Dançava com o dia,
com o sol, com o céu, com a vida.
Dançava com a manhã,
e com o tempo, que esquecia.
Dançava distraída.
Dançava até cansar.
Dançava por prazer
com ou sem porquê.
Mas ela com ela,
não sabia dançar.
E tinha saudade,
de dançar de verdade.
Oi pessoal! "Os que não foram fora" são os textos, poemas e poesias que sobreviveram à autocrítica. Sempre quis editar um livro mas vou escrevendo na mesma medida em que vou selecionando os textos e jogando alguns fora. Por essa e por outras, não consegui pensar num título que representasse um conjunto de poesias que eu queria editar. Foi quando me deram uma sugestão de título que eu gostei: "as que não foram fora".
Saturday, November 04, 2006
As chuvas chovem
Num dia ou no outro
As chuvas chovem
E você vai fazer o quê?
Seu mau humor não me traz sol
Mas te deixa só
Chuva não é defeito
Então não dá pra consertar
Se o erro te irrita
A culpa é toda sua
É a vida que lhe incita
A verdade que se insinua
Que enquanto molha tuas roupas
e faz teu passo apressado,
alimenta o verde do cerrado.
As chuvas chovem
E você vai fazer o quê?
Seu mau humor não me traz sol
Mas te deixa só
Chuva não é defeito
Então não dá pra consertar
Se o erro te irrita
A culpa é toda sua
É a vida que lhe incita
A verdade que se insinua
Que enquanto molha tuas roupas
e faz teu passo apressado,
alimenta o verde do cerrado.
Las cucarachas
Tenho medo das baratas. Não tenho medo DE baratas. Afinal, eu sou homem, zagueiro principal do time da cento e dezesseis, filho, neto, primo e sobrinho de gaúchos, grosso como dedo destroncado. E tem mais: esse negócio de medo de barata é coisa de fresco.
Mas enfim, tenho medo das baratas. Sinto que elas são mais fortes, já que só elas sobreviverão a um ataque nuclear. Elas são feias, sujas, entram aonde querem e não estão nem aí com toda sua inconveniência. Também não dá pra conversar com elas. Ou seja, são o símbolo da queda definitiva da civilização. Como se a existência das baratas fosse um aviso, pois num mundo onde pode existir baratas, qualquer coisa pode acontecer, até mesmo uma guerra atômica.
O silêncio enigmático das baratas é no mínimo uma expressão facial, se é que baratas têm face. Uma expressão de superioridade, dizendo que sim, eu sou amedrontadora. Algumas pessoas me dizem que não há porquê temê-las. Elas não mordem e não são venenosas. É quando eu respondo, indignado: “e precisa??” Também não sou nenhum pouco fã de “La cucaracha”. E apesar da grande semelhança entre “las cucarachas” e certas políticas e códigos de ética vigentes, tanto no cenário nacional quanto no internacional, não quero comparar nada nem ninguém a elas. Afinal, as baratas são importantes para o equilíbrio ecológico. Por isso nós as toleramos e fingimos que elas não estão por aí, mesmo porque, é mais confortável pensar que elas nem existem.
Mas enfim, tenho medo das baratas. Sinto que elas são mais fortes, já que só elas sobreviverão a um ataque nuclear. Elas são feias, sujas, entram aonde querem e não estão nem aí com toda sua inconveniência. Também não dá pra conversar com elas. Ou seja, são o símbolo da queda definitiva da civilização. Como se a existência das baratas fosse um aviso, pois num mundo onde pode existir baratas, qualquer coisa pode acontecer, até mesmo uma guerra atômica.
