato e intangível que só nós brasileiros entendemos, ou quase entendemos. Por exemplo, na hora de marcar alguma coisa:
- Legal, legal. Então... você vai?
Nesse momento cria-se uma tensão surda. Tão surda que o outro até pergunta:
- Ahn?
- Perguntei se você vai.
É aqui, nesta reafirmação, que o ego de quem pergunta se levanta de repente, desembainha uma espada e atira, aos brados, o desafio: “Em guarda, soldado!! Aceita-me agora e pouparei tua vida, infeliz miserável!!”
E o outro, meio desconcertado, responde:
- Ahm... vou sim. Quer dizer, vou tentar ir, com certeza.
Sim! É a resposta do fidalgo, outrora despreparado para o combate!! Mas agora, meus convivas, agora a ofensa foi instigada... o desafio é eminente!! O ego desafiante expôs o próprio peito em franca contenda, perguntando se você vai!
Em outras palavras, você deve, portanto, decidir se vai ser um antipático insensível e recusar, ou se vai dar uma desculpa esfarrapada, ou ainda, se vai, enfim, para lá mesmo, para onde está sendo convidado:
- E que comam o pó da terra, aqueles que desafiam a estabelecida simpatia subjacente social brasileira!!
- Como?
- Ahm, nada. Que bom que você vai. A gente se vê lá, então.
Afinal, não importa o quanto o outro quer ir ou não. Não se pode deixar de comparecer com a simpatia brasileira assim, de repente, como se sinceridade fosse artigo de armazém.
Mas há ainda outra questão. Dependendo da entonação da pergunta, pode não ser um desafio e a resposta, por sua vez, também pode não ser uma mentira diplomática. Algumas pessoas dizem que tentam ir e, por estranho que possa parecer, de fato tentam. Umas conseguem, outras não. Contudo, há aquelas que, favorecidas pelo destino, não tentam nada e simplesmente vão - mas não por causa do convite: são pessoas que simplesmente acabaram indo parar lá, no mesmo lugar que você. Pura coincidência. Em seguida ,recebem aquele "que bom, você veio!". E se aproveitam disso:
- É claro que eu vim! Mas que coisa, rapaz.
É a virada! A repentina mudança do destino, o destino, aquele canalha que muda de amigos só pra se divertir.
- É que você parecia que...
- Pô. Até parece que você não confia.
O ego desafiador, que provocava e que expunha o próprio peito ao combate, agora se envergonha da sua incivilidade:
- Não, é que eu...
- Eu não te disse que ia tentar vir??
- Disse.
Então o desafiado desfere o golpe final, sem qualquer demonstração de clemência:
- Pois eu estou aqui ou não estou?!?!?
E já que não tem como negar a presença de quem fisicamente pergunta, o assunto está encerrado - a derrota eminente se fez triunfal e solene sobre o desconfiado desafiante.
Os simpáticos cavalheiros, normalmente se cumprimentam após o combate, a tal simpatia subjacente mantém o ocorrido em segredo e não se fala mais nisso. Quer dizer, tudo acaba ali, no golpe final. Mas isso, é claro, se forem cavalheiros.
- Aliás, você é que anda sumido. Não aparece mais...
- Não, é que eu...
Aqui, o ego desafiado não há de se contentar com a derrota do outro. Não! É preciso fazê-lo pagar pela ousadia, pelo atrevimento!
- Você parece que não liga mais pros amigos... não aparece.
E antes que o outro possa dizer, “bom, eu estou aqui, não estou?” para se defender, a espada da vingança penetra mais fundo no dorso do ego moribundo:
- Pô, cadê você, cara?!?
Contudo, mesmo após a derrota, o desafiante infamador corre pelas veladas planícies antipáticas, às vezes feliz por encontrar um pouco de antipatia, às vezes rabugento por não encontrá-la. Quando reencontra casualmente aqueles que empenharam sua palavra dizendo que estariam presentes, aqueles que aceitaram o convite só para manter a etiqueta da simpatia, regozija-se com o momento da vitória, lança-lhes o olhar de reprovação e, só pra começar, diz:
- Pô, cadê você, cara?!?
- Legal, legal. Então... você vai?
Nesse momento cria-se uma tensão surda. Tão surda que o outro até pergunta:
- Ahn?
- Perguntei se você vai.
É aqui, nesta reafirmação, que o ego de quem pergunta se levanta de repente, desembainha uma espada e atira, aos brados, o desafio: “Em guarda, soldado!! Aceita-me agora e pouparei tua vida, infeliz miserável!!”
E o outro, meio desconcertado, responde:
- Ahm... vou sim. Quer dizer, vou tentar ir, com certeza.
Sim! É a resposta do fidalgo, outrora despreparado para o combate!! Mas agora, meus convivas, agora a ofensa foi instigada... o desafio é eminente!! O ego desafiante expôs o próprio peito em franca contenda, perguntando se você vai!
Em outras palavras, você deve, portanto, decidir se vai ser um antipático insensível e recusar, ou se vai dar uma desculpa esfarrapada, ou ainda, se vai, enfim, para lá mesmo, para onde está sendo convidado:
- E que comam o pó da terra, aqueles que desafiam a estabelecida simpatia subjacente social brasileira!!
- Como?
- Ahm, nada. Que bom que você vai. A gente se vê lá, então.
Afinal, não importa o quanto o outro quer ir ou não. Não se pode deixar de comparecer com a simpatia brasileira assim, de repente, como se sinceridade fosse artigo de armazém.
Mas há ainda outra questão. Dependendo da entonação da pergunta, pode não ser um desafio e a resposta, por sua vez, também pode não ser uma mentira diplomática. Algumas pessoas dizem que tentam ir e, por estranho que possa parecer, de fato tentam. Umas conseguem, outras não. Contudo, há aquelas que, favorecidas pelo destino, não tentam nada e simplesmente vão - mas não por causa do convite: são pessoas que simplesmente acabaram indo parar lá, no mesmo lugar que você. Pura coincidência. Em seguida ,recebem aquele "que bom, você veio!". E se aproveitam disso:
- É claro que eu vim! Mas que coisa, rapaz.
É a virada! A repentina mudança do destino, o destino, aquele canalha que muda de amigos só pra se divertir.
- É que você parecia que...
- Pô. Até parece que você não confia.
O ego desafiador, que provocava e que expunha o próprio peito ao combate, agora se envergonha da sua incivilidade:
- Não, é que eu...
- Eu não te disse que ia tentar vir??
- Disse.
Então o desafiado desfere o golpe final, sem qualquer demonstração de clemência:
- Pois eu estou aqui ou não estou?!?!?
E já que não tem como negar a presença de quem fisicamente pergunta, o assunto está encerrado - a derrota eminente se fez triunfal e solene sobre o desconfiado desafiante.
Os simpáticos cavalheiros, normalmente se cumprimentam após o combate, a tal simpatia subjacente mantém o ocorrido em segredo e não se fala mais nisso. Quer dizer, tudo acaba ali, no golpe final. Mas isso, é claro, se forem cavalheiros.
- Aliás, você é que anda sumido. Não aparece mais...
- Não, é que eu...
Aqui, o ego desafiado não há de se contentar com a derrota do outro. Não! É preciso fazê-lo pagar pela ousadia, pelo atrevimento!
- Você parece que não liga mais pros amigos... não aparece.
E antes que o outro possa dizer, “bom, eu estou aqui, não estou?” para se defender, a espada da vingança penetra mais fundo no dorso do ego moribundo:
- Pô, cadê você, cara?!?
Contudo, mesmo após a derrota, o desafiante infamador corre pelas veladas planícies antipáticas, às vezes feliz por encontrar um pouco de antipatia, às vezes rabugento por não encontrá-la. Quando reencontra casualmente aqueles que empenharam sua palavra dizendo que estariam presentes, aqueles que aceitaram o convite só para manter a etiqueta da simpatia, regozija-se com o momento da vitória, lança-lhes o olhar de reprovação e, só pra começar, diz:
- Pô, cadê você, cara?!?
Sunday, April 27, 2008
Afterwards
On rainy days,
Every word is poetry
For it is life that says, which soul is free,
and what kind of rain comes,
as freedom has to be.
It comes rising with our words
For each beam of light
That drops the rain.
All it is afterwards, once it stops for a while
Is freedom rising again.
Every word is poetry
For it is life that says, which soul is free,
and what kind of rain comes,
as freedom has to be.
It comes rising with our words
For each beam of light
That drops the rain.
All it is afterwards, once it stops for a while
Is freedom rising again.
Saturday, April 19, 2008
Do mesmo ar
Quando abrir o céu
Será vista, a sinfonia.
Quando rir ao léu
e abraçar o dia
antes da conquista
só então se ouvirá
a paisagem que se vê.
Quando antes do sol, nascer
um canto de sabiá
nos olhos de caminhar
será vista, a sinfonia
tocando no ar.
Será vista, a sinfonia.
Quando rir ao léu
e abraçar o dia
antes da conquista
só então se ouvirá
a paisagem que se vê.
Quando antes do sol, nascer
um canto de sabiá
nos olhos de caminhar
será vista, a sinfonia
tocando no ar.
Friday, March 07, 2008
Monday, February 25, 2008
Írio
Írio gostava de fazer nada. Mas não era um nada qualquer. Para Írio, encontrar com os amigos no bar sem hora pra voltar já era fazer alguma coisa. Aliás, muita coisa. Írio detestava quando diziam que iam ligar para ele pra “marcar de sair e fazer alguma coisa”. Era um exagero aquilo. Além de sair ainda tinham que fazer alguma coisa. Incomodava-se constantemente com esse tipo de atitude. E fazia questão de deixar claro que não simpatizava. Afinal, ele tinha mais o que não fazer.
Írio era verdadeiramente um amante da “não-atividade”, um apaixonado pelo “fazer nada”. Estava sempre incomodado porque as pessoas eram umas desocupadas, viviam interrompendo o nada que ele estava fazendo. Por isso fazia questão de ressaltar que ninguém entende nada de nada e que a grande maioria não saberia reconhecer o nada se o visse, mesmo que estivesse debaixo do próprio nariz. Quer dizer, nada tem em todo o lugar, as pessoas não vêem porque não querem, porque não querem nem saber de nada.
Mas o fato é que ele era obrigado a conviver com todos aqueles incautos e incivilizados, imersos em ignorância: e que viviam como se o nada não existisse. Quer dizer, como se o nada não fosse nada.
- Vamos sair um pouco, Írio. Você não está fazendo nada...
- Estou sim. E você está me interrompendo.
- Mas... o que você está fazendo?
- NADA!! Quantas vezes tenho que repetir?!?
Assim que entrou na faculdade, Írio ficou viciado em trabalhar como fiscal nos vestibulares. Fazia-se muito pouco no começo das provas e minutos depois havia horas de nada pra fazer, plenas de nada inerente. Melhor ainda era quando tinha que esperar os candidatos que pediam tempo adicional. Írio freqüentemente se referia a eles como “meus preferidos”.
Írio era verdadeiramente um amante da “não-atividade”, um apaixonado pelo “fazer nada”. Estava sempre incomodado porque as pessoas eram umas desocupadas, viviam interrompendo o nada que ele estava fazendo. Por isso fazia questão de ressaltar que ninguém entende nada de nada e que a grande maioria não saberia reconhecer o nada se o visse, mesmo que estivesse debaixo do próprio nariz. Quer dizer, nada tem em todo o lugar, as pessoas não vêem porque não querem, porque não querem nem saber de nada.
Mas o fato é que ele era obrigado a conviver com todos aqueles incautos e incivilizados, imersos em ignorância: e que viviam como se o nada não existisse. Quer dizer, como se o nada não fosse nada.
- Vamos sair um pouco, Írio. Você não está fazendo nada...
- Estou sim. E você está me interrompendo.
- Mas... o que você está fazendo?
- NADA!! Quantas vezes tenho que repetir?!?
Assim que entrou na faculdade, Írio ficou viciado em trabalhar como fiscal nos vestibulares. Fazia-se muito pouco no começo das provas e minutos depois havia horas de nada pra fazer, plenas de nada inerente. Melhor ainda era quando tinha que esperar os candidatos que pediam tempo adicional. Írio freqüentemente se referia a eles como “meus preferidos”.
Em pouco tempo, profissionalizou-se e tornou-se um autônomo especializado em fiscalização de provas. Agendava sua semana pelas datas de concursos, exames psicotécnicos ou qualquer tipo de avaliação.
Desde que houvesse bastante nada pra fazer, Írio não se importava com o dinheiro, apesar de já estar cansado de ouvir da sua família o tempo todo que “nada não enche barriga” e que nada não leva a nada. Mas, a verdade seja dita: nada convencia Írio. Selecionava cuidadosamente seus trabalhos pelo tipo de nada que proporcionavam. Írio era quase um especialista em nada, sabia valorizar o nada e executá-lo como poucos. Nada lhe dava, na verdade, mais satisfação. Não havia nada que não gostasse e sempre buscava um nada que fosse nada mesmo. Um nada que, a princípio, fosse nada, mas que no fundo, intimamente, fosse nada também. Um nada simples, verdadeiro, íntegro,... nada desses nadas que não valem nada. Quer dizer, um nada que valesse a pena.
Havia poucos horários em que não fazia nada. Mesmo quando não estava trabalhando, Írio mantinha-se sempre muito ocupado fazendo nada em casa. Filosofava sobre o nada. E explicava que havia um ponto ideal para “o fazer do nada”, que era quando a noção de tempo começava a desaparecer.
- O ponto ideal, é quando você já não sabe mais se ontem foi ontem mesmo e se hoje ainda é o hoje de ontem, ou se, na verdade, já é o amanhã de hoje, ou seja, o hoje que teria então, se tornado ontem.
- O que???
- Nada, nada.
Alguns anos se passaram e Írio já não se incomodava tanto com a dificuldade que as pessoas tinham em entendê-lo. Írio era feliz, ficava satisfeito com nada. Com algum esforço encontrava bastante nada no mercado de trabalho. Além disso, aprendera a tirar lucro do nada. Era convidado para dar palestras sobre nada, uma área pouco explorada até então.
Nas férias, costumava freqüentar salas de espera de consultórios. Alguns pacientes o consideravam um exemplo, pois nunca tinham visto alguém numa sala de espera com tamanha serenidade e paz de espírito. Outros o invejavam pela mesma razão e desconfiavam dele e de toda aquela tranqüilidade aparente. Quando perguntavam a ele o que ele realmente estava fazendo ali, ele respondia, honestamente:
- Nada.
Mas ninguém acreditava nele. Não adiantava explicar.
Desde que houvesse bastante nada pra fazer, Írio não se importava com o dinheiro, apesar de já estar cansado de ouvir da sua família o tempo todo que “nada não enche barriga” e que nada não leva a nada. Mas, a verdade seja dita: nada convencia Írio. Selecionava cuidadosamente seus trabalhos pelo tipo de nada que proporcionavam. Írio era quase um especialista em nada, sabia valorizar o nada e executá-lo como poucos. Nada lhe dava, na verdade, mais satisfação. Não havia nada que não gostasse e sempre buscava um nada que fosse nada mesmo. Um nada que, a princípio, fosse nada, mas que no fundo, intimamente, fosse nada também. Um nada simples, verdadeiro, íntegro,... nada desses nadas que não valem nada. Quer dizer, um nada que valesse a pena.
Havia poucos horários em que não fazia nada. Mesmo quando não estava trabalhando, Írio mantinha-se sempre muito ocupado fazendo nada em casa. Filosofava sobre o nada. E explicava que havia um ponto ideal para “o fazer do nada”, que era quando a noção de tempo começava a desaparecer.
- O ponto ideal, é quando você já não sabe mais se ontem foi ontem mesmo e se hoje ainda é o hoje de ontem, ou se, na verdade, já é o amanhã de hoje, ou seja, o hoje que teria então, se tornado ontem.
- O que???
- Nada, nada.
Alguns anos se passaram e Írio já não se incomodava tanto com a dificuldade que as pessoas tinham em entendê-lo. Írio era feliz, ficava satisfeito com nada. Com algum esforço encontrava bastante nada no mercado de trabalho. Além disso, aprendera a tirar lucro do nada. Era convidado para dar palestras sobre nada, uma área pouco explorada até então.
