Elevadores
Todos tinham aquela expressão de elevador. Aquele silêncio de elevador. A respiração de elevador, o pensamento de elevador, a postura de elevador. A disposição itinerante, a fixação na busca ávida da luzinha que indica o fim da agonia - e finalmente, o andar que se quer descer.
De repente, há uma palavra imprópria para elevadores, obviamente proibida à etiqueta em elevadores.
- Oi...
Era uma palavra que soava como um pouso de pára-quedas um tanto singular, isto é, num elevador. Além disso, a palavra descabida não era ninguém falando ao celular, não era um cumprimento discreto para alguém ali dentro. Era, de fato, só um “oi” mesmo. Daqueles que socializam. Um “oi” bem intencionado, simples, sem grandes pretensões. Quer dizer, simpático. Daqueles que socializam.
Mas dentro do elevador. Fechado. Fechado, isolado, cerrado e em movimento, com pessoas dentro, entende? Daquelas que apertam os botões discretamente, ou que dizem “Ahm... quinto, por favor...”. Quer dizer, pessoas de verdade, passageiros, itinerantes, que entram no contexto da realidade de elevador. E que não sabem o que fazer: pessoas que olham para cima, que olham para baixo, que olham para a porta, que olham no celular ou que olham para um nada específico, quando por uma dádiva divina, ainda há um. São pessoas de elevador, que realmente não têm escolha. Ou até têm, afinal sempre se pode usar a escada. Mas agora já estavam ali.
Mas, como aquilo não podia estar acontecendo, só duas ou três pessoas se dignaram a olhar para trás e, antes que pudessem pôr seus olhos nos nadas de elevador novamente, acalmar seus corações e voltar aos seus pensamentos cotidianos e peculiares, tiveram que ouvir de novo:
- Oi!!
Agora sim. Agora, ainda mais alegre, o “oi” havia transcendido seu aspecto transgressor da ética, dos bons costumes, da educação e da etiqueta em um elevador. Quer dizer, a moral do elevador já não importava mais. Naquele elevador, já não se tratava mais de enfrentar meros constrangimentos ou de afrontas aos itinerantes. Pois que agora, aqueles itinerantes tornavam-se os escolhidos pela vida, pelo tempo, pelo destino, enfim. Pelo elevador. E era preciso sabedoria para presenciar com firmeza o momento, o exato momento, em que a convivência em elevadores talvez mudasse e nunca mais fosse a mesma. Toda a situação era provavelmente um marco biográfico, uma experiência única, algo que só ocorre a cada cinco ou seis eclipses, um contato imediato com algum tipo de vida alienígena, sei lá. E a vida alienígena ainda resolveu acrescentar:
- Tudo bom?
Também não era um vendedor, tampouco uma criança e nem mesmo um moço do campo com costumes menos urbanos, tentando puxar conversa. Não era ninguém pedindo esmola e não era alguém cordial, que procurava chamar a atenção para algo que pudesse ter caído do bolso de outrem.
Não. Para o terror de todos, era uma jovem de ar disposto dizendo um “oi” simpático - daqueles que socializam - como se não estivesse em um elevador. Ou, pior ainda, como se simplesmente ignorasse o fato. Vai saber se os alienígenas usam elevadores. Além disso, a moça se vestia bem, não aparentava insanidade mental. Tinha os olhos vivos, uma expressão saudável. Pelo menos para uma alienígena.
Em seguida, um senhor mais à frente resolveu voltar-se e encarar a jovem alienígena. Se ela dizia "oi” em elevadores, teria que pelo menos se dispor a suportar a sua antipatia, afinal, não se diz um “oi” socializador como aquele dentro do elevador impunemente. Se a moça tivesse pelo menos assistido a um ou dois filmes de ficção científica já saberia como os extraterrestres podem ser incivilizados. Não seria surpresa alguma se ela estivesse ocultando um “laser” destruidor dentro da pochete, esperando o momento propício para agir. Era preciso detê-la o quanto antes. E foi para isso que o senhor da frente estufou o peito, virou-se e encarou a moça.
Mas nada a atingia. Nada a intimidava. Para a senhorita alienígena é como se o elevador e a sua moral fossem uma realidade paralela, uma mera ilusão. Talvez fosse a volta do messias, em forma de mulher, aparecendo pela primeira vez em um elevador, só pra testar a receptividade das pessoas. Podia ser uma campanha publicitária de pasta de dente, já que o mau hálito não permitiria proferir um "oi" coletivo daqueles num elevador cheio.
Contudo, antes que o senhor da frente encerrasse seu olhar reprovador, a moça disse, logo em seguida ao aterrorizante “Tudo bom?”, que estava fazendo uma pesquisa de campo e...
- Minha primeira pergunta é... o senhor socializa em elevadores?