O silêncio enigmático das baratas é no mínimo uma expressão facial, se é que baratas têm face. Uma expressão de superioridade, dizendo que sim, eu sou amedrontadora. Algumas pessoas me dizem que não há porquê temê-las. Elas não mordem e não são venenosas. É quando eu respondo, indignado: “e precisa??” Também não sou nenhum pouco fã de “La cucaracha”. E apesar da grande semelhança entre “las cucarachas” e certas políticas e códigos de ética vigentes, tanto no cenário nacional quanto no internacional, não quero comparar nada nem ninguém a elas. Afinal, as baratas são importantes para o equilíbrio ecológico. Por isso nós as toleramos e fingimos que elas não estão por aí, mesmo porque, é mais confortável pensar que elas nem existem.
Friday, October 13, 2006
Escudos e armaduras
Larguei meu escudo,
tirei as armaduras
e as tensões das minhas costas.
Tudo que são
defesas impuras
mandei embora dos corações
e levantei manhãs dispostas.
Mas agora, a luta se ri.
Ri do meu cansaço
diz que fui tolo,
porque descansei o braço.
A armadura não quer me vestir.
O escudo, não quer meu abraço.
Magoado que está
não quer consolo
nem palavras de amizade.
Fica só,
sem golpear ou se defender
da saudade de você.
tirei as armaduras
e as tensões das minhas costas.
Tudo que são
defesas impuras
mandei embora dos corações
e levantei manhãs dispostas.
Mas agora, a luta se ri.
Ri do meu cansaço
diz que fui tolo,
porque descansei o braço.
A armadura não quer me vestir.
O escudo, não quer meu abraço.
Magoado que está
não quer consolo
nem palavras de amizade.
Fica só,
sem golpear ou se defender
da saudade de você.
Saturday, September 09, 2006
Iogurte e refrigerante
Ele tentou dizer. Não dá. Chega disso. Cansei. Parei contigo. Não me liga mais. Mas ela não transigia, não o deixava em paz. Foi quando ele disse:
- Arrumei outra.
E ela não disse que ele era um canalha e que ia jogar todas as fotos deles fora, e não disse que esperava mais dele depois de tanto tempo e que agora sim ela esquecia dele de uma vez. E também não fez um silêncio interminável ao receber a notícia de que ele, um amor de 9 anos, tinha arrumado outra. Ela simplesmente disse:
- Não inventa.
E ele sustentou:
- Arrumei sim.
- Arrumou nada. Você não arruma nem seu armário.
- Pois arrumei. E ela está vindo pra cá.
Ela fez uma expressão de desdém. Mas ficou atenta com o canto do olho. E enquanto a outra não chegasse, eles iam se lembrar da segunda lua-de-mel, em Veneza. Ou, melhor dizendo, ele ia ser lembrado mais uma vez, da segunda lua-de-mel. Em Veneza. Ganharam um daqueles prêmios promocionais de refrigerante. Ou era iogurte?
- Você sempre pergunta isso. Já não te falei, mil vezes?
- É, pois é. Mas eu esqueço.
- Você sabe que isso me irrita.
Ele aproveitou pra chamar o garçom. Ia pedir um refrigerante, mas repensou. Ela sempre criticava o refrigerante. Muito açúcar.
- Me traz um... uma água. Com gás. Não, faz o seguinte. Me traz um suco de limão.
Acrescentou mentalmente: “com gás”. E esboçou um meio sorriso.
- Que sorriso é esse?
Ele ia responder e a outra chegou. Beijaram-se. Ele a apresentou para a outra. A outra disse "ouvi falar muito bem de você", era simpática. Comentou que tinha adorado a história de como os dois tinham decidido ter uma segunda lua-de-mel.
- Gostei tanto da história que me inscrevi numa promoção dessas também!
E ele perguntou:
- Dessas de refrigerante?
Ela gritou “garçom!!”, como quem grita “socorro!!”. E a outra:
- Não lembro.
Foi aí que ela se conformou e passou no supermercado pra comprar iogurte.
- Arrumei outra.
E ela não disse que ele era um canalha e que ia jogar todas as fotos deles fora, e não disse que esperava mais dele depois de tanto tempo e que agora sim ela esquecia dele de uma vez. E também não fez um silêncio interminável ao receber a notícia de que ele, um amor de 9 anos, tinha arrumado outra. Ela simplesmente disse:
- Não inventa.