Nas férias, costumava freqüentar salas de espera de consultórios. Alguns pacientes o consideravam um exemplo, pois nunca tinham visto alguém numa sala de espera com tamanha serenidade e paz de espírito. Outros o invejavam pela mesma razão e desconfiavam dele e de toda aquela tranqüilidade aparente. Quando perguntavam a ele o que ele realmente estava fazendo ali, ele respondia, honestamente:
- Nada.
Mas ninguém acreditava nele. Não adiantava explicar.
Sunday, January 13, 2008
Crônicas
Eram muitas crônicas. Papéis amassados. Cabelos amassados, olhos amassados. Tudo parecia amassado. Ele não escrevia mais. Porque queria dizer a ela que... Bom, ele queria dizer a ela que...
Se ele soubesse as palavras, eu poderia escrevê-las aqui. O que ele disse, na verdade, foi que naquele momento, o desperdício do papel não era o mais importante. E em seguida amassou este parágrafo também. Só saiu aqui porque eu resgatei do arquivo “descartados, amassados, desprezados, deletados”. Não é muito, mas é o que ele escreveu, aquele louco. Jogando tudo fora, sempre. Como se nos erros não houvesse algo pra aproveitar.
Mas enfim. Eram muitas crônicas. E muitas delas, amassadas. Muitas. E algumas delas saíam mais amassadas ainda, como esta.
Se ele soubesse as palavras, eu poderia escrevê-las aqui. O que ele disse, na verdade, foi que naquele momento, o desperdício do papel não era o mais importante. E em seguida amassou este parágrafo também. Só saiu aqui porque eu resgatei do arquivo “descartados, amassados, desprezados, deletados”. Não é muito, mas é o que ele escreveu, aquele louco. Jogando tudo fora, sempre. Como se nos erros não houvesse algo pra aproveitar.
Mas enfim. Eram muitas crônicas. E muitas delas, amassadas. Muitas. E algumas delas saíam mais amassadas ainda, como esta.
Meu sabiá
Avisto um sabiá
em árvores que a minha vista dá.
E não é longe.
É só olhar e ouvir, o canto soar.
Mas me perguntam, onde está?
Dizem que daqui, não se vê nenhum sabiá.
Mas todos ouvem, por aí, um sabiá cantar.
E se perguntam, onde está?
E eu aponto:
lá.
E se perguntam:
será?
Como se só na minha vista houvesse um sabiá!
Mas não é longe, é só olhar. E ouvi-lo cantar.
em árvores que a minha vista dá.
E não é longe.
É só olhar e ouvir, o canto soar.
Mas me perguntam, onde está?
Dizem que daqui, não se vê nenhum sabiá.
Mas todos ouvem, por aí, um sabiá cantar.
E se perguntam, onde está?
E eu aponto:
lá.
E se perguntam:
será?
Como se só na minha vista houvesse um sabiá!
Mas não é longe, é só olhar. E ouvi-lo cantar.
Wednesday, December 19, 2007
Horário
Às vezes, ele é muito exigente. Um chato, mesmo. É verdade que há alguns momentos flexíveis. Quando acontece, nem parece que é o mesmo horário. E sempre tem uns horários tentando se passar por outros. É preciso estar atento.
Passamos por muita coisa, meu horário e eu. Trabalhos de faculdade atrasados, compromissos de última hora, e agora, o início das férias. Nos separamos, desde então. Foi um adeus meio curto, distante. Quase indiferente. Não vi mais meu horário. Cheguei a esquecer do horário por um tempo e quando percebi, já tinha me afastado dele, já não era mais a mesma coisa, fui um insensível. Agi como se ele nunca tivesse existido, entende? Eu realmente devo desculpas ao horário.
Desculpa, horário. Eu quis manter contato. Até comprei um despertador. Sério. Também pensei em comprar um relógio de pulso e dar um basta nessa mania de olhar as horas só no celular. Mas é uma correria essa vida, não sobra tempo nem para horários.
E não é só isso. Para ser bem franco, eu estou numa fase da minha vida em que não posso ter um horário. Simplesmente não dá. É complicado isso, mas é fato: preciso de mais liberdade, quero curtir mais a minha vida, sem horários. Viver uma fase, sei lá, atemporal. Não estou psciologicamente preparado para ter um horário. Não agora. Agora não é hora de horário.
Porque o importante não é ter um horário só pra ter e dizer que tem, entende? É preciso amar o horário, aceitar os defeitos dele, manter aquele clima. Mesmo porque, antes sem horário do que mal organizado. Ou seja, não é tão fácil: se há uma coisa que me irrita em horários é a obsessão pela exatidão, a inflexibilidade com atrasos, mesmo que pequenos. Aliás, o cerne do problema é esse, os horários não acompanham o ritmo de cada um. São uns egoístas. Só querem saber de si próprios e nos julgam pela pontualidade. Como se o ser humano pudesse abdicar de algo tão peculiar, que o diferencia dos outros animais, que é a capacidade de realmente se atrasar. Afinal, o homem é o único animal que marca as coisas, combina com exatidão os horários e esquece.
Outra característica bastante peculiar e exclusiva do ser humano é a de ficar confuso com o óbvio. Ele marca um horário, chega em outro e pensa que ainda é o mesmo horário. Ou age como se fosse.
- Mas você não falou cinco horas?
- Falei! E agora são cinco e vinte e cinco!
- Isso, é por aí, cinco, cinco e pouco...
É provável que os seres humanos mais relativistas defendam a relação humano e horário, dizendo que a concepção de horário de cada um é um conceito absolutamente sagrado. Mas é óbvio que isso já é outro assunto. Então marquemos um horário pra gente se encontrar e conversar depois.
Desculpa, horário. Eu quis manter contato. Até comprei um despertador. Sério. Também pensei em comprar um relógio de pulso e dar um basta nessa mania de olhar as horas só no celular. Mas é uma correria essa vida, não sobra tempo nem para horários.
E não é só isso. Para ser bem franco, eu estou numa fase da minha vida em que não posso ter um horário. Simplesmente não dá. É complicado isso, mas é fato: preciso de mais liberdade, quero curtir mais a minha vida, sem horários. Viver uma fase, sei lá, atemporal. Não estou psciologicamente preparado para ter um horário. Não agora. Agora não é hora de horário.
Porque o importante não é ter um horário só pra ter e dizer que tem, entende? É preciso amar o horário, aceitar os defeitos dele, manter aquele clima. Mesmo porque, antes sem horário do que mal organizado. Ou seja, não é tão fácil: se há uma coisa que me irrita em horários é a obsessão pela exatidão, a inflexibilidade com atrasos, mesmo que pequenos. Aliás, o cerne do problema é esse, os horários não acompanham o ritmo de cada um. São uns egoístas. Só querem saber de si próprios e nos julgam pela pontualidade. Como se o ser humano pudesse abdicar de algo tão peculiar, que o diferencia dos outros animais, que é a capacidade de realmente se atrasar. Afinal, o homem é o único animal que marca as coisas, combina com exatidão os horários e esquece.
Outra característica bastante peculiar e exclusiva do ser humano é a de ficar confuso com o óbvio. Ele marca um horário, chega em outro e pensa que ainda é o mesmo horário. Ou age como se fosse.
- Mas você não falou cinco horas?
- Falei! E agora são cinco e vinte e cinco!
- Isso, é por aí, cinco, cinco e pouco...
É provável que os seres humanos mais relativistas defendam a relação humano e horário, dizendo que a concepção de horário de cada um é um conceito absolutamente sagrado. Mas é óbvio que isso já é outro assunto. Então marquemos um horário pra gente se encontrar e conversar depois.
Thursday, November 01, 2007
Gaitas-de-fole
Eu ouvia gaitas-de-fole.
Havia chuvas torrenciais
e sóis nascendo em quatro direções.
Amanheciam manhãs.
Entardeciam dias e anoiteciam luas.
O tempo era,
e fora,
o tempo é,
e será.
As lágrimas eram sorrisos
de um júbilo tão triste...
A tristeza era a felicidade,
a saudade, do nada que existe.
O infinito passava ainda mais,
porque era lei.
E teus olhos me disseram:
é,
eu sei.
Havia chuvas torrenciais
e sóis nascendo em quatro direções.
Amanheciam manhãs.
Entardeciam dias e anoiteciam luas.
O tempo era,
e fora,
o tempo é,
e será.
As lágrimas eram sorrisos
de um júbilo tão triste...
A tristeza era a felicidade,
a saudade, do nada que existe.
O infinito passava ainda mais,
porque era lei.
E teus olhos me disseram:
é,
eu sei.
Tuesday, October 23, 2007
Conversando
Outro dia, eu queria conversar comigo mesmo. E nada de nós nos encontrarmos, ando muito sem tempo. Mandei-me um email, que eu li correndo e nem me respondi. Pensei: vou me adicionar no msn.
Nós nos encontramos então, no msn, eu e eu. E foi estranho, não porque era uma conversa de msn comigo mesmo, mas porque eu sou muito diferente de mim. Foi bom, pra me conhecer melhor e saber como lidar comigo. Mesmo assim, ficamos ambos surpresos e perplexos um com o outro. Nós não concordávamos em muita coisa e, claro que as pessoas são contraditórias, mas enxergar as próprias contradições é impactante.
Mas o outro disse:
- Que impactante, que nada. Você já sabia, disso tudo.
- Eu não.
- Sabia sim.
- Eu não sabia de nada. É você que já sabia. Eu fiquei sabendo agora.
- Sim. Mas você sou eu.
Foi aí que eu descobri que tinha coisas que eu sabia e não sabia ao mesmo tempo. E que na verdade, era uma ignorância muito grande achar que eu era sempre inocente. Ou seja, passei a entender que chegar atrasado, por exemplo, não era necessariamente obra do acaso. Muitas vezes, o outro eu, com quem eu não conversava tanto, já sabia que eu ia me atrasar. Porque eu queria me atrasar. Mas ao mesmo tempo não queria. Então, era possível que dentro de mim co-existissem duas opiniões, de fato contraditórias. E que, de alguma forma, eu escolhia qual delas eu ia manter visível pra mim mesmo. Se alguém me perguntasse eu diria com convicção que não tinha intenção alguma de me atrasar.
- Você queria ficar mais tempo na internet, vamos, confesse!
- Não, não!!
- Queria sim!
- Mas eu queria chegar na hora!
- Confessa logo, o papo estava bom e você não quis olhar no relógio!
- Eu queria chegar na hora, você é que queria se atrasar!
- Certo, certo. Eu admito isso. Mas você, meu caro, sou eu.
- Eu nunca sei se eu fico feliz ou irritado quando você diz isso.
- Sabe sim.
- Chega!!
Passei a discutir mais comigo mesmo, tentando antecipar a visão sobre as minhas intenções ocultas a mim. E ao discutir comigo, surgiu outro problema: eu sempre tinha razão e ao mesmo tempo nunca tinha. Em compensação, eu comecei a ficar mais matreiro:
- Eu sei que você sabe que eu sei, que você sabe que eu sei o que eu sei.
- Certo, certo. Mas isso não interessa.
- Ah, não?
- Claro que não. O que interessa é o que você vai fazer com o que você sabe.
- Pois é. Tens razão. Mas isso eu ainda não sei.
- É, isso eu já sabia.
Essa mania de já saber tudo e não saber de nada me dava nos nervos. Ou não.
- Eu sei o que você está pensando.
- Claro que sabe. Você sou eu. Será que eu sempre tenho que te lembrar isso?
- Não me enrola. To te sacando, cara.
- Como é??
- É isso aí. To te sacando, cara.
- Ora, cale-se.
- Não muda de assunto não. Eu já te saquei.
- Pronto. Endoidou de vez.
Mas o outro disse:
- Que impactante, que nada. Você já sabia, disso tudo.
- Eu não.
- Sabia sim.
- Eu não sabia de nada. É você que já sabia. Eu fiquei sabendo agora.
- Sim. Mas você sou eu.
Foi aí que eu descobri que tinha coisas que eu sabia e não sabia ao mesmo tempo. E que na verdade, era uma ignorância muito grande achar que eu era sempre inocente. Ou seja, passei a entender que chegar atrasado, por exemplo, não era necessariamente obra do acaso. Muitas vezes, o outro eu, com quem eu não conversava tanto, já sabia que eu ia me atrasar. Porque eu queria me atrasar. Mas ao mesmo tempo não queria. Então, era possível que dentro de mim co-existissem duas opiniões, de fato contraditórias. E que, de alguma forma, eu escolhia qual delas eu ia manter visível pra mim mesmo. Se alguém me perguntasse eu diria com convicção que não tinha intenção alguma de me atrasar.
- Você queria ficar mais tempo na internet, vamos, confesse!
- Não, não!!
- Queria sim!
- Mas eu queria chegar na hora!
- Confessa logo, o papo estava bom e você não quis olhar no relógio!
- Eu queria chegar na hora, você é que queria se atrasar!
- Certo, certo. Eu admito isso. Mas você, meu caro, sou eu.
- Eu nunca sei se eu fico feliz ou irritado quando você diz isso.
- Sabe sim.
- Chega!!
Passei a discutir mais comigo mesmo, tentando antecipar a visão sobre as minhas intenções ocultas a mim. E ao discutir comigo, surgiu outro problema: eu sempre tinha razão e ao mesmo tempo nunca tinha. Em compensação, eu comecei a ficar mais matreiro:
- Eu sei que você sabe que eu sei, que você sabe que eu sei o que eu sei.
- Certo, certo. Mas isso não interessa.
- Ah, não?
- Claro que não. O que interessa é o que você vai fazer com o que você sabe.
- Pois é. Tens razão. Mas isso eu ainda não sei.
- É, isso eu já sabia.
Essa mania de já saber tudo e não saber de nada me dava nos nervos. Ou não.
- Eu sei o que você está pensando.
- Claro que sabe. Você sou eu. Será que eu sempre tenho que te lembrar isso?
- Não me enrola. To te sacando, cara.
- Como é??
- É isso aí. To te sacando, cara.
- Ora, cale-se.
- Não muda de assunto não. Eu já te saquei.
- Pronto. Endoidou de vez.
Friday, October 12, 2007
Pássaro
Quando retumbava no céu
o canto repetido,
o ar era o pássaro.
pássaro
Mas distraído,
senti que passavam ao léu,
vistas do alto do monte.
E ao raiar o dia,
era um salto!!
Por sobre a linha do horizonte.
Passareavam as sinfonias das manhãs,
e as vistas amanheciam sãs.
o canto repetido,
o ar era o pássaro.
pássaro
Mas distraído,
senti que passavam ao léu,
vistas do alto do monte.
E ao raiar o dia,
era um salto!!
Por sobre a linha do horizonte.
Passareavam as sinfonias das manhãs,
e as vistas amanheciam sãs.
Monday, September 03, 2007
Bem-te-vi
Em seis dias
vimos em nós
as horas mais tardias,
ainda que sós.
Na sétima aurora
não soube de ti
e cada um foi embora
seguir sua andança.
Agora é só me distrair
que me vem a lembrança:
Bem-te-vi! Bem-te-vi!!
vimos em nós
as horas mais tardias,
ainda que sós.
Na sétima aurora
não soube de ti
e cada um foi embora
seguir sua andança.
Agora é só me distrair
que me vem a lembrança:
Bem-te-vi! Bem-te-vi!!
Bem-te-vi! Bem-te-vi!!
Thursday, August 23, 2007
Barulhentos
Não interessa se você é católico ortodoxo, católico carismático, protestante, pentecostal, evangélico, testemunha de Jeová, batizado, comungado, pastor, padre, bispo, papa ou qualquer outra autoridade religiosa cristã. Se você é barulhento, eu sou obrigado a ouvir as suas músicas, as suas pregações e os seus posicionamentos religiosos contra a minha vontade. Mas eu vos perdôo, porque não sabeis o que fazeis. Se soubesses, não o faríeis, claro. Mas vós o fazeis. Enfim. Vós não me amais.