E ele sustentou:
- Arrumei sim.
- Arrumou nada. Você não arruma nem seu armário.
- Pois arrumei. E ela está vindo pra cá.
Ela fez uma expressão de desdém. Mas ficou atenta com o canto do olho. E enquanto a outra não chegasse, eles iam se lembrar da segunda lua-de-mel, em Veneza. Ou, melhor dizendo, ele ia ser lembrado mais uma vez, da segunda lua-de-mel. Em Veneza. Ganharam um daqueles prêmios promocionais de refrigerante. Ou era iogurte?
- Você sempre pergunta isso. Já não te falei, mil vezes?
- É, pois é. Mas eu esqueço.
- Você sabe que isso me irrita.
Ele aproveitou pra chamar o garçom. Ia pedir um refrigerante, mas repensou. Ela sempre criticava o refrigerante. Muito açúcar.
- Me traz um... uma água. Com gás. Não, faz o seguinte. Me traz um suco de limão.
Acrescentou mentalmente: “com gás”. E esboçou um meio sorriso.
- Que sorriso é esse?
Ele ia responder e a outra chegou. Beijaram-se. Ele a apresentou para a outra. A outra disse "ouvi falar muito bem de você", era simpática. Comentou que tinha adorado a história de como os dois tinham decidido ter uma segunda lua-de-mel.
- Gostei tanto da história que me inscrevi numa promoção dessas também!
E ele perguntou:
- Dessas de refrigerante?
Ela gritou “garçom!!”, como quem grita “socorro!!”. E a outra:
- Não lembro.
Foi aí que ela se conformou e passou no supermercado pra comprar iogurte.
Do futuro
Não sei o que é o poeta
porque ele tem um ar
de quem não é daqui.
Um ar de profeta,
que olha pro mar
e não pára de sentir,
saudades do futuro.
Como se já estivera lá
como se morasse puro
nos dias virgens
que nossa alma verá.
O poeta,
parece que é tanto,
e assim parece, só de olhar.
Eu só espero que sempre volte
com pedaços de amanhã
pra nos contar.
porque ele tem um ar
de quem não é daqui.
Um ar de profeta,
que olha pro mar
e não pára de sentir,
saudades do futuro.
Como se já estivera lá
como se morasse puro
nos dias virgens
que nossa alma verá.
O poeta,
parece que é tanto,
e assim parece, só de olhar.
Eu só espero que sempre volte
com pedaços de amanhã
pra nos contar.
Thursday, August 31, 2006
Dicionário
Estranhamente, tenho procurado muitas respostas para minhas perguntas no dicionário. E o que é mais estranho, tenho encontrado respostas interessantes, até certo ponto satisfatórias. Claro que antes de encontrar definições relevantes, você se arrisca a procurar por “reverberação” e se deparar com “ato ou efeito de reverberar”, ou “revérbero”. Tudo bem se você já conhecia uma palavra ou outra, mas imagine um garoto de uns oito anos, procurando por “abdicatório”. Em “abdicatório” você encontra com “abdicativo”. Sobre “abdicativo”, tem: “concernente à abdicação, abdicatório”. “Que motiva ou envolve abdicação”. Não seria exagero dizer que no momento em que o garoto lê “concernente”, seguido de “abdicação”, ele abdica da busca pelo conhecimento no que concerne a palavras num dicionário. Mas o fato é que não é só um livro um pouco inadequado para crianças. Nele, você descobre a sua completa ignorância sobre palavras que você nunca nem sequer ouviu falar. Algumas palavras são tão incógnitas que você as lê como um “x”, ou seja, um dicionário pode te fazer de bobo só com orações subordinadas, que acabam por ser as únicas palavras que você realmente entende, como “relativo à”, “referente à”, “ato ou efeito de”, “que, ou aquele que”, “ação pela qual”, etc.
No caso das palavras de baixo calão, a tendência é que você aprenda tudo antes de abrir o dicionário. Mas isso não significa que você aprendeu tudo, ou que o dicionário não tenha nada mais o que te ensinar. Veja por exemplo, com o perdão da palavra, o “cu”. Começa com uma definição simples, bastante científica e formal. Algo discreto. “Ânus”. Soa quase como uma repreensão. Como se alguém estivesse te corrigindo, dizendo que não é “cu”. É “ânus”. No entanto, e para a minha surpresa, o significado seguinte de “cu” é o “fundo da agulha onde se acha o orifício”. O fundo, sim, da agulha. Onde se acha, por sua vez, o orifício. Fiquei realmente impressionado ao saber dessa denominação tão específica, mas é bem verdade que aquele buraquinho da agulha é às vezes tão irritante que até merece o nome. Ainda assim, imagine o que não se sofre com a ignorância nossa de cada dia, se uma costureira te entrega linha e agulha e pede pra você enfiar no “cu”. E acrescenta educadamente: “por favor”.
Na terceira significação, tem as tradicionais nádegas. Ou seja, depois de toda aquela especificidade, o termo passa a ter um caráter mais genérico, designando não só o orifício mas também as suas redondezas. E quando pensei que não havia mais como me surpreender com um livro que deveria ser só uma fonte de pesquisa, resolvi olhar o significado de nádega. Conforme consta, as nádegas são “a parte carnosa superior e traseira das coxas.” Até aí tudo bem, porque as nádegas, mesmo num livro formal e "científico" como o dicionário, não deixam de ser nádegas. Nádegas são nádegas. Alguém te diz que são a parte carnosa superior e traseira das coxas e você age naturalmente. Ou quase. Mas na seqüência, descrevem-nas como “a parte carnuda, por baixo e atrás da garupa das cavalgaduras”. Ou seja, a partir daqui não há mais direção, a civilidade perde o sentido. Depois de “garupa das cavalgaduras” só nos resta a volúpia e a entrega às paixões primitivas. Salve-se quem puder.
O dicionário é também um guia diplomático. Nele você aprende a diferenciar “bernes”, que são larvas de inseto, de “bernenses”, que são suíços. Além disso, é notável que os sufixos não são um recurso seguro, já que golfada não tem qualquer ligação com partida de golfe. A não ser é claro, que um jogador esteja passando mal:
- Esses bernes não sabem o que comem!! – reclamou Sr. Argantes, logo após a segunda golfada.
O mordomo, que o ajudava a se recompor e a se assear, corrigiu:
- Com o perdão da intransigência senhor, os “bernenses” não sabiam da sua alergia a laticínios. Quanto aos “bernes”, creio que eles não se importam, senhor.
Outras pesquisas passam a impressão de serem tão inúteis que é quase como se o próprio Aurélio estivesse ali, pessoalmente curtindo com a sua cara. Um exemplo disso é “jurubebal”, que significa “moita de jurubebas”.
Não sabe o que são jurubebas? Olha no dicionário.
No caso das palavras de baixo calão, a tendência é que você aprenda tudo antes de abrir o dicionário. Mas isso não significa que você aprendeu tudo, ou que o dicionário não tenha nada mais o que te ensinar. Veja por exemplo, com o perdão da palavra, o “cu”. Começa com uma definição simples, bastante científica e formal. Algo discreto. “Ânus”. Soa quase como uma repreensão. Como se alguém estivesse te corrigindo, dizendo que não é “cu”. É “ânus”. No entanto, e para a minha surpresa, o significado seguinte de “cu” é o “fundo da agulha onde se acha o orifício”. O fundo, sim, da agulha. Onde se acha, por sua vez, o orifício. Fiquei realmente impressionado ao saber dessa denominação tão específica, mas é bem verdade que aquele buraquinho da agulha é às vezes tão irritante que até merece o nome. Ainda assim, imagine o que não se sofre com a ignorância nossa de cada dia, se uma costureira te entrega linha e agulha e pede pra você enfiar no “cu”. E acrescenta educadamente: “por favor”.