Tudo bem, porque eu vos amo. Como diz o poeta brasiliense, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, vai imaginar aquele barulho todo acontecendo de novo no final de semana que vem e pode acabar pensando em fazer algo pouco cristão. Mas o fato de eu ser assim, fraternal, iluminado e espiritualmente superior, não significa que eu aprove vossa conduta barulhenta. Até onde eu sei, Jesus não gritava nos ouvidos do próximo. Aliás, suas palavras certamente não teriam o mesmo efeito:
- AMAI AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO!!!!!!!!!!!
Os discípulos entreolham-se.
Tudo bem, porque eu vos amo. Como diz o poeta brasiliense, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, vai imaginar aquele barulho todo acontecendo de novo no final de semana que vem e pode acabar pensando em fazer algo pouco cristão. Mas o fato de eu ser assim, fraternal, iluminado e espiritualmente superior, não significa que eu aprove vossa conduta barulhenta. Até onde eu sei, Jesus não gritava nos ouvidos do próximo. Aliás, suas palavras certamente não teriam o mesmo efeito:
- AMAI AO PRÓXIMO COMO A TI MESMO!!!!!!!!!!!
Os discípulos entreolham-se.
- Por que ele está gritando?
- Mestre, por que gritas?
- E A DEUS ACIMA DE TODAS AS COISAS!!!!!!!!!!!!! ESTÁS OUVINDO?!?!?!? A DEUS ACIMA DE TODAS AS COISAS!!!!!!!!!!!!!!
É difícil encontrar novas intersecções religiosas entre as dissidências cristãs. No entanto, hoje em dia há os “barulhentos” e qualquer dissidência cristã pode se adequar à prática.
- Eu sou evangélico da pastoral.
- Ahn. Bom, eu sou católico ortodoxo.
- Sei...
Fica aquele clima. Mas...
- Mas eu sou católico ortodoxo barulhento.
- Você é barulhento!?!?
- Sim!!
- Eu também!!!
E os dois saem abraçados às gargalhadas, à procura de um microfone ou amplificador.
A origem dos “barulhentos” pode ser explicada pela simples observação da história. São resultado das dificuldades dos primeiros pregadores que, defronte ao aumento de fiéis, precisavam gritar para serem ouvidos pelas multidões. Ou talvez façam parte dos cristãos mais remotos que eram obrigados a se esconder e realizar suas cerimônias em catacumbas: agora, berram nos microfones só por vingança.
Os barulhentos são inovadores. “Não roubarás”, por exemplo, tem lá suas exceções: é permitido roubar o silêncio e a paz alheia, uma vez que, não há como saber se o silêncio do próximo significa que está sendo iluminado por um anjo ou que está mergulhando nas trevas, tentado pelo demônio. Na dúvida, melhor ser barulhento e salvar mais uma alma.
- Irmão, estou tentando pensar um pouco. Que barulheira é essa?
- É que esse silêncio todo me deixou preocupado!
- Mas foram só cinco minutos!
- Você devia se envergonhar!!!
- Mas foram só cinco minutos!!
- Tá bom, eu não conto pra ninguém.
Mas não se trata de muitos ou poucos minutos. Os barulhentos devem estar em constante alerta. E por conseqüência, todos à sua volta também. Afinal, até onde se sabe, “não matarás” se refere ao próximo e não ao silêncio. E também não há nenhum mandamento dizendo “não incomodarás”. Mas há um problema: o silêncio é imortal. Toda vez que cessa o barulho, ele reaparece, tão silencioso quanto antes. É preciso vigiar. E dormir com a televisão no volume máximo, só pra garantir.
- Mestre, por que gritas?
- E A DEUS ACIMA DE TODAS AS COISAS!!!!!!!!!!!!! ESTÁS OUVINDO?!?!?!? A DEUS ACIMA DE TODAS AS COISAS!!!!!!!!!!!!!!
É difícil encontrar novas intersecções religiosas entre as dissidências cristãs. No entanto, hoje em dia há os “barulhentos” e qualquer dissidência cristã pode se adequar à prática.
- Eu sou evangélico da pastoral.
- Ahn. Bom, eu sou católico ortodoxo.
- Sei...
Fica aquele clima. Mas...
- Mas eu sou católico ortodoxo barulhento.
- Você é barulhento!?!?
- Sim!!
- Eu também!!!
E os dois saem abraçados às gargalhadas, à procura de um microfone ou amplificador.
A origem dos “barulhentos” pode ser explicada pela simples observação da história. São resultado das dificuldades dos primeiros pregadores que, defronte ao aumento de fiéis, precisavam gritar para serem ouvidos pelas multidões. Ou talvez façam parte dos cristãos mais remotos que eram obrigados a se esconder e realizar suas cerimônias em catacumbas: agora, berram nos microfones só por vingança.
Os barulhentos são inovadores. “Não roubarás”, por exemplo, tem lá suas exceções: é permitido roubar o silêncio e a paz alheia, uma vez que, não há como saber se o silêncio do próximo significa que está sendo iluminado por um anjo ou que está mergulhando nas trevas, tentado pelo demônio. Na dúvida, melhor ser barulhento e salvar mais uma alma.
- Irmão, estou tentando pensar um pouco. Que barulheira é essa?
- É que esse silêncio todo me deixou preocupado!
- Mas foram só cinco minutos!
- Você devia se envergonhar!!!
- Mas foram só cinco minutos!!
- Tá bom, eu não conto pra ninguém.
Mas não se trata de muitos ou poucos minutos. Os barulhentos devem estar em constante alerta. E por conseqüência, todos à sua volta também. Afinal, até onde se sabe, “não matarás” se refere ao próximo e não ao silêncio. E também não há nenhum mandamento dizendo “não incomodarás”. Mas há um problema: o silêncio é imortal. Toda vez que cessa o barulho, ele reaparece, tão silencioso quanto antes. É preciso vigiar. E dormir com a televisão no volume máximo, só pra garantir.
Thursday, July 05, 2007
Autêntico
Ele sempre tinha reações inesperadamente autênticas.
- Será que o senhor poderia me dar uma informação...
- Não.
Só depois de dizer mais algumas palavras sobre a informação que queriam é que as pessoas entendiam, e assimilando a primeira resposta, confusas, perguntavam:
- Não?
Ao que ele confirmava:
- Não.
Já acostumado com a confusão mental que causava a resposta, ele acrescentava:
- Estou dizendo que não posso lhe dar a informação... Não que você vá ficar sem ela. Você pode perguntar pra outra pessoa.
Teve alguns problemas na escola. Dele saíam respostas obscuras, revolucionárias, infames, desconexas e, algumas vezes, triviais. Ou tudo isso junto:
- A professora me pergunta quando morreu Tiradentes. Pois eu, professora, lhe pergunto quando ele nasceu, onde foi criado e se foi feliz.
Quando chegou a época de fazer vestibular, alguns amigos sustentavam a idéia de que suas respostas alternavam entre sarcásticas e sérias. Outros diziam que era impossível distinguir.
- Vai fazer vestibular pra que?
- Pra testar a minha inteligência. Inclusive, sonhei com isso ontem.
Ele sempre parava para explicar a quem fosse mais insistente que, o que ele queria mesmo era passar pra Psicologia. E depois, é claro, queria conseguir transferência para Sociologia ou Engenharia Civil. Quando percebia a confusão instalada na expressão das pessoas, ele dizia:
- É que assim eu sei que vai ser divertido. Mesmo.
Anos depois, numa entrevista de emprego, seu entrevistador faz a primeira pergunta padrão:
- Por que o senhor quer este emprego?
- Sabe, você tem razão. Pra quê? E talvez você devesse repensar isso também. Você não me parece muito feliz.
Na fila do banco, quando chegava a vez dele, dizia alguma coisa à moça do caixa e voltava pro final da fila. Depois de umas duas horas, foi abordado pelo segurança:
- Com licença... o senhor não pode ficar aqui...
- O senhor é que não pode, esta fila é para clientes.
Levado pelo braço, na porta ele grita para a moça do caixa:
- Amanhã eu volto pra conversarmos com mais calma!!
A vertente dos amigos que considerava suas respostas oscilantes entre sarcásticas e sérias, não teve dúvidas. Aquilo era um gesto romântico. A vertente que dizia ser impossível distinguir entre uma coisa e outra, resolveu concordar. Afinal, era isso ou ser obrigado a classificar o caso como patológico.
No dia seguinte ele estava lá, cumprimentou o segurança e pediu desculpas. Não pela conduta pouco convencional, é claro. O motivo da retratação era ter pressuposto que o segurança não era cliente do banco. Dito isso, voltou pra fila, conseguiu o telefone da moça. Não o número, o aparelho. Disse que precisava muito ligar pra ele mesmo, de outro celular. Mais à noite, depois do serviço, ela atende ao telefone e ele vai logo dizendo:
- Estou retornando a minha ligação. Eu gostaria de falar comigo. Mas eu ainda não estou aí, eu sei. Onde você está?
Depois de vê-lo com a namorada, uns estavam certos de que ele era um romântico incompreendido, outros diziam que ele era só louco mesmo, outros afirmavam que suas reações eram excêntricas e que ele não tinha mudado nada desde a época do vestibular.
A namorada era simpática, um tanto reservada, parecia não se incomodar com o jeito dele e não comentava nada durante as conversas em que tentavam decifrá-lo. Todo aquele silêncio da moça do caixa só tornava o assunto mais intrigante e deixava os amigos sem jeito de perguntar o que ela pensava afinal. Até o dia em que alguém tomou coragem pra tentar satisfazer a curiosidade do pessoal:
- Escuta, posso te fazer uma pergunta?
E a moça:
- Não.
- Será que o senhor poderia me dar uma informação...
- Não.
Só depois de dizer mais algumas palavras sobre a informação que queriam é que as pessoas entendiam, e assimilando a primeira resposta, confusas, perguntavam:
- Não?
Ao que ele confirmava:
- Não.
Já acostumado com a confusão mental que causava a resposta, ele acrescentava:
- Estou dizendo que não posso lhe dar a informação... Não que você vá ficar sem ela. Você pode perguntar pra outra pessoa.
Teve alguns problemas na escola. Dele saíam respostas obscuras, revolucionárias, infames, desconexas e, algumas vezes, triviais. Ou tudo isso junto:
- A professora me pergunta quando morreu Tiradentes. Pois eu, professora, lhe pergunto quando ele nasceu, onde foi criado e se foi feliz.
Quando chegou a época de fazer vestibular, alguns amigos sustentavam a idéia de que suas respostas alternavam entre sarcásticas e sérias. Outros diziam que era impossível distinguir.
- Vai fazer vestibular pra que?
- Pra testar a minha inteligência. Inclusive, sonhei com isso ontem.
Ele sempre parava para explicar a quem fosse mais insistente que, o que ele queria mesmo era passar pra Psicologia. E depois, é claro, queria conseguir transferência para Sociologia ou Engenharia Civil. Quando percebia a confusão instalada na expressão das pessoas, ele dizia:
- É que assim eu sei que vai ser divertido. Mesmo.
Anos depois, numa entrevista de emprego, seu entrevistador faz a primeira pergunta padrão:
- Por que o senhor quer este emprego?
- Sabe, você tem razão. Pra quê? E talvez você devesse repensar isso também. Você não me parece muito feliz.
Na fila do banco, quando chegava a vez dele, dizia alguma coisa à moça do caixa e voltava pro final da fila. Depois de umas duas horas, foi abordado pelo segurança:
- Com licença... o senhor não pode ficar aqui...
- O senhor é que não pode, esta fila é para clientes.
Levado pelo braço, na porta ele grita para a moça do caixa:
- Amanhã eu volto pra conversarmos com mais calma!!
A vertente dos amigos que considerava suas respostas oscilantes entre sarcásticas e sérias, não teve dúvidas. Aquilo era um gesto romântico. A vertente que dizia ser impossível distinguir entre uma coisa e outra, resolveu concordar. Afinal, era isso ou ser obrigado a classificar o caso como patológico.
No dia seguinte ele estava lá, cumprimentou o segurança e pediu desculpas. Não pela conduta pouco convencional, é claro. O motivo da retratação era ter pressuposto que o segurança não era cliente do banco. Dito isso, voltou pra fila, conseguiu o telefone da moça. Não o número, o aparelho. Disse que precisava muito ligar pra ele mesmo, de outro celular. Mais à noite, depois do serviço, ela atende ao telefone e ele vai logo dizendo:
- Estou retornando a minha ligação. Eu gostaria de falar comigo. Mas eu ainda não estou aí, eu sei. Onde você está?
Depois de vê-lo com a namorada, uns estavam certos de que ele era um romântico incompreendido, outros diziam que ele era só louco mesmo, outros afirmavam que suas reações eram excêntricas e que ele não tinha mudado nada desde a época do vestibular.
A namorada era simpática, um tanto reservada, parecia não se incomodar com o jeito dele e não comentava nada durante as conversas em que tentavam decifrá-lo. Todo aquele silêncio da moça do caixa só tornava o assunto mais intrigante e deixava os amigos sem jeito de perguntar o que ela pensava afinal. Até o dia em que alguém tomou coragem pra tentar satisfazer a curiosidade do pessoal:
- Escuta, posso te fazer uma pergunta?
E a moça:
- Não.
Sunday, July 01, 2007
Tu que lês
Eu senti tua vontade.
Tu que lês,
que quer uma dor
ou uma idéia
de amor.
Ou só uma rima
Ou ausência dela.
Queres uma visão da vista
da minha janela.
Ou da vida
que é bela
eu sinto tua ironia,
tua distância…
Não vás, fica aqui.
Lê.
Não é minha vista, bela ou feia,
o que te faz sorrir,
Tu que lês,
só pra terminar e ter lido;
Lê outra vez,
Lê como do tronco se sobe às folhas.
E lá sim, avista do alto:
Mas antes escala.
a poesia, montanhosa.
O final é começo o começo é fim,
Tu que lês alcanças o céu
Assim,
Tu que lês,
que quer uma dor
ou uma idéia
de amor.
Ou só uma rima
Ou ausência dela.
Queres uma visão da vista
da minha janela.
Ou da vida
que é bela
eu sinto tua ironia,
tua distância…
Não vás, fica aqui.
Lê.
Não é minha vista, bela ou feia,
o que te faz sorrir,
Tu que lês,
só pra terminar e ter lido;
Lê outra vez,
Lê como do tronco se sobe às folhas.
E lá sim, avista do alto:
Mas antes escala.
a poesia, montanhosa.
O final é começo o começo é fim,
Tu que lês alcanças o céu
Assim,
Friday, June 29, 2007
Escrever
Escrever. Inscrição. Escrita. Escritura. Excreção. Não, excreção não. Vejamos, vejamos… escre… escrevência. Não. Escreverecência. Escrevevinência. Não. Escreverar? Não. Escrevorear. Também não. Escriturar… escre… escrivão, escrevena, escrevina… não, não, não! Calma. Escrever a essência. Escreveressência. Escrevessência. Excrescência. Não, não! Saco! Como encontrar, como encontrar o detalhe, a beleza de um traço, a tradução da literária alma do escrever? Aquilo que há no escritor, que é a essência das idéias e das obras geniais que um dia escreveram e que um dia escreverão?
Escrever sobre o escrever… Talvez o escrever sobre o não escrever? Não, acaba dando no mesmo. Pense, pense. Devo trazer o talento afiado do escritor. Devo trazer o caminho das palavras que juntas se descobrirão em uma frase. Como se fossem as pétalas nunca ainda abertas e que pela primeira vez sentem o todo além de si mesmas, e formam a flor solitária na estrada de terra que nos leva cerrado adentro. Não… Quase deu certo. Essa coisa de flor, já usaram muito. Preciso da essência, do centro, da literariedade. Dos bastidores das palavras, da cola, da ilógica emocional que as mantém juntas no ensaio deturpador da utopia que é a perfeição. Preciso da escrefeição. Não, escrefeição não.