Na terceira significação, tem as tradicionais nádegas. Ou seja, depois de toda aquela especificidade, o termo passa a ter um caráter mais genérico, designando não só o orifício mas também as suas redondezas. E quando pensei que não havia mais como me surpreender com um livro que deveria ser só uma fonte de pesquisa, resolvi olhar o significado de nádega. Conforme consta, as nádegas são “a parte carnosa superior e traseira das coxas.” Até aí tudo bem, porque as nádegas, mesmo num livro formal e "científico" como o dicionário, não deixam de ser nádegas. Nádegas são nádegas. Alguém te diz que são a parte carnosa superior e traseira das coxas e você age naturalmente. Ou quase. Mas na seqüência, descrevem-nas como “a parte carnuda, por baixo e atrás da garupa das cavalgaduras”. Ou seja, a partir daqui não há mais direção, a civilidade perde o sentido. Depois de “garupa das cavalgaduras” só nos resta a volúpia e a entrega às paixões primitivas. Salve-se quem puder.
O dicionário é também um guia diplomático. Nele você aprende a diferenciar “bernes”, que são larvas de inseto, de “bernenses”, que são suíços. Além disso, é notável que os sufixos não são um recurso seguro, já que golfada não tem qualquer ligação com partida de golfe. A não ser é claro, que um jogador esteja passando mal:
- Esses bernes não sabem o que comem!! – reclamou Sr. Argantes, logo após a segunda golfada.
O mordomo, que o ajudava a se recompor e a se assear, corrigiu:
- Com o perdão da intransigência senhor, os “bernenses” não sabiam da sua alergia a laticínios. Quanto aos “bernes”, creio que eles não se importam, senhor.
Outras pesquisas passam a impressão de serem tão inúteis que é quase como se o próprio Aurélio estivesse ali, pessoalmente curtindo com a sua cara. Um exemplo disso é “jurubebal”, que significa “moita de jurubebas”.
Não sabe o que são jurubebas? Olha no dicionário.
Nudez
A pureza que tu tinhas
era da beleza da vista
e palavras minhas.
E da conquista
que eu via em ti.
E a pureza só tua
eu não a vi,
e te vi nua,
não como és em si.
A pureza que eu via
era a nudeza do meu revés
que lhe repartia
os encantos que tu não és.
E em mim ficou
a pureza da tua nudez
e tua silhueta nua
que insinuou minha timidez.
era da beleza da vista
e palavras minhas.
E da conquista
que eu via em ti.
E a pureza só tua
eu não a vi,
e te vi nua,
não como és em si.
A pureza que eu via
era a nudeza do meu revés
que lhe repartia
os encantos que tu não és.
E em mim ficou
a pureza da tua nudez
e tua silhueta nua
que insinuou minha timidez.
Friday, July 28, 2006
Ele também tinha isso, quase uma dependência, um tipo de vício, uma dessas loucuras por alguma coisa específica. Ele também tinha dessas coisas, sim, claro que tinha.
- Rapaz, eu sou louco por...
E ele fez um gesto com as mãos, como quem pede ajuda pra se lembrar das palavras.
- Como é mesmo o nome? Sou louco por...
Ficou aquele clima de espera e ele já estava se distanciando, adentrando seu cérebro, a procura daquilo que, enfim, ele não lembrava.
- É uma coisa que a gente compartilha e... mas eu sou louco por aquilo, rapaz. Sou louco pelas...
Ele era louco pelas... pelas... pelas mulheres do Rio. E pelos dias de praia. E pelas histórias do “Flash”, pela torta de morango da tia Lení, pela música do... como era mesmo o nome?
- Mas rapaz, que coisa. Está na ponta da língua, quase saindo, mas não sai. Sou louco por...
Sou louco por cheiro de pizza dormida. Bola de gude, filmes do Charles Chaplin, canções do... aquele, com a voz grave. Alguma coisa com “Gonçalves”.