Vamos com calma. Vamos para além, para além da dialética. Isso. Vamos para a dialêntica... Dialênica. Dialêntida. Não. Para a diaélica, a diaéltica, a dialéltica, além da dialética complexa... a dialéxica!! Não, dialéxica, não. Droga, revoltemo-nos!! Deixemos a superficialidade!! Vamos ao sacerdócio do palavrear dialérico!! O sacerdotismo dialírico, o sacerdotar dialérgico!! Não!! Dialérgico, não. Calma lá. Vamos por partes. Precisamos chegar ao cerne. À origem, ao início do sacerdócio. O sacerdocismo, o sacerdotélico... sacerdo... sacerdotísico. Não, não... Sacerdocínio, sacerdocídio, sacerdocínico?!? Não, não!!!!!!
Calma. Simplicidade. Vamos lá. Para simplificar, é só falar em voz alta. Não pense, fale. Tenho que descrever o universo das palavras e as distâncias dos planetas em que as palavras vivem e se desenvolvem, as vidas em que a mente do escritor viaja livremente em busca de frases, músicas, poesias e filosofias, traduzidas para várias dimensões de paisagens diversas.
É, mas agora com a cabeça cansada não dá, outra hora, quem sabe. Sacerdocírico... sacerdocíclico? Não. Sacerdocíclico, não.
Tuesday, May 29, 2007
Cor da manhã
Nos firmamentos do teu caminho
o fogo que queima sozinho
dança com os azuis teus.
E quando eu vi a tua luz,
acendi os castanhos meus,
buscando as vistas ensolaradas.
E as manhãs, são castanho-azuladas.
o fogo que queima sozinho
dança com os azuis teus.
E quando eu vi a tua luz,
acendi os castanhos meus,
buscando as vistas ensolaradas.
E as manhãs, são castanho-azuladas.
Wednesday, May 16, 2007
Sobre o "kê"
Eu estava sem o meu “kê”. Não é uma metáfora sobre a minha inspiração, ou sobre o meu jeito de escrever. A minha letra, a minha tecla “kê” foi perdendo contato, talvez comigo, talvez com ela mesma e sem muita explicação, parou de funcionar. E eu kerendo escrever uma crônica, não esta, mas outra, ke precisava muito ke o meu “kê” fosse simplesmente o “kê” ke ele era antes: um “o” com uma perninha pra baixo, à direita. Mas já ke está com defeito, pensei: fazer o kê??
Sempre soube ke a gente dá mais valor à perna kuando tem ke engessar. O violão sem uma corda, parece ke não é mais o mesmo instrumento. Mas nunca pensei ke fosse sentir tanta falta do “kê”. Não dá pra dizer as mesmas coisas sem o “kê”. Não dá pra escrever uma frase kualker sem se preocupar com isso. “Kualker”, por exemplo, parece um termo alemão para cerveja ruim.
Imagine só, passar por um período küinküenal, sem o “kê”? “Küinküenal” já é difícil com o “kê”, sem ele é como se fosse o nome de um grupo indígena, tão selvagem ke só é visto de cinco em cinco anos. O “kero-kero” não voa sem os seus “kês”, parece nome de bombom. “Kiçá” pode ser uma fruta, talvez parente do kiwi. E outra: ninguém te leva a sério se você diz “eu kero”. Eu “kero” só serve pra balinhas e chicletes. Kiçá um sorvete de kiwi.
Enfim! Ker keira, ker não keira, o “kê” faz falta: mas não há propriamente saudades, tampouco nostalgia pelo “kê”. O problema, na verdade, é essa ausência disfarçada de “k”. É como se o “k” fosse um “kê” de má kualidade. Kem dera a kestão fosse mais simples e eu apenas eskecesse isso. Só ke acabo recebendo keixas sobre o “k” no lugar do “kê” e não posso kitar a dívida de “kês” trocando-os por uns “kás”, ou por kualker outro símbolo adekuado. Por ke um “kê” é um “kê” e eu nunca tinha percebido a importância disso.
Se o “kê” não volta, eu me recuso a comer keijo. Tenho a forte impressão de ke “keijo”, assim sem o “kê”, deve fazer mal à saúde. E enkuanto o “kê” não encontra mais a sua kerência aki, neste teclado kebrado, eu tento me convencer de ke eu kero, sim, eu kero comprar um teclado novo, o kuanto antes. Hoje mesmo, eu kuase acreditei.
Sempre soube ke a gente dá mais valor à perna kuando tem ke engessar. O violão sem uma corda, parece ke não é mais o mesmo instrumento. Mas nunca pensei ke fosse sentir tanta falta do “kê”. Não dá pra dizer as mesmas coisas sem o “kê”. Não dá pra escrever uma frase kualker sem se preocupar com isso. “Kualker”, por exemplo, parece um termo alemão para cerveja ruim.
Imagine só, passar por um período küinküenal, sem o “kê”? “Küinküenal” já é difícil com o “kê”, sem ele é como se fosse o nome de um grupo indígena, tão selvagem ke só é visto de cinco em cinco anos. O “kero-kero” não voa sem os seus “kês”, parece nome de bombom. “Kiçá” pode ser uma fruta, talvez parente do kiwi. E outra: ninguém te leva a sério se você diz “eu kero”. Eu “kero” só serve pra balinhas e chicletes. Kiçá um sorvete de kiwi.
Enfim! Ker keira, ker não keira, o “kê” faz falta: mas não há propriamente saudades, tampouco nostalgia pelo “kê”. O problema, na verdade, é essa ausência disfarçada de “k”. É como se o “k” fosse um “kê” de má kualidade. Kem dera a kestão fosse mais simples e eu apenas eskecesse isso. Só ke acabo recebendo keixas sobre o “k” no lugar do “kê” e não posso kitar a dívida de “kês” trocando-os por uns “kás”, ou por kualker outro símbolo adekuado. Por ke um “kê” é um “kê” e eu nunca tinha percebido a importância disso.
Se o “kê” não volta, eu me recuso a comer keijo. Tenho a forte impressão de ke “keijo”, assim sem o “kê”, deve fazer mal à saúde. E enkuanto o “kê” não encontra mais a sua kerência aki, neste teclado kebrado, eu tento me convencer de ke eu kero, sim, eu kero comprar um teclado novo, o kuanto antes. Hoje mesmo, eu kuase acreditei.
Wednesday, April 11, 2007
Partitura
Ela não disse nada.
Ele também não.
Mas os olhos se olharam,
e cantaram à primeira vista
a música orquestrada
Ele também não.
Mas os olhos se olharam,
e cantaram à primeira vista
a música orquestrada
para silêncio e respiração.
Monday, March 19, 2007
Às compras
Afinal o que poderia ser tão intrigante numa compra dentro de um supermercado? Nada, você pensa. Mas imagine duas pessoas tentando comprar alguma coisa, por exemplo, um chocolate.
– Olha esse chocolate.
– Tá barato.
– Muito barato.
– Vou levar uns nove ou dez.
– Isso.
Na compra normal, nada de muito novo, mas talvez esse seja o problema. Ou não.
– Inacreditável. O preço desse chocolate tem a perseverança dos enfraquecidos, a inveja dos impuros e o desgaste carcomido de idéias irascíveis.
– Quê?
– O preço. O preço desse chocolate é uma rara afronta a esse mundo material em que propedêuticas se isolam, mais cedo ou mais tarde, de sua fonte primeira e original.
– Então é melhor não levar?
– Ao contrário, devemos levar tantos quantos pudermos.
– Legal. Vou levar esses tantos quantos aqui.
Contudo, e se colocássemos entre os dois, menos distância e mais afinidade?
– Inacreditável. O preço desse chocolate tem a perseverança dos enfraquecidos, a inveja dos impuros e o desgaste carcomido de uma idéia irascível.
– Quê?
– O preço, olha o preço.
– Nossa! Isso é praticamente uma afronta a esse nosso mundo materialista e suas arcaicas definições sócio-econômicas.
– Realmente, uma afronta. Não só a esse mundo materialista, mas a esse mundo onde propedêuticas acabam se isolando de suas fontes primeiras e originais, o que torna o desenvolvimento científico totalmente incompleto e limitado hoje em dia.
– Exatamente! Considerando a ética e a moral de uma compra como a nossa, quantos chocolates você acha que deveríamos levar?
– No momento atual não podemos fazer nada. Nem ética nem moralmente.
– Por quê?
– Esqueci meu cartão.
Tudo bem. Ainda pode dar certo. Tentemos uma afinidade regular e uma distância bastante reduzida: um casal.
– Olha amor!
– O que, amor?
– Olha esse chocolate!
– Sim.
– Você não gosta?
– Do quê?
– Desse chocolate, amor!
– Ahn. Gosto, gosto.
– Amor!
– Que foi, amor??
– O chocolate! Tá super barato, amor!
– Ahn! Então leva, amor. Leva quantos você quiser.
– Quantos “eu” quiser? Então você não quer. É isso. Você não quer. Se você não quer então é melhor não levar.
Ele faz um certo silêncio, mas ela insiste:
– Porque eu não vou ficar comendo esse monte de chocolate sozinha pra depois você ficar me chamando de gorda.
– Amor, leva o chocolate…
– Não! Não quero mais essa porcaria.
Afinal, qual é o problema com uma simples compra de chocolate no supermercado? Tudo parece convencional, trivial e, o que parece ser o mais inevitável, completamente sem sentido. Não podemos desistir. E se fosse um casal “gay”?
– Hum…
– Que foi, fofa?
– Olha: eu simplesmente a-do-rei o preço desse chocolate.
– Ai, sério?
– A-DO-REI. Quero levar todos!
– Olha: tô totalmente desconfiada.
– Ai, sério?
– Desconfiadíssima.
– Por que, fofa?
– Não sei fofa, mas chocolate nesse preço? Deve ser horroroso.
Agora chega. Alguém tem que conseguir comprar esse maldito chocolate. Precisamos de duas pessoas experientes com compras, supermercados, chocolates, preços, promoções e coisas do gênero. Precisamos daquelas pessoas a quem sabemos poder confiar quase que cegamente uma compra de supermercado. Nossas mães e avós. E suas amigas. Mesmo porque, mães e avós são aquelas pessoas estranhas que por alguma razão incompreensível, até gostam de supermercados. Conhecem os gostos de cada membro da família. E mesmo se não conhecem, quem é que vai discutir com elas?
Senão vejamos. Duas mães no supermercado. E uma ou duas avós, só para garantir.
- Nossa, o preço desse chocolate ta ótimo. Eu devia levar pro Fernandinho, ele adora.
- Que maravilha, vou levar também. O aniversário dos meninos está vindo aí.
A avó já foi logo pegando o chocolate e verificando a embalagem:
- Não tem “light”?
A outra avó estava distraída. Chegou a comentar de uma geléia natural, sem conservantes. E a mãe do Fernandinho, com duas caixas de chocolates na mão, teve que perguntar:
- Por que “light”? Você também quer?
- E tem de pêssego! É uma geléia de pêssego sem açúcar e sem conservantes...
- Eu não quero nada. Mas o Fernandinho está muito gordo. Você não viu? A calça que eu dei pra ele no natal já não serve mais.
- Pois é. Sabe que os meninos também estão ficando muito gordos?
- É natural, feita aqui perto, numa área rural dessas. Não tem conservantes. Nem açúcar. E tem de amora, de goiaba e de pêssego.
A mãe do Fernandinho concordou.
- Então vamos levar o “light”.
- De pêssego, sem açúcar e sem conservantes! Sem conservantes!!
- Acho que não tem “light”.
Não tinha o “light”, claro. O Fernandinho ficou sem o chocolate e deve ter comido brigadeiros na festa dos meninos. E talvez você até esteja se perguntando: mas e a geléia de pêssego, goiaba e amora, sem açúcar e sem conservantes??
Mas aí já é outra crônica.
– Olha esse chocolate.
– Tá barato.
– Muito barato.
– Vou levar uns nove ou dez.
– Isso.
Na compra normal, nada de muito novo, mas talvez esse seja o problema. Ou não.
– Inacreditável. O preço desse chocolate tem a perseverança dos enfraquecidos, a inveja dos impuros e o desgaste carcomido de idéias irascíveis.
– Quê?
– O preço. O preço desse chocolate é uma rara afronta a esse mundo material em que propedêuticas se isolam, mais cedo ou mais tarde, de sua fonte primeira e original.
– Então é melhor não levar?
– Ao contrário, devemos levar tantos quantos pudermos.
– Legal. Vou levar esses tantos quantos aqui.
Contudo, e se colocássemos entre os dois, menos distância e mais afinidade?
– Inacreditável. O preço desse chocolate tem a perseverança dos enfraquecidos, a inveja dos impuros e o desgaste carcomido de uma idéia irascível.
– Quê?
– O preço, olha o preço.
– Nossa! Isso é praticamente uma afronta a esse nosso mundo materialista e suas arcaicas definições sócio-econômicas.
– Realmente, uma afronta. Não só a esse mundo materialista, mas a esse mundo onde propedêuticas acabam se isolando de suas fontes primeiras e originais, o que torna o desenvolvimento científico totalmente incompleto e limitado hoje em dia.
– Exatamente! Considerando a ética e a moral de uma compra como a nossa, quantos chocolates você acha que deveríamos levar?
– No momento atual não podemos fazer nada. Nem ética nem moralmente.
– Por quê?
– Esqueci meu cartão.
Tudo bem. Ainda pode dar certo. Tentemos uma afinidade regular e uma distância bastante reduzida: um casal.
– Olha amor!
– O que, amor?
– Olha esse chocolate!
– Sim.
– Você não gosta?
– Do quê?
– Desse chocolate, amor!
– Ahn. Gosto, gosto.
– Amor!
– Que foi, amor??
– O chocolate! Tá super barato, amor!
– Ahn! Então leva, amor. Leva quantos você quiser.
– Quantos “eu” quiser? Então você não quer. É isso. Você não quer. Se você não quer então é melhor não levar.
Ele faz um certo silêncio, mas ela insiste:
– Porque eu não vou ficar comendo esse monte de chocolate sozinha pra depois você ficar me chamando de gorda.
– Amor, leva o chocolate…
– Não! Não quero mais essa porcaria.
Afinal, qual é o problema com uma simples compra de chocolate no supermercado? Tudo parece convencional, trivial e, o que parece ser o mais inevitável, completamente sem sentido. Não podemos desistir. E se fosse um casal “gay”?
– Hum…
– Que foi, fofa?
– Olha: eu simplesmente a-do-rei o preço desse chocolate.
– Ai, sério?
– A-DO-REI. Quero levar todos!
– Olha: tô totalmente desconfiada.
– Ai, sério?
– Desconfiadíssima.
– Por que, fofa?
– Não sei fofa, mas chocolate nesse preço? Deve ser horroroso.
Agora chega. Alguém tem que conseguir comprar esse maldito chocolate. Precisamos de duas pessoas experientes com compras, supermercados, chocolates, preços, promoções e coisas do gênero. Precisamos daquelas pessoas a quem sabemos poder confiar quase que cegamente uma compra de supermercado. Nossas mães e avós. E suas amigas. Mesmo porque, mães e avós são aquelas pessoas estranhas que por alguma razão incompreensível, até gostam de supermercados. Conhecem os gostos de cada membro da família. E mesmo se não conhecem, quem é que vai discutir com elas?
Senão vejamos. Duas mães no supermercado. E uma ou duas avós, só para garantir.
- Nossa, o preço desse chocolate ta ótimo. Eu devia levar pro Fernandinho, ele adora.
- Que maravilha, vou levar também. O aniversário dos meninos está vindo aí.
A avó já foi logo pegando o chocolate e verificando a embalagem:
- Não tem “light”?
A outra avó estava distraída. Chegou a comentar de uma geléia natural, sem conservantes. E a mãe do Fernandinho, com duas caixas de chocolates na mão, teve que perguntar:
- Por que “light”? Você também quer?
- E tem de pêssego! É uma geléia de pêssego sem açúcar e sem conservantes...
- Eu não quero nada. Mas o Fernandinho está muito gordo. Você não viu? A calça que eu dei pra ele no natal já não serve mais.
- Pois é. Sabe que os meninos também estão ficando muito gordos?
- É natural, feita aqui perto, numa área rural dessas. Não tem conservantes. Nem açúcar. E tem de amora, de goiaba e de pêssego.
A mãe do Fernandinho concordou.
- Então vamos levar o “light”.
- De pêssego, sem açúcar e sem conservantes! Sem conservantes!!
- Acho que não tem “light”.
Não tinha o “light”, claro. O Fernandinho ficou sem o chocolate e deve ter comido brigadeiros na festa dos meninos. E talvez você até esteja se perguntando: mas e a geléia de pêssego, goiaba e amora, sem açúcar e sem conservantes??
Mas aí já é outra crônica.
Tuesday, February 06, 2007
Palavras à vista
Há palavras,
nos olhos que são.
E os olhos dizem
a pureza das palavras que não.
Há verdade
nos silêncios de então
e há saudade,
da palavra que vê
os silêncios que não.
nos olhos que são.
E os olhos dizem
a pureza das palavras que não.
Há verdade
nos silêncios de então
e há saudade,
da palavra que vê
os silêncios que não.
Monday, January 15, 2007
Ornitorrinco
Eles estavam se casando e o padre começou aquela parte, advertiu que se alguém tivesse algo contra a união do casal que falasse agora ou que fosse catar coquinhos para sempre. E eu me assustei de repente e gritei “um ornitorrinco!!” apontando para o chão e todos olharam para trás dos noivos, em busca de um ornitorrinco. E como não o acharam, voltaram-se para mim e eu estava nu. Aí eu acordei, claro.
Ainda acordando e me recuperando do susto, arregalei os olhos quando ouvi alguém gritar:
- Um ornitorrinco!!!
Levantei correndo e fui ver o que era. Na sala, o pessoal jogava algum jogo de adivinhação com mímicas. A sonolência foi mais forte do que a minha curiosidade sobre como teria sido a mímica para ornitorrinco. Voltei a dormir.
Sonhando de novo, eles estavam lá. Estavam se casando e o padre advertiu que se alguém tivesse algo contra a união do casal, que falasse agora ou que contasse depois, só pra ele, pra ele não ficar curioso. E eu comecei a fazer mímica e sinais desesperados para os convidados da primeira fileira. Todos se voltaram para mim e eu estava com uma roupa de ornitorrinco. A roupa era quase uma sauna particular e o bico estava com defeito e não abria mais. Eu não conseguia falar. Foi quando acordei de novo, assustado e sufocado pelo edredom. Fui logo abrir as janelas para amenizar o calor, lavei o rosto, liguei o ventilador, bebi água. Livrei-me do edredom.
Dormindo de novo, o casal estava lá. Havia seguranças nas portas da igreja com ordem de atirar pra matar se vissem um ornitorrinco. Ou alguém vestido como tal. O padre estava naquela parte, advertindo que se tivessem algo contra a união do casal, que deviam se envergonhar, que isso não era hora de dizer uma coisa dessas e que Deus castiga.
Em seguida, toca meu celular. Todos me olham como se eu fosse, sei lá, um ornitorrinco. Eu atendo.
- Alô?
- Oi. Aqui é o Ornitorrinco.
- Si-sim?
- Deposite um milhão de dólares numa conta na Suíça e eu lhe devolvo as alianças.
Levantei assustado pela terceira vez e fui verificar se as alianças estavam na gaveta. Não estavam. Antes de eu ficar mais confuso, toca o telefone.
- Alô!
- Opa. Tudo bem?
Senti-me paralisado. Era a voz do Ornitorrinco.
-Si-sim??
- Rapaz, desculpa te ligar tão cedo. Esqueceste as alianças aqui em casa.
Era meu primo. Conversamos um pouco. Ele não queria um milhão de dólares pelas alianças. O que ele queria era muito mais caro:
- Tu passas aqui antes, pega as alianças e tenta ficar mais calmo, certo?
Em seguida, toca meu celular. Todos me olham como se eu fosse, sei lá, um ornitorrinco. Eu atendo.
- Alô?
- Oi. Aqui é o Ornitorrinco.
- Si-sim?
- Deposite um milhão de dólares numa conta na Suíça e eu lhe devolvo as alianças.
Levantei assustado pela terceira vez e fui verificar se as alianças estavam na gaveta. Não estavam. Antes de eu ficar mais confuso, toca o telefone.
- Alô!
- Opa. Tudo bem?
Senti-me paralisado. Era a voz do Ornitorrinco.
-Si-sim??
- Rapaz, desculpa te ligar tão cedo. Esqueceste as alianças aqui em casa.
Era meu primo. Conversamos um pouco. Ele não queria um milhão de dólares pelas alianças. O que ele queria era muito mais caro:
- Tu passas aqui antes, pega as alianças e tenta ficar mais calmo, certo?
Sunday, December 03, 2006
Genival
O bar vazio e os dois lá. Já tinham passado por todos os assuntos. Mulher, futebol, a maldita política econômica, os causos engraçados, essa vida sem tempo, que correria, sabe que o fulano casou? Não tinham mais assunto. Estavam com aquela expressão de que já não tinham mais nada a ver com isso. Já estava tudo assim quando eu cheguei. E não sou eu que estou bêbado, é essa cerveja que não me respeita.
Só restava mesmo ir embora. E os dois ficavam.
- Sabe o que é? Eu devia ir embora.
- Hum. Sei como é.
- Pois é.
- Então vamos indo.
- É, vamos.
- Vamos que vamos.
- É. Vamos lá.
- Isso.
Mais alguns minutos de despedida e pediram mais uma.
- Genival! Ô Genival, traz a última aqui!
- Esse Genival...
- Que é que tem?
- É uma figura.
- Figuraça.
- Mas sabe o que é? Ele é antigo. Garçom bom é garçom antigo.
- Hum. Sei como é.
- Pois é.
Os dois debruçados na mesa. Debruçados não, esparramados. Quase derrubavam a cerveja, quase se derrubavam, perguntavam um pro outro qual cerveja era de quem. Mas não iam embora.
- Porque o outro não é tão bom. Bom mesmo é o Genival.
Só restava mesmo ir embora. E os dois ficavam.
- Sabe o que é? Eu devia ir embora.
- Hum. Sei como é.
- Pois é.
- Então vamos indo.
- É, vamos.
- Vamos que vamos.
- É. Vamos lá.
- Isso.
Mais alguns minutos de despedida e pediram mais uma.
- Genival! Ô Genival, traz a última aqui!
- Esse Genival...
- Que é que tem?
- É uma figura.
- Figuraça.
- Mas sabe o que é? Ele é antigo. Garçom bom é garçom antigo.
- Hum. Sei como é.
- Pois é.
Os dois debruçados na mesa. Debruçados não, esparramados. Quase derrubavam a cerveja, quase se derrubavam, perguntavam um pro outro qual cerveja era de quem. Mas não iam embora.
- Porque o outro não é tão bom. Bom mesmo é o Genival.
- Sei.
- Genival é nome de garçom. Assim, pelo menos daqui.
- É verdade. Garçom daqui tem que se chamar Genival.
- Genival é nome de garçom. Assim, pelo menos daqui.
- É verdade. Garçom daqui tem que se chamar Genival.
- Exatamente. Tem que ser Genival.
- Isso.
Ficou aquele silêncio. Quase como se estivessem tomando mais um tempo para refletir sobre o assunto.
- Porque o cara devia nascer e, se tivesse cara de garçom, devia se chamar Genival. E logo depois, devia ser encaminhado pra escola de garçons. “Escola de Garçons Genival”.
- Porque o cara devia nascer e, se tivesse cara de garçom, devia se chamar Genival. E logo depois, devia ser encaminhado pra escola de garçons. “Escola de Garçons Genival”.
- Exato. Está aí. Escola de garçons.
- Deviam todos entrar na escola de garçons, pra aprender a ser como o Genival.
- É isso aí. Tem que ser Genival.
- To certo ou to errado?
- Tá certíssimo.
Chega o Genival. Serve a última com a mesma cara de sempre.
- Obrigado viu, Genival?
- É isso aí. Pô, Genival. Valeu, hein?
- Você é uma figuraça, Genival. Está pra nascer outro igual a você!
- Grande Genival.
E o Genival:
- Já posso trazer a conta?
De repente, num gesto instintivo, afastaram-se da mesa, recostaram-se sobre as cadeiras como que mais dispostos, os olhos mais despertos e aquela expressão de que aqui, obviamente, ninguém está bêbado. Ora essa. Essa é a minha cerveja e aquela é a sua.
- O que é isso Genival?
- Mas que conta, Genival, que conta?
- Quem é que falou em conta aqui, Genival?
- Mas Genival, nós estávamos aqui, elogiando o seu trabalho. E você vem com essa história de conta, Genival.
O Genival deixou os dois falando sozinhos, dizendo que o bar já estava pra fechar.
- Você veja só.
- E eu aqui, pensando na “Escola de Garçons Genival”.
- Que absurdo.
- A conta! Vê se pode? Não são nem... que horas são?
- Qual é a minha cerveja, hein?
- Hum. Não sei mais. Pega essa aqui.
- Essa tá quente. Ô Genival!!
- Pô, mas esse Genival, vou te contar hein?
- É, pois é.
- Chama o outro, que é melhor.
Chega o Genival. Serve a última com a mesma cara de sempre.
- Obrigado viu, Genival?
- É isso aí. Pô, Genival. Valeu, hein?
- Você é uma figuraça, Genival. Está pra nascer outro igual a você!
- Grande Genival.
E o Genival:
- Já posso trazer a conta?
De repente, num gesto instintivo, afastaram-se da mesa, recostaram-se sobre as cadeiras como que mais dispostos, os olhos mais despertos e aquela expressão de que aqui, obviamente, ninguém está bêbado. Ora essa. Essa é a minha cerveja e aquela é a sua.
- O que é isso Genival?
- Mas que conta, Genival, que conta?
- Quem é que falou em conta aqui, Genival?
- Mas Genival, nós estávamos aqui, elogiando o seu trabalho. E você vem com essa história de conta, Genival.
O Genival deixou os dois falando sozinhos, dizendo que o bar já estava pra fechar.
- Você veja só.
- E eu aqui, pensando na “Escola de Garçons Genival”.
- Que absurdo.
- A conta! Vê se pode? Não são nem... que horas são?
- Qual é a minha cerveja, hein?
- Hum. Não sei mais. Pega essa aqui.
- Essa tá quente. Ô Genival!!
- Pô, mas esse Genival, vou te contar hein?
- É, pois é.
- Chama o outro, que é melhor.
Saturday, November 04, 2006
Dançarina
Dançava com o dia,
com o sol, com o céu, com a vida.
Dançava com a manhã,
e com o tempo, que esquecia.
Dançava distraída.
Dançava até cansar.
Dançava por prazer
com ou sem porquê.
Mas ela com ela,
não sabia dançar.
E tinha saudade,
de dançar de verdade.
com o sol, com o céu, com a vida.
Dançava com a manhã,
e com o tempo, que esquecia.
Dançava distraída.
Dançava até cansar.
Dançava por prazer
com ou sem porquê.
Mas ela com ela,
não sabia dançar.
E tinha saudade,
de dançar de verdade.
As chuvas chovem
Num dia ou no outro
As chuvas chovem
E você vai fazer o quê?
Seu mau humor não me traz sol
Mas te deixa só
Chuva não é defeito
Então não dá pra consertar
Se o erro te irrita
A culpa é toda sua
É a vida que lhe incita
A verdade que se insinua
Que enquanto molha tuas roupas
e faz teu passo apressado,
alimenta o verde do cerrado.
As chuvas chovem
E você vai fazer o quê?
Seu mau humor não me traz sol
Mas te deixa só
Chuva não é defeito
Então não dá pra consertar
Se o erro te irrita
A culpa é toda sua
É a vida que lhe incita
A verdade que se insinua
Que enquanto molha tuas roupas
e faz teu passo apressado,
alimenta o verde do cerrado.
Las cucarachas
Tenho medo das baratas. Não tenho medo DE baratas. Afinal, eu sou homem, zagueiro principal do time da cento e dezesseis, filho, neto, primo e sobrinho de gaúchos, grosso como dedo destroncado. E tem mais: esse negócio de medo de barata é coisa de fresco.
Mas enfim, tenho medo das baratas. Sinto que elas são mais fortes, já que só elas sobreviverão a um ataque nuclear. Elas são feias, sujas, entram aonde querem e não estão nem aí com toda sua inconveniência. Também não dá pra conversar com elas. Ou seja, são o símbolo da queda definitiva da civilização. Como se a existência das baratas fosse um aviso, pois num mundo onde pode existir baratas, qualquer coisa pode acontecer, até mesmo uma guerra atômica.
O silêncio enigmático das baratas é no mínimo uma expressão facial, se é que baratas têm face. Uma expressão de superioridade, dizendo que sim, eu sou amedrontadora. Algumas pessoas me dizem que não há porquê temê-las. Elas não mordem e não são venenosas. É quando eu respondo, indignado: “e precisa??” Também não sou nenhum pouco fã de “La cucaracha”. E apesar da grande semelhança entre “las cucarachas” e certas políticas e códigos de ética vigentes, tanto no cenário nacional quanto no internacional, não quero comparar nada nem ninguém a elas. Afinal, as baratas são importantes para o equilíbrio ecológico. Por isso nós as toleramos e fingimos que elas não estão por aí, mesmo porque, é mais confortável pensar que elas nem existem.
Mas enfim, tenho medo das baratas. Sinto que elas são mais fortes, já que só elas sobreviverão a um ataque nuclear. Elas são feias, sujas, entram aonde querem e não estão nem aí com toda sua inconveniência. Também não dá pra conversar com elas. Ou seja, são o símbolo da queda definitiva da civilização. Como se a existência das baratas fosse um aviso, pois num mundo onde pode existir baratas, qualquer coisa pode acontecer, até mesmo uma guerra atômica.
O silêncio enigmático das baratas é no mínimo uma expressão facial, se é que baratas têm face. Uma expressão de superioridade, dizendo que sim, eu sou amedrontadora. Algumas pessoas me dizem que não há porquê temê-las. Elas não mordem e não são venenosas. É quando eu respondo, indignado: “e precisa??” Também não sou nenhum pouco fã de “La cucaracha”. E apesar da grande semelhança entre “las cucarachas” e certas políticas e códigos de ética vigentes, tanto no cenário nacional quanto no internacional, não quero comparar nada nem ninguém a elas. Afinal, as baratas são importantes para o equilíbrio ecológico. Por isso nós as toleramos e fingimos que elas não estão por aí, mesmo porque, é mais confortável pensar que elas nem existem.
Friday, October 13, 2006
Escudos e armaduras
Larguei meu escudo,
tirei as armaduras
e as tensões das minhas costas.
Tudo que são
defesas impuras
mandei embora dos corações
e levantei manhãs dispostas.
Mas agora, a luta se ri.
Ri do meu cansaço
diz que fui tolo,
porque descansei o braço.
A armadura não quer me vestir.
O escudo, não quer meu abraço.
Magoado que está
não quer consolo
nem palavras de amizade.
Fica só,
sem golpear ou se defender
da saudade de você.
tirei as armaduras
e as tensões das minhas costas.
Tudo que são
defesas impuras
mandei embora dos corações
e levantei manhãs dispostas.
Mas agora, a luta se ri.
Ri do meu cansaço
diz que fui tolo,
porque descansei o braço.
A armadura não quer me vestir.
O escudo, não quer meu abraço.
Magoado que está
não quer consolo
nem palavras de amizade.
Fica só,
sem golpear ou se defender
da saudade de você.
Saturday, September 09, 2006
Iogurte e refrigerante
Ele tentou dizer. Não dá. Chega disso. Cansei. Parei contigo. Não me liga mais. Mas ela não transigia, não o deixava em paz. Foi quando ele disse:
- Arrumei outra.
E ela não disse que ele era um canalha e que ia jogar todas as fotos deles fora, e não disse que esperava mais dele depois de tanto tempo e que agora sim ela esquecia dele de uma vez. E também não fez um silêncio interminável ao receber a notícia de que ele, um amor de 9 anos, tinha arrumado outra. Ela simplesmente disse:
- Não inventa.
E ele sustentou:
- Arrumei sim.
- Arrumou nada. Você não arruma nem seu armário.
- Pois arrumei. E ela está vindo pra cá.