E entre essas e outras as pessoas iam dizendo suas loucuras. Uns eram loucos por chocolate, outros por cinema, outros por cachorros, etc.
E ele tentando pensar, tentando ouvir os outros, tentando encontrar a palavra, já que ele era louco mesmo, não por cinema ou chocolate, mas por... por...
- Não está vindo na minha mente agora, mas rapaz, eu sou louquinho por...
Mas ele foi interrompido antes. Porque a essa altura da conversa ninguém queria ouvir reticências. E seguindo o fluxo da conversa, já estavam praticamente em outro assunto. Ele até deu uma respirada diferente, como quem acaba de lembrar de alguma coisa, mas era alarme falso. E em seguida, o que era louco por cachorros emendou:
- Por isso eu quis morar numa casa espaçosa, por causa dos cachorros que precisam de espaço e...
De repente, deu aquele estalo. A palavra voltou, como se o “Flash” tivesse vindo com ela escrita na mão e entregado para o Nelson Gonçalves cantar. E ele disse, realizado, como quem acaba de provar uma torta de morango da tia Lení:
- Rapaz, vou te falar.
O pessoal atento e ele satisfeito:
- Sou louco por memórias.
- Rapaz, eu sou louco por...
E ele fez um gesto com as mãos, como quem pede ajuda pra se lembrar das palavras.
- Como é mesmo o nome? Sou louco por...
Ficou aquele clima de espera e ele já estava se distanciando, adentrando seu cérebro, a procura daquilo que, enfim, ele não lembrava.
- É uma coisa que a gente compartilha e... mas eu sou louco por aquilo, rapaz. Sou louco pelas...
Ele era louco pelas... pelas... pelas mulheres do Rio. E pelos dias de praia. E pelas histórias do “Flash”, pela torta de morango da tia Lení, pela música do... como era mesmo o nome?
- Mas rapaz, que coisa. Está na ponta da língua, quase saindo, mas não sai. Sou louco por...
Sou louco por cheiro de pizza dormida. Bola de gude, filmes do Charles Chaplin, canções do... aquele, com a voz grave. Alguma coisa com “Gonçalves”.
E entre essas e outras as pessoas iam dizendo suas loucuras. Uns eram loucos por chocolate, outros por cinema, outros por cachorros, etc.
E ele tentando pensar, tentando ouvir os outros, tentando encontrar a palavra, já que ele era louco mesmo, não por cinema ou chocolate, mas por... por...
- Não está vindo na minha mente agora, mas rapaz, eu sou louquinho por...
Mas ele foi interrompido antes. Porque a essa altura da conversa ninguém queria ouvir reticências. E seguindo o fluxo da conversa, já estavam praticamente em outro assunto. Ele até deu uma respirada diferente, como quem acaba de lembrar de alguma coisa, mas era alarme falso. E em seguida, o que era louco por cachorros emendou:
- Por isso eu quis morar numa casa espaçosa, por causa dos cachorros que precisam de espaço e...
De repente, deu aquele estalo. A palavra voltou, como se o “Flash” tivesse vindo com ela escrita na mão e entregado para o Nelson Gonçalves cantar. E ele disse, realizado, como quem acaba de provar uma torta de morango da tia Lení:
- Rapaz, vou te falar.
O pessoal atento e ele satisfeito:
- Sou louco por memórias.
Sunday, July 02, 2006
Conquista
Se tu hás
e meu olho te vê,
és minha
não és sozinha,
em mim estás.
Mas tu só estás aqui
por metade,
do que eu sou.
E meu olho te vê,
minha alma te sente
e eu sinto saudade
e me vou por aí,
onde tua vista,
me desencaminha
mas és sozinha.
Não és minha,
não há mais conquista,
se tu não estás.
Wednesday, June 21, 2006
Assim
Assim...
minhas passadas.
Vão andando
e me dizendo que
pra não terem que escrever mais nada
inventaram as reticências.
minhas passadas.