Ela fez uma expressão de desdém. Mas ficou atenta com o canto do olho. E enquanto a outra não chegasse, eles iam se lembrar da segunda lua-de-mel, em Veneza. Ou, melhor dizendo, ele ia ser lembrado mais uma vez, da segunda lua-de-mel. Em Veneza. Ganharam um daqueles prêmios promocionais de refrigerante. Ou era iogurte?
- Você sempre pergunta isso. Já não te falei, mil vezes?
- É, pois é. Mas eu esqueço.
- Você sabe que isso me irrita.
Ele aproveitou pra chamar o garçom. Ia pedir um refrigerante, mas repensou. Ela sempre criticava o refrigerante. Muito açúcar.
- Me traz um... uma água. Com gás. Não, faz o seguinte. Me traz um suco de limão.
Acrescentou mentalmente: “com gás”. E esboçou um meio sorriso.
- Que sorriso é esse?
Ele ia responder e a outra chegou. Beijaram-se. Ele a apresentou para a outra. A outra disse "ouvi falar muito bem de você", era simpática. Comentou que tinha adorado a história de como os dois tinham decidido ter uma segunda lua-de-mel.
- Gostei tanto da história que me inscrevi numa promoção dessas também!
E ele perguntou:
- Dessas de refrigerante?
Ela gritou “garçom!!”, como quem grita “socorro!!”. E a outra:
- Não lembro.
Foi aí que ela se conformou e passou no supermercado pra comprar iogurte.
- Arrumei outra.
E ela não disse que ele era um canalha e que ia jogar todas as fotos deles fora, e não disse que esperava mais dele depois de tanto tempo e que agora sim ela esquecia dele de uma vez. E também não fez um silêncio interminável ao receber a notícia de que ele, um amor de 9 anos, tinha arrumado outra. Ela simplesmente disse:
- Não inventa.
E ele sustentou:
- Arrumei sim.
- Arrumou nada. Você não arruma nem seu armário.
- Pois arrumei. E ela está vindo pra cá.
Ela fez uma expressão de desdém. Mas ficou atenta com o canto do olho. E enquanto a outra não chegasse, eles iam se lembrar da segunda lua-de-mel, em Veneza. Ou, melhor dizendo, ele ia ser lembrado mais uma vez, da segunda lua-de-mel. Em Veneza. Ganharam um daqueles prêmios promocionais de refrigerante. Ou era iogurte?
- Você sempre pergunta isso. Já não te falei, mil vezes?
- É, pois é. Mas eu esqueço.
- Você sabe que isso me irrita.
Ele aproveitou pra chamar o garçom. Ia pedir um refrigerante, mas repensou. Ela sempre criticava o refrigerante. Muito açúcar.
- Me traz um... uma água. Com gás. Não, faz o seguinte. Me traz um suco de limão.
Acrescentou mentalmente: “com gás”. E esboçou um meio sorriso.
- Que sorriso é esse?
Ele ia responder e a outra chegou. Beijaram-se. Ele a apresentou para a outra. A outra disse "ouvi falar muito bem de você", era simpática. Comentou que tinha adorado a história de como os dois tinham decidido ter uma segunda lua-de-mel.
- Gostei tanto da história que me inscrevi numa promoção dessas também!
E ele perguntou:
- Dessas de refrigerante?
Ela gritou “garçom!!”, como quem grita “socorro!!”. E a outra:
- Não lembro.
Foi aí que ela se conformou e passou no supermercado pra comprar iogurte.
Do futuro
Não sei o que é o poeta
porque ele tem um ar
de quem não é daqui.
Um ar de profeta,
que olha pro mar
e não pára de sentir,
saudades do futuro.
Como se já estivera lá
como se morasse puro
nos dias virgens
que nossa alma verá.
O poeta,
parece que é tanto,
e assim parece, só de olhar.
Eu só espero que sempre volte
com pedaços de amanhã
pra nos contar.
porque ele tem um ar
de quem não é daqui.
Um ar de profeta,
que olha pro mar
e não pára de sentir,
saudades do futuro.
Como se já estivera lá
como se morasse puro
nos dias virgens
que nossa alma verá.
O poeta,
parece que é tanto,
e assim parece, só de olhar.
Eu só espero que sempre volte
com pedaços de amanhã
pra nos contar.
Thursday, August 31, 2006
Dicionário
Estranhamente, tenho procurado muitas respostas para minhas perguntas no dicionário. E o que é mais estranho, tenho encontrado respostas interessantes, até certo ponto satisfatórias. Claro que antes de encontrar definições relevantes, você se arrisca a procurar por “reverberação” e se deparar com “ato ou efeito de reverberar”, ou “revérbero”. Tudo bem se você já conhecia uma palavra ou outra, mas imagine um garoto de uns oito anos, procurando por “abdicatório”. Em “abdicatório” você encontra com “abdicativo”. Sobre “abdicativo”, tem: “concernente à abdicação, abdicatório”. “Que motiva ou envolve abdicação”. Não seria exagero dizer que no momento em que o garoto lê “concernente”, seguido de “abdicação”, ele abdica da busca pelo conhecimento no que concerne a palavras num dicionário. Mas o fato é que não é só um livro um pouco inadequado para crianças. Nele, você descobre a sua completa ignorância sobre palavras que você nunca nem sequer ouviu falar. Algumas palavras são tão incógnitas que você as lê como um “x”, ou seja, um dicionário pode te fazer de bobo só com orações subordinadas, que acabam por ser as únicas palavras que você realmente entende, como “relativo à”, “referente à”, “ato ou efeito de”, “que, ou aquele que”, “ação pela qual”, etc.
No caso das palavras de baixo calão, a tendência é que você aprenda tudo antes de abrir o dicionário. Mas isso não significa que você aprendeu tudo, ou que o dicionário não tenha nada mais o que te ensinar. Veja por exemplo, com o perdão da palavra, o “cu”. Começa com uma definição simples, bastante científica e formal. Algo discreto. “Ânus”. Soa quase como uma repreensão. Como se alguém estivesse te corrigindo, dizendo que não é “cu”. É “ânus”. No entanto, e para a minha surpresa, o significado seguinte de “cu” é o “fundo da agulha onde se acha o orifício”. O fundo, sim, da agulha. Onde se acha, por sua vez, o orifício. Fiquei realmente impressionado ao saber dessa denominação tão específica, mas é bem verdade que aquele buraquinho da agulha é às vezes tão irritante que até merece o nome. Ainda assim, imagine o que não se sofre com a ignorância nossa de cada dia, se uma costureira te entrega linha e agulha e pede pra você enfiar no “cu”. E acrescenta educadamente: “por favor”.
Na terceira significação, tem as tradicionais nádegas. Ou seja, depois de toda aquela especificidade, o termo passa a ter um caráter mais genérico, designando não só o orifício mas também as suas redondezas. E quando pensei que não havia mais como me surpreender com um livro que deveria ser só uma fonte de pesquisa, resolvi olhar o significado de nádega. Conforme consta, as nádegas são “a parte carnosa superior e traseira das coxas.” Até aí tudo bem, porque as nádegas, mesmo num livro formal e "científico" como o dicionário, não deixam de ser nádegas. Nádegas são nádegas. Alguém te diz que são a parte carnosa superior e traseira das coxas e você age naturalmente. Ou quase. Mas na seqüência, descrevem-nas como “a parte carnuda, por baixo e atrás da garupa das cavalgaduras”. Ou seja, a partir daqui não há mais direção, a civilidade perde o sentido. Depois de “garupa das cavalgaduras” só nos resta a volúpia e a entrega às paixões primitivas. Salve-se quem puder.
O dicionário é também um guia diplomático. Nele você aprende a diferenciar “bernes”, que são larvas de inseto, de “bernenses”, que são suíços. Além disso, é notável que os sufixos não são um recurso seguro, já que golfada não tem qualquer ligação com partida de golfe. A não ser é claro, que um jogador esteja passando mal:
- Esses bernes não sabem o que comem!! – reclamou Sr. Argantes, logo após a segunda golfada.
O mordomo, que o ajudava a se recompor e a se assear, corrigiu:
- Com o perdão da intransigência senhor, os “bernenses” não sabiam da sua alergia a laticínios. Quanto aos “bernes”, creio que eles não se importam, senhor.
Outras pesquisas passam a impressão de serem tão inúteis que é quase como se o próprio Aurélio estivesse ali, pessoalmente curtindo com a sua cara. Um exemplo disso é “jurubebal”, que significa “moita de jurubebas”.
Não sabe o que são jurubebas? Olha no dicionário.
No caso das palavras de baixo calão, a tendência é que você aprenda tudo antes de abrir o dicionário. Mas isso não significa que você aprendeu tudo, ou que o dicionário não tenha nada mais o que te ensinar. Veja por exemplo, com o perdão da palavra, o “cu”. Começa com uma definição simples, bastante científica e formal. Algo discreto. “Ânus”. Soa quase como uma repreensão. Como se alguém estivesse te corrigindo, dizendo que não é “cu”. É “ânus”. No entanto, e para a minha surpresa, o significado seguinte de “cu” é o “fundo da agulha onde se acha o orifício”. O fundo, sim, da agulha. Onde se acha, por sua vez, o orifício. Fiquei realmente impressionado ao saber dessa denominação tão específica, mas é bem verdade que aquele buraquinho da agulha é às vezes tão irritante que até merece o nome. Ainda assim, imagine o que não se sofre com a ignorância nossa de cada dia, se uma costureira te entrega linha e agulha e pede pra você enfiar no “cu”. E acrescenta educadamente: “por favor”.
Na terceira significação, tem as tradicionais nádegas. Ou seja, depois de toda aquela especificidade, o termo passa a ter um caráter mais genérico, designando não só o orifício mas também as suas redondezas. E quando pensei que não havia mais como me surpreender com um livro que deveria ser só uma fonte de pesquisa, resolvi olhar o significado de nádega. Conforme consta, as nádegas são “a parte carnosa superior e traseira das coxas.” Até aí tudo bem, porque as nádegas, mesmo num livro formal e "científico" como o dicionário, não deixam de ser nádegas. Nádegas são nádegas. Alguém te diz que são a parte carnosa superior e traseira das coxas e você age naturalmente. Ou quase. Mas na seqüência, descrevem-nas como “a parte carnuda, por baixo e atrás da garupa das cavalgaduras”. Ou seja, a partir daqui não há mais direção, a civilidade perde o sentido. Depois de “garupa das cavalgaduras” só nos resta a volúpia e a entrega às paixões primitivas. Salve-se quem puder.
O dicionário é também um guia diplomático. Nele você aprende a diferenciar “bernes”, que são larvas de inseto, de “bernenses”, que são suíços. Além disso, é notável que os sufixos não são um recurso seguro, já que golfada não tem qualquer ligação com partida de golfe. A não ser é claro, que um jogador esteja passando mal:
- Esses bernes não sabem o que comem!! – reclamou Sr. Argantes, logo após a segunda golfada.
O mordomo, que o ajudava a se recompor e a se assear, corrigiu:
- Com o perdão da intransigência senhor, os “bernenses” não sabiam da sua alergia a laticínios. Quanto aos “bernes”, creio que eles não se importam, senhor.
Outras pesquisas passam a impressão de serem tão inúteis que é quase como se o próprio Aurélio estivesse ali, pessoalmente curtindo com a sua cara. Um exemplo disso é “jurubebal”, que significa “moita de jurubebas”.
Não sabe o que são jurubebas? Olha no dicionário.
Nudez
A pureza que tu tinhas
era da beleza da vista
e palavras minhas.
E da conquista
que eu via em ti.
E a pureza só tua
eu não a vi,
e te vi nua,
não como és em si.
A pureza que eu via
era a nudeza do meu revés
que lhe repartia
os encantos que tu não és.
E em mim ficou
a pureza da tua nudez
e tua silhueta nua
que insinuou minha timidez.
era da beleza da vista
e palavras minhas.
E da conquista
que eu via em ti.
E a pureza só tua
eu não a vi,
e te vi nua,
não como és em si.
A pureza que eu via
era a nudeza do meu revés
que lhe repartia
os encantos que tu não és.
E em mim ficou
a pureza da tua nudez
e tua silhueta nua
que insinuou minha timidez.
Friday, July 28, 2006
Ele também tinha isso, quase uma dependência, um tipo de vício, uma dessas loucuras por alguma coisa específica. Ele também tinha dessas coisas, sim, claro que tinha.
- Rapaz, eu sou louco por...
E ele fez um gesto com as mãos, como quem pede ajuda pra se lembrar das palavras.
- Como é mesmo o nome? Sou louco por...
Ficou aquele clima de espera e ele já estava se distanciando, adentrando seu cérebro, a procura daquilo que, enfim, ele não lembrava.
- É uma coisa que a gente compartilha e... mas eu sou louco por aquilo, rapaz. Sou louco pelas...
Ele era louco pelas... pelas... pelas mulheres do Rio. E pelos dias de praia. E pelas histórias do “Flash”, pela torta de morango da tia Lení, pela música do... como era mesmo o nome?
- Mas rapaz, que coisa. Está na ponta da língua, quase saindo, mas não sai. Sou louco por...
Sou louco por cheiro de pizza dormida. Bola de gude, filmes do Charles Chaplin, canções do... aquele, com a voz grave. Alguma coisa com “Gonçalves”.
E entre essas e outras as pessoas iam dizendo suas loucuras. Uns eram loucos por chocolate, outros por cinema, outros por cachorros, etc.
E ele tentando pensar, tentando ouvir os outros, tentando encontrar a palavra, já que ele era louco mesmo, não por cinema ou chocolate, mas por... por...
- Não está vindo na minha mente agora, mas rapaz, eu sou louquinho por...
Mas ele foi interrompido antes. Porque a essa altura da conversa ninguém queria ouvir reticências. E seguindo o fluxo da conversa, já estavam praticamente em outro assunto. Ele até deu uma respirada diferente, como quem acaba de lembrar de alguma coisa, mas era alarme falso. E em seguida, o que era louco por cachorros emendou:
- Por isso eu quis morar numa casa espaçosa, por causa dos cachorros que precisam de espaço e...
De repente, deu aquele estalo. A palavra voltou, como se o “Flash” tivesse vindo com ela escrita na mão e entregado para o Nelson Gonçalves cantar. E ele disse, realizado, como quem acaba de provar uma torta de morango da tia Lení:
- Rapaz, vou te falar.
O pessoal atento e ele satisfeito:
- Sou louco por memórias.
- Rapaz, eu sou louco por...
E ele fez um gesto com as mãos, como quem pede ajuda pra se lembrar das palavras.
- Como é mesmo o nome? Sou louco por...
Ficou aquele clima de espera e ele já estava se distanciando, adentrando seu cérebro, a procura daquilo que, enfim, ele não lembrava.
- É uma coisa que a gente compartilha e... mas eu sou louco por aquilo, rapaz. Sou louco pelas...
Ele era louco pelas... pelas... pelas mulheres do Rio. E pelos dias de praia. E pelas histórias do “Flash”, pela torta de morango da tia Lení, pela música do... como era mesmo o nome?
- Mas rapaz, que coisa. Está na ponta da língua, quase saindo, mas não sai. Sou louco por...
Sou louco por cheiro de pizza dormida. Bola de gude, filmes do Charles Chaplin, canções do... aquele, com a voz grave. Alguma coisa com “Gonçalves”.
E entre essas e outras as pessoas iam dizendo suas loucuras. Uns eram loucos por chocolate, outros por cinema, outros por cachorros, etc.
E ele tentando pensar, tentando ouvir os outros, tentando encontrar a palavra, já que ele era louco mesmo, não por cinema ou chocolate, mas por... por...
- Não está vindo na minha mente agora, mas rapaz, eu sou louquinho por...
Mas ele foi interrompido antes. Porque a essa altura da conversa ninguém queria ouvir reticências. E seguindo o fluxo da conversa, já estavam praticamente em outro assunto. Ele até deu uma respirada diferente, como quem acaba de lembrar de alguma coisa, mas era alarme falso. E em seguida, o que era louco por cachorros emendou:
- Por isso eu quis morar numa casa espaçosa, por causa dos cachorros que precisam de espaço e...
De repente, deu aquele estalo. A palavra voltou, como se o “Flash” tivesse vindo com ela escrita na mão e entregado para o Nelson Gonçalves cantar. E ele disse, realizado, como quem acaba de provar uma torta de morango da tia Lení:
- Rapaz, vou te falar.
O pessoal atento e ele satisfeito:
- Sou louco por memórias.
Sunday, July 02, 2006
Conquista
Se tu hás
e meu olho te vê,
és minha
não és sozinha,
em mim estás.
Mas tu só estás aqui
por metade,
do que eu sou.
E meu olho te vê,
minha alma te sente
e eu sinto saudade
e me vou por aí,
onde tua vista,
me desencaminha
mas és sozinha.
Não és minha,
não há mais conquista,
se tu não estás.
Wednesday, June 21, 2006
Assim
Assim...
minhas passadas.
Vão andando
e me dizendo que
pra não terem que escrever mais nada
inventaram as reticências.
minhas passadas.
Vão andando
e me dizendo que
pra não terem que escrever mais nada
inventaram as reticências.
O velho de São Jorge
Havia um velho lá de São Jorge que dizia que ia morrer no chão, “porque é pra onde se volta”. Dizia ele, sempre, no final de cada frase sua. Às vezes, pra quem perguntasse, acrescentava, solene: “ora, essa é, implicitamente, a segunda certeza que, na verdade, é a segunda certeza; na verdade, com certeza que, é a segunda certeza, que se tem, por aí. Aí, nessa vida. Não é?” O velho, mais bêbado a cada palavra, esperava a próxima pergunta e solenizava a resposta triunfal, uma vez que todos perguntavam: “e a primeira?” respondia: “a primeira, como já dizia minha velha mãe, que Deus a tenha, a primeira certeza, na verdade é a de que, com certeza, como dizia minha velha mãe, que Deus a tenha, que Deus a tenha, vou morrer.” E não raro era o velho esbanjar sua erudição trocando “vou morrer” por “morrerei”, ou até, numa ocasião especial, “morrer-me-ei”. Ocasião especial era qualquer garota atraente que lhe desse atenção, sem que com isso lhe arranjasse uns trocados. Quando recebia esmolas, indignava-se, e bradava contra a ditadura enquanto guardava os centavos no bolso esquerdo, porque o direito estava furado desde antes do golpe de sessenta e quatro. Entretanto, ao invés de maltrapilho, mantinha aparência razoável que, ainda que razoável, não tirava-lhe o ar de sua própria peculiaridade:
- O rapaz tão estimado, desce mais uma, que eu vou morrer no chão, que é pra onde se volta. Não é?
- Mais morto e mais no chão você não fica. Basta por hoje. Essa foi a última.
- Não foi não!
E nisso, começava um discurso:
- Achais que poderes podares minhas liberdades. Queres matares-me por dentro de mim mesmo. Morrerei no chão, que é pra onde se volta! Tá me ouvindo? Estais a me ouvirdes? Eu pago-te sempre o que, devendo a ti, devo-te.
Assim disse o velho, enfiando a mão no bolso direito da calça de linho. E acrescentou:
- Morrer-me-ei no chão, que é pra onde voltar-me-ei.
Era o velho “tão antigo quanto o sexo”, assim dizia ele. Alguns diziam que era mais velho que Raul Seixas, que nascera “há dez mil anos atrás”. Ninguém sabia ao certo quantos anos tinha, nem ele mesmo, até porque lhe falhava a memória depois de tantos dias alcoolizados.
Deitava-se encharcado e secando ao sol, na única calçada da cidade que ficava aos redores donde ele bebia para os santos. Para os santos sim, pois que eram a única razão de sua bebedeira. Afinal, para cada dose havia um santo homenageado. E é claro que nunca lhe falhava a memória pra lembrar nomes e mais nomes de santos que ninguém sabia que existiam. Dizia ele que no céu, aonde já estivera várias vezes, ninguém pagava pela bebida, desde que servisse uma ou outra para os santos.
- Olha, digo uma coisa: santo nenhum, entendeu? Santo nenhum. Olha, não tem um. Não tem um santo que recusa bebida. Não tem. Pode procurar. Pode procurar que não encontra. Não encontra. Digo porque eu sei. Vou mentir pra quê?
De sábado em sábado, ou de domingo em domingo, alguém acabava ouvindo sobre a cidadezinha mais próxima onde havia uma queda d’água de nome “Pedra Azul”. E visitava São Jorge. E querendo ou não, gostando ou não, acabavam conhecendo e ouvindo o velho. A verdade é que todos iam de uma forma ou outra se divertindo, e curiosamente perguntavam:
- Santo nenhum?
Ao que o Velho não se intimidava:
- NENHUM.
E insistiam:
- Tem certeza?
- Certeza? Digo porque eu sei. Olha: não há santo desse mundo velho que tenha subido lá em cima pra recusar bebida. Digo lá em cima, porque aqui embaixo eles não bebem.
- Aqui embaixo eles não bebem?
- De jeito nenhum.
- Por quê?
- Porque não pode.
- E por quê não pode?
- Você não sabe? Santo não bebe em serviço. Quando tem que descer aqui eles vão logo tomando uma extra lá em cima. Santo não bebe em serviço. Não tem um. Pode procurar.
- O rapaz tão estimado, desce mais uma, que eu vou morrer no chão, que é pra onde se volta. Não é?
- Mais morto e mais no chão você não fica. Basta por hoje. Essa foi a última.
- Não foi não!
E nisso, começava um discurso:
- Achais que poderes podares minhas liberdades. Queres matares-me por dentro de mim mesmo. Morrerei no chão, que é pra onde se volta! Tá me ouvindo? Estais a me ouvirdes? Eu pago-te sempre o que, devendo a ti, devo-te.
Assim disse o velho, enfiando a mão no bolso direito da calça de linho. E acrescentou:
- Morrer-me-ei no chão, que é pra onde voltar-me-ei.
Era o velho “tão antigo quanto o sexo”, assim dizia ele. Alguns diziam que era mais velho que Raul Seixas, que nascera “há dez mil anos atrás”. Ninguém sabia ao certo quantos anos tinha, nem ele mesmo, até porque lhe falhava a memória depois de tantos dias alcoolizados.
Deitava-se encharcado e secando ao sol, na única calçada da cidade que ficava aos redores donde ele bebia para os santos. Para os santos sim, pois que eram a única razão de sua bebedeira. Afinal, para cada dose havia um santo homenageado. E é claro que nunca lhe falhava a memória pra lembrar nomes e mais nomes de santos que ninguém sabia que existiam. Dizia ele que no céu, aonde já estivera várias vezes, ninguém pagava pela bebida, desde que servisse uma ou outra para os santos.
- Olha, digo uma coisa: santo nenhum, entendeu? Santo nenhum. Olha, não tem um. Não tem um santo que recusa bebida. Não tem. Pode procurar. Pode procurar que não encontra. Não encontra. Digo porque eu sei. Vou mentir pra quê?
De sábado em sábado, ou de domingo em domingo, alguém acabava ouvindo sobre a cidadezinha mais próxima onde havia uma queda d’água de nome “Pedra Azul”. E visitava São Jorge. E querendo ou não, gostando ou não, acabavam conhecendo e ouvindo o velho. A verdade é que todos iam de uma forma ou outra se divertindo, e curiosamente perguntavam:
- Santo nenhum?
Ao que o Velho não se intimidava:
- NENHUM.
E insistiam:
- Tem certeza?
- Certeza? Digo porque eu sei. Olha: não há santo desse mundo velho que tenha subido lá em cima pra recusar bebida. Digo lá em cima, porque aqui embaixo eles não bebem.
- Aqui embaixo eles não bebem?
- De jeito nenhum.
- Por quê?
- Porque não pode.
- E por quê não pode?
- Você não sabe? Santo não bebe em serviço. Quando tem que descer aqui eles vão logo tomando uma extra lá em cima. Santo não bebe em serviço. Não tem um. Pode procurar.
Silvana
No levantar da persiana
dá pra lembrar
do ar que voa, nas paisagens serranas
dos abraços molhados
na minha e na sua
garoa
onde sempre hão de tocar
as músicas mais insanas.
O meu ar também é o seu
que emana teus traços
e me faz respirar o meu dom
que é tua alma, teu corpo, teu som.
Numa janela
de longe
a nota soa e sente
nas gotas de garoa
que a silhueta segue
rente, às paisagens serranas
das músicas mais insanas
dos ares
que voam
das notas que se tocam
e soam.
dá pra lembrar
do ar que voa, nas paisagens serranas
dos abraços molhados
na minha e na sua
garoa
onde sempre hão de tocar
as músicas mais insanas.
O meu ar também é o seu
que emana teus traços
e me faz respirar o meu dom
que é tua alma, teu corpo, teu som.
Numa janela
de longe
a nota soa e sente
nas gotas de garoa
que a silhueta segue
rente, às paisagens serranas
das músicas mais insanas
dos ares
que voam
das notas que se tocam
e soam.
Por que não?
– E agora?
– Quê?
– E agora??
– Agora?
– É. E agora?
– Não, agora não.
– Agora não?
– Não, agora é melhor não.
– Por que não?
– Porque não.
– “Porque não” não é resposta.
– Ah, não?
– Não.
– Por quê?
– Porque não, porque não faz sentido.
– “Porque não”...?
– Não, mas não é assim.
– Ah, não?
– Não.
– Então como é?
– Não, é que eu, quando eu disse, foi mais assim, sei lá. Foi diferente.
– Ah, é?
– É, não foi assim, como se eu quisesse, pra terminar a idéia, como se fosse, tipo, “acabou”, entende?
– Claro.
– Quer parar com essa maldita ironia?
– O que você está dizendo, basicamente, é que “porque não” não é resposta. Mas é claro que, se você, o centro do universo, precisar usar um “porque não” ou outro, tudo bem, porque você é diferente.
– Eu não sou diferente.
– Ah, não?
– Não.
– Por quê?
– Porque quando as respostas são óbvias, ninguém pergunta nada sobre elas.
– Sim.
– E quando um porquê é obvio, não se pergunta “por que não”.
– Ah, não?
– Não!
– E por que não?
– Porque nã… Ah, vai pro inferno.
– Vou sim. Por que não?
Depois dos socos que trocaram, cansaço. Os dois sentam-se à mesa.
– Idiota.
– Eu? Eu é que sou idiota?
– É.
– Ah sim, certo. Eu sou o idiota.
– É sim. E por que não seria??
– Não provoca.
– Provoco sim, por que não??
– Por quê? “Por quê não”?
– É! Por que não?!?
– Por quê? Você quer saber por quê não?!?!?
– É isso aí!!! Por que não?!?!?
– PORQUE NÃO!!!!!! PORQUE NÃO!!!!!!
Voltam aos socos.
Sentados na sala. Compressas de gelo. Ela chega, pergunta o que houve.
– Nada.
– É, não foi nada não.
Ela pergunta:
– Quê?
– E agora??
– Agora?
– É. E agora?
– Não, agora não.
– Agora não?
– Não, agora é melhor não.
– Por que não?
– Porque não.
– “Porque não” não é resposta.
– Ah, não?
– Não.
– Por quê?
– Porque não, porque não faz sentido.
– “Porque não”...?
– Não, mas não é assim.
– Ah, não?
– Não.
– Então como é?
– Não, é que eu, quando eu disse, foi mais assim, sei lá. Foi diferente.
– Ah, é?
– É, não foi assim, como se eu quisesse, pra terminar a idéia, como se fosse, tipo, “acabou”, entende?
– Claro.
– Quer parar com essa maldita ironia?
– O que você está dizendo, basicamente, é que “porque não” não é resposta. Mas é claro que, se você, o centro do universo, precisar usar um “porque não” ou outro, tudo bem, porque você é diferente.
– Eu não sou diferente.
– Ah, não?
– Não.
– Por quê?
– Porque quando as respostas são óbvias, ninguém pergunta nada sobre elas.
– Sim.
– E quando um porquê é obvio, não se pergunta “por que não”.
– Ah, não?
– Não!
– E por que não?
– Porque nã… Ah, vai pro inferno.
– Vou sim. Por que não?
Depois dos socos que trocaram, cansaço. Os dois sentam-se à mesa.
– Idiota.
– Eu? Eu é que sou idiota?
– É.
– Ah sim, certo. Eu sou o idiota.
– É sim. E por que não seria??
– Não provoca.
– Provoco sim, por que não??
– Por quê? “Por quê não”?
– É! Por que não?!?
– Por quê? Você quer saber por quê não?!?!?
– É isso aí!!! Por que não?!?!?
– PORQUE NÃO!!!!!! PORQUE NÃO!!!!!!
Voltam aos socos.
Sentados na sala. Compressas de gelo. Ela chega, pergunta o que houve.
– Nada.
– É, não foi nada não.
Ela pergunta:
– Se vocês estão tão estressados por que não vão dar uma volta?
Entreolham-se e respondem, juntos:
– Porque não.
Entreolham-se e respondem, juntos:
– Porque não.
Friday, June 09, 2006
Um dia descobri porque minhas reflexões são tão superficiais. Mas era um motivo tão pueril que eu não me lembro. Mesmo porque, hoje em dia eu sei que “idéias não são metais que se fundem”. Isso quem dizia era meu avô, Deus o tenha. E meu pai passou pra mim, num daqueles momentos em que o pai é o herói do filho. Alguma coisa que meu pai fizera e que eu achara genial, então perguntei, admirado: que legal pai, como você teve essa idéia? E meu pai ergueu o queixo e balançou o indicador, como quem adverte fundamentado por uma fonte de sabedoria superior: “Aí é que está, meu filho. Idéias não são metais que se fundem...” Percebendo o meu fascínio e a minha expressão de óbvia incompreensão, meu pai arrematou com um tom mais corriqueiro: “...mas isso era seu avô que dizia, eu não tenho a menor idéia do que significa.” O interessante é que eu não me decepcionei. Ao contrário, fiquei algumas semanas rindo da célebre frase do meu avô, pensando que aquilo era uma herança, algo que deveria ser passado de geração em geração. Simplesmente porque é tradição e pronto. Também fiquei tentando decifrar a frase, é claro. E decidi que genial mesmo é o que você entende mas não consegue explicar. Por isso, quando acontece de me perguntarem aquelas ardilosas armadilhas filosófico-universitárias eu balanço meu indicador e digo de queixo erguido, “idéias não são metais que se fundem”. E saio logo dali, antes que alguém me pergunte o que significa.
Sunday, May 28, 2006
Em caso de pane
Se você já viajou de avião deve ter ouvido algo assim: “em caso de pane, máscaras cairão sobre a sua cabeça, prenda-as com o elástico”. Leia-se que ninguém virá te salvar ou irá se responsabilizar por quaisquer danos vitais mas você ganha uma máscara de presente. Não sei não. Toda vez que dou uma olhada nessas máscaras de avião tenho a impressão de que elas já foram usadas e reutilizadas. E que não vão funcionar. Da última vez que viajei reparei bem no tamanho do elástico e tenho quase certeza de que aquilo não caberia na minha cabeça. Depois vem aquele papo de que meu assento é inflável e flutua e que é só puxar aqui e ali para montar. É quando me lembro que passei um tempão pra montar um armário com um amigo meu e depois de umas duas horas ainda ficou meio torto. E nessas horas não dá tempo de pensar, mas você deve proceder conforme o indicado na cartilha que se encontra no bolso do banco da frente. A demonstração dos comissários de bordo sempre faz a pane parecer um evento organizado e ordinário, que deve, por obséquio, ser vivenciado de forma ordenada e civilizada. Dá até pra imaginar um passageiro mais revolto numa situação dessas:
- Senhor, devo pedir para que recoloque a máscara, estamos tendo uma pane na pressurização.
- Eu aceito usar a sua, gatinha.
- Senhor, por favor, devo pedir para que recoloque a sua máscara e mantenha o cinto afivelado.
- Você não sabe o barato que dá ficar sem essa coisa aí. Vamos voar juntos, gata.
Nisso chega o comissário e ameaça jogá-lo pela janela, já que agora ela está aberta mesmo.
O curioso é que ninguém tem que fazer curso de pára-quedismo pra viajar de avião. Em caso de pane já está tudo preparado para que você tenha uma morte confortável. Você só tem que manter a calma, usar as máscaras com elástico, colocar a poltrona na posição vertical e se você estiver com pressa de chegar ao chão, há quatro saídas de emergência, duas na parte frontal da aeronave e mais duas na parte traseira.
- Senhor, devo pedir para que recoloque a máscara, estamos tendo uma pane na pressurização.
- Eu aceito usar a sua, gatinha.
- Senhor, por favor, devo pedir para que recoloque a sua máscara e mantenha o cinto afivelado.
- Você não sabe o barato que dá ficar sem essa coisa aí. Vamos voar juntos, gata.
Nisso chega o comissário e ameaça jogá-lo pela janela, já que agora ela está aberta mesmo.
O curioso é que ninguém tem que fazer curso de pára-quedismo pra viajar de avião. Em caso de pane já está tudo preparado para que você tenha uma morte confortável. Você só tem que manter a calma, usar as máscaras com elástico, colocar a poltrona na posição vertical e se você estiver com pressa de chegar ao chão, há quatro saídas de emergência, duas na parte frontal da aeronave e mais duas na parte traseira.
Thursday, May 11, 2006
Divisórias de um banheiro
Num banheiro, o suor escorria-lhe o rosto. “Tem entrevista às três”. Do toalete vizinho, um desabafo:
- Huuuummmpppffff!!!
Resolveu comunicar-se.
- Ó, amigo! Tem papel aí?
Silêncio. Não deve ter ouvido. E agora? Sem papel, sem relógio e sem comunicação. Mas o pior de tudo era ainda não ter terminado. Decidiu tentar de novo:
- Ó, amigo! Tens papel, aí?
- Huuummmppppffff...
Mais silêncio. Subitamente, houve comunicação:
- Papel, é?
- É! Papel, tem aí?
- Ih, rapaz. Sabe que não tem?
- Como “não tem”? É um absurdo. Isso aqui é um banheiro.
- Toma.
- Que é isso?
- Caderno dois do jornal. Substitui, né?
- Puxa. Obrigado.
Barulho de papel. Aproveitou o restante pra enxugar a testa. Calor. Papel. Banheiro. Comunicação. O que era mesmo? A entrevista!
- Ó amigo! Tem horas, aí?
- São duas e meia.
- Duas e meia? Dá tempo. Tem que dar.
- Compromisso, é?
- Tô quase me atrasando.
- Eu estou de carro, posso te dar uma carona. Hoje é minha folga.
- Puxa. Obrigado.
- Podemos ir agora. Estou terminando.
Ao som de duas descargas barulhentas, os dois saíram de suas cabines e da proteção que tinham de ver um ao outro. Fitaram-se: um deles engravatado, barba feita, pasta na mão; o outro, adolescente, cabelo comprido e um brinco no nariz.
- Olha, não precisa de carona, não.
- Sim. Digo, não. Na verdade eu tinha mesmo o que fazer agora que já são... que horas são?
- Pois é.
E cada um foi pra cada lado.
- Huuuummmpppffff!!!
Resolveu comunicar-se.
- Ó, amigo! Tem papel aí?
Silêncio. Não deve ter ouvido. E agora? Sem papel, sem relógio e sem comunicação. Mas o pior de tudo era ainda não ter terminado. Decidiu tentar de novo:
- Ó, amigo! Tens papel, aí?
- Huuummmppppffff...
Mais silêncio. Subitamente, houve comunicação:
- Papel, é?
- É! Papel, tem aí?
- Ih, rapaz. Sabe que não tem?
- Como “não tem”? É um absurdo. Isso aqui é um banheiro.
- Toma.
- Que é isso?
- Caderno dois do jornal. Substitui, né?
- Puxa. Obrigado.
Barulho de papel. Aproveitou o restante pra enxugar a testa. Calor. Papel. Banheiro. Comunicação. O que era mesmo? A entrevista!
- Ó amigo! Tem horas, aí?
- São duas e meia.
- Duas e meia? Dá tempo. Tem que dar.
- Compromisso, é?
- Tô quase me atrasando.
- Eu estou de carro, posso te dar uma carona. Hoje é minha folga.
- Puxa. Obrigado.
- Podemos ir agora. Estou terminando.
Ao som de duas descargas barulhentas, os dois saíram de suas cabines e da proteção que tinham de ver um ao outro. Fitaram-se: um deles engravatado, barba feita, pasta na mão; o outro, adolescente, cabelo comprido e um brinco no nariz.
- Olha, não precisa de carona, não.
- Sim. Digo, não. Na verdade eu tinha mesmo o que fazer agora que já são... que horas são?
- Pois é.
E cada um foi pra cada lado.
Saturday, May 06, 2006
Lembrança
Do vento que não faz
a árvore balançar,
do vôo que a ave voa
sem se cansar,
da nota que soa,
quase à toa,
mas diz da paz
que há.
Da paisagem mais bonita
que não se alcança.
É daí que me vem
tua lembrança.
a árvore balançar,
do vôo que a ave voa
sem se cansar,
da nota que soa,
quase à toa,
mas diz da paz
que há.
Da paisagem mais bonita
que não se alcança.
É daí que me vem
tua lembrança.
Sim, não e sei lá
Não,
é uma boa palavra
para definir o mesmo que
sim
Então assim se define
que sim ou que não.
Mas a manhã viva ou não,
também,
mal ou bem subjetiva
vira a vida
e sua lógica subversiva
sua louca definição.
E é aí que se percebe
como dizer o que há
e não se diz nem sim nem não
mas sim,
sei lá.
é uma boa palavra
para definir o mesmo que
sim
Então assim se define
que sim ou que não.
Mas a manhã viva ou não,
também,
mal ou bem subjetiva
vira a vida
e sua lógica subversiva
sua louca definição.
E é aí que se percebe
como dizer o que há
e não se diz nem sim nem não
mas sim,
sei lá.
Julia
Quando aqui,
aqui é longe.
E quando lá,
lá é perto.
Quando perto,
quase lá.
E quase longe,
quando aqui.
A saudade,
não finda em si.
E fica linda,
quando finda em ti.
aqui é longe.
E quando lá,
lá é perto.
Quando perto,
quase lá.
E quase longe,
quando aqui.
A saudade,
não finda em si.
E fica linda,
quando finda em ti.
Viva o vinho
Viva
o vinho
e a vida que dá na uva,
os dias que eu saio
pra tomar banho de chuva
e ficar sozinho
com as notas que ensaio
Viva
A orquestra
A luz que invade uma sinfonia
Viva a chave mestra
Que abre o sol de todo dia
Viva
Cada vento que voa
Minhas lembranças suas
A gaita que ressoa
Nossas palavras nuas.
o vinho
e a vida que dá na uva,
os dias que eu saio
pra tomar banho de chuva
e ficar sozinho
com as notas que ensaio
Viva
A orquestra
A luz que invade uma sinfonia
Viva a chave mestra
Que abre o sol de todo dia
Viva
Cada vento que voa
Minhas lembranças suas
A gaita que ressoa
Nossas palavras nuas.
Tuesday, March 21, 2006
Palavras libertadoras
Eu amo palavras libertadoras. E expressões, claro. “Sei lá” é uma delas. Quando se diz “sei lá”, fica implícita a atitude interna de realmente não se importar. “Não sei”, revela somente nossa limitação. Mas “sei lá”, se é que admite a ignorância, simplesmente não se importa com ela. "Não me interessa” também funciona muito bem pra se libertar de um assunto qualquer e não necessariamente admitir que não se sabe do que estão falando.
O “sei lá” tem suas várias aplicações e significados implícitos nas nuanças da linguagem verbal e seus respectivos contextos. Por exemplo: “sei lá” pode ser o mesmo que “me deixa em paz”, ou seja, não fala nada sobre ignorância mas expressa o desejo de não ser incomodado e exclui a possibilidade de ser obrigado a dialogar sobre, sei lá, qualquer coisa. Também pode ser um sinal de humildade quando alguém pensa em voz alta, quase convencido de si mesmo “que isso ou aquilo deve ser assim... você não acha?” E você responde: “é... sei lá”, como quem admite que deve ser assim mesmo, afinal, quem sou eu pra discordar? Outra possibilidade: você está no restaurante, está com muita fome, tem inúmeras coisas pra fazer em pouquíssimo tempo e está almoçando atrasado, quase devorando a comida. Seu colega pergunta se você vê alguma relação entre a mudança do trajeto habitual dos leões marinhos e as variações climáticas mundiais. A não ser que você seja biólogo, meteorologista ou sei lá, apaixonado por leões marinhos e mudanças climáticas, é provável que você diga: “SEI LÁ!!” Que no caso é um substituto educado para “não me interessa”, “não enche” ou outras expressões menos corteses. Dito isso, deve-se destacar que a ecologia ou a paixão por leões marinhos não se torna menos importante. O “sei lá” não significa isso. O “sei lá” é a expressão libertadora, que evidencia a inconveniência e a falta de sensibilidade no que diz respeito aos estados de humor do próximo.
Claro que se D. Pedro I tivesse dito “independência ou sei lá”, a história do Brasil provavelmente seria diferente. “Sei lá” serve para nos libertar de várias situações e de muitas coisas, mas nem todas. Quer dizer, todas que são inconvenientes. E até algumas que nem são. Ou quase todas. Ah, sei lá.
O “sei lá” tem suas várias aplicações e significados implícitos nas nuanças da linguagem verbal e seus respectivos contextos. Por exemplo: “sei lá” pode ser o mesmo que “me deixa em paz”, ou seja, não fala nada sobre ignorância mas expressa o desejo de não ser incomodado e exclui a possibilidade de ser obrigado a dialogar sobre, sei lá, qualquer coisa. Também pode ser um sinal de humildade quando alguém pensa em voz alta, quase convencido de si mesmo “que isso ou aquilo deve ser assim... você não acha?” E você responde: “é... sei lá”, como quem admite que deve ser assim mesmo, afinal, quem sou eu pra discordar? Outra possibilidade: você está no restaurante, está com muita fome, tem inúmeras coisas pra fazer em pouquíssimo tempo e está almoçando atrasado, quase devorando a comida. Seu colega pergunta se você vê alguma relação entre a mudança do trajeto habitual dos leões marinhos e as variações climáticas mundiais. A não ser que você seja biólogo, meteorologista ou sei lá, apaixonado por leões marinhos e mudanças climáticas, é provável que você diga: “SEI LÁ!!” Que no caso é um substituto educado para “não me interessa”, “não enche” ou outras expressões menos corteses. Dito isso, deve-se destacar que a ecologia ou a paixão por leões marinhos não se torna menos importante. O “sei lá” não significa isso. O “sei lá” é a expressão libertadora, que evidencia a inconveniência e a falta de sensibilidade no que diz respeito aos estados de humor do próximo.
Claro que se D. Pedro I tivesse dito “independência ou sei lá”, a história do Brasil provavelmente seria diferente. “Sei lá” serve para nos libertar de várias situações e de muitas coisas, mas nem todas. Quer dizer, todas que são inconvenientes. E até algumas que nem são. Ou quase todas. Ah, sei lá.
Bohumil Med
Bohumil Med. O que poderia ser “bohumil med”? Talvez um concorrente dos pneus “Pirelli”. Marca de óleo. Ou ainda, com as pílulas “bohumil med” você emagrece mais rápido. Poderia ser “você é burro” em alemão. E tantas outras coisas que minha criatividade não quer alcançar agora. Talvez, depois de escrever e reler seja fácil descobrir que Bohumil Med também pode ser o nome de um restaurante inglês no meio da Grécia, que na verdade nem serve comida inglesa, mas tem o mesmo charme da cozinha horrível de lá. E é claro, fica numa daquelas ruelas escondidas; salvo os turistas mais curiosos e sem sorte, só os ingleses que moram na Grécia e ainda mantêm o mau gosto nacional conseguem encontrá-lo.
Enfim, Bohumil Med também não é nome de remédio, nem de clínica. Bohumil Med é o meu professor de Introdução à Música 1. Mais do que isso, ele é um professor à moda antiga, um pouco conservador, bastante rígido com horários e, até por conseqüência disso tudo, um tanto quanto metódico. Ou seja, num contexto contemporâneo e simplificado, o cara é um terrorista. Fechamos agora nessa sexta-feira, a terceira semana de aula e o Bohumil já nos aplicou 7 testes escritos, sem falar nos testes orais e trabalhos de pesquisa.
Apesar de morar no Brasil há quarenta anos, o Bohumil ainda tem um sotaque forte de tcheco. E suas pronúncias peculiares constantemente ecoam nos meus ouvidos, antes de ir dormir: “múcico non tem férias... múcico non tem sábado, non tem domingo i non tem feriado!” Da primeira vez que eu tive o privilégio de ouvir essas palavras da boca do mestre, fiz questão de olhar no relógio, só pra conferir se estávamos mesmo em dois mil e cinco. Por outro lado, encarei como uma advertência um tanto quanto útil, já que os grandes gênios da música que hoje é chamada de clássica, realmente estudavam no mínimo oito horas por dia. Pressupus então, que o mestre só queria nos lembrar da importância da dedicação apaixonada, aquela que molda o bom músico.
Seguindo essa linha, a da dedicação apaixonada, descobri em poucos dias que minha vida já não era mais minha. Não era mais minha e, no entanto, também não era da música! Descobri, com certo terror, que minha vida era agora do Bohumil. E não adiantava olhar no relógio. Mesmo assim, olhando no relógio e conversando com alguns colegas veteranos, descobri que Bohumil começava o ano primeiro de seu reinado de três décadas. Trinta anos no departamento e ele não mudara seus métodos terroristas. Percebi que um reles plebeu como eu não tinha chance contra uma instituição tão arraigada, tão firme, tão sólida. O que faria eu diante do império “bohumílico”? Desta pergunta, mais uma luz iluminou meu pensamento. Apesar de ter sido mandado para a linha de frente, agora eu não lutaria nem a favor nem contra o império de Bohumil. E infelizmente, não poderia lutar pela música. Agora, o que importava era salvar minha própria vida.
Enfim, Bohumil Med também não é nome de remédio, nem de clínica. Bohumil Med é o meu professor de Introdução à Música 1. Mais do que isso, ele é um professor à moda antiga, um pouco conservador, bastante rígido com horários e, até por conseqüência disso tudo, um tanto quanto metódico. Ou seja, num contexto contemporâneo e simplificado, o cara é um terrorista. Fechamos agora nessa sexta-feira, a terceira semana de aula e o Bohumil já nos aplicou 7 testes escritos, sem falar nos testes orais e trabalhos de pesquisa.
Apesar de morar no Brasil há quarenta anos, o Bohumil ainda tem um sotaque forte de tcheco. E suas pronúncias peculiares constantemente ecoam nos meus ouvidos, antes de ir dormir: “múcico non tem férias... múcico non tem sábado, non tem domingo i non tem feriado!” Da primeira vez que eu tive o privilégio de ouvir essas palavras da boca do mestre, fiz questão de olhar no relógio, só pra conferir se estávamos mesmo em dois mil e cinco. Por outro lado, encarei como uma advertência um tanto quanto útil, já que os grandes gênios da música que hoje é chamada de clássica, realmente estudavam no mínimo oito horas por dia. Pressupus então, que o mestre só queria nos lembrar da importância da dedicação apaixonada, aquela que molda o bom músico.
Seguindo essa linha, a da dedicação apaixonada, descobri em poucos dias que minha vida já não era mais minha. Não era mais minha e, no entanto, também não era da música! Descobri, com certo terror, que minha vida era agora do Bohumil. E não adiantava olhar no relógio. Mesmo assim, olhando no relógio e conversando com alguns colegas veteranos, descobri que Bohumil começava o ano primeiro de seu reinado de três décadas. Trinta anos no departamento e ele não mudara seus métodos terroristas. Percebi que um reles plebeu como eu não tinha chance contra uma instituição tão arraigada, tão firme, tão sólida. O que faria eu diante do império “bohumílico”? Desta pergunta, mais uma luz iluminou meu pensamento. Apesar de ter sido mandado para a linha de frente, agora eu não lutaria nem a favor nem contra o império de Bohumil. E infelizmente, não poderia lutar pela música. Agora, o que importava era salvar minha própria vida.
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