Vão andando
e me dizendo que
pra não terem que escrever mais nada
inventaram as reticências.
O velho de São Jorge
Havia um velho lá de São Jorge que dizia que ia morrer no chão, “porque é pra onde se volta”. Dizia ele, sempre, no final de cada frase sua. Às vezes, pra quem perguntasse, acrescentava, solene: “ora, essa é, implicitamente, a segunda certeza que, na verdade, é a segunda certeza; na verdade, com certeza que, é a segunda certeza, que se tem, por aí. Aí, nessa vida. Não é?” O velho, mais bêbado a cada palavra, esperava a próxima pergunta e solenizava a resposta triunfal, uma vez que todos perguntavam: “e a primeira?” respondia: “a primeira, como já dizia minha velha mãe, que Deus a tenha, a primeira certeza, na verdade é a de que, com certeza, como dizia minha velha mãe, que Deus a tenha, que Deus a tenha, vou morrer.” E não raro era o velho esbanjar sua erudição trocando “vou morrer” por “morrerei”, ou até, numa ocasião especial, “morrer-me-ei”. Ocasião especial era qualquer garota atraente que lhe desse atenção, sem que com isso lhe arranjasse uns trocados. Quando recebia esmolas, indignava-se, e bradava contra a ditadura enquanto guardava os centavos no bolso esquerdo, porque o direito estava furado desde antes do golpe de sessenta e quatro. Entretanto, ao invés de maltrapilho, mantinha aparência razoável que, ainda que razoável, não tirava-lhe o ar de sua própria peculiaridade:
- O rapaz tão estimado, desce mais uma, que eu vou morrer no chão, que é pra onde se volta. Não é?
- Mais morto e mais no chão você não fica. Basta por hoje. Essa foi a última.
- Não foi não!
E nisso, começava um discurso:
- Achais que poderes podares minhas liberdades. Queres matares-me por dentro de mim mesmo. Morrerei no chão, que é pra onde se volta! Tá me ouvindo? Estais a me ouvirdes? Eu pago-te sempre o que, devendo a ti, devo-te.
Assim disse o velho, enfiando a mão no bolso direito da calça de linho. E acrescentou:
- Morrer-me-ei no chão, que é pra onde voltar-me-ei.
Era o velho “tão antigo quanto o sexo”, assim dizia ele. Alguns diziam que era mais velho que Raul Seixas, que nascera “há dez mil anos atrás”. Ninguém sabia ao certo quantos anos tinha, nem ele mesmo, até porque lhe falhava a memória depois de tantos dias alcoolizados.
Deitava-se encharcado e secando ao sol, na única calçada da cidade que ficava aos redores donde ele bebia para os santos. Para os santos sim, pois que eram a única razão de sua bebedeira. Afinal, para cada dose havia um santo homenageado. E é claro que nunca lhe falhava a memória pra lembrar nomes e mais nomes de santos que ninguém sabia que existiam. Dizia ele que no céu, aonde já estivera várias vezes, ninguém pagava pela bebida, desde que servisse uma ou outra para os santos.
- Olha, digo uma coisa: santo nenhum, entendeu? Santo nenhum. Olha, não tem um. Não tem um santo que recusa bebida. Não tem. Pode procurar. Pode procurar que não encontra. Não encontra. Digo porque eu sei. Vou mentir pra quê?
De sábado em sábado, ou de domingo em domingo, alguém acabava ouvindo sobre a cidadezinha mais próxima onde havia uma queda d’água de nome “Pedra Azul”. E visitava São Jorge. E querendo ou não, gostando ou não, acabavam conhecendo e ouvindo o velho. A verdade é que todos iam de uma forma ou outra se divertindo, e curiosamente perguntavam:
- Santo nenhum?
Ao que o Velho não se intimidava:
- NENHUM.
E insistiam:
- Tem certeza?
- Certeza? Digo porque eu sei. Olha: não há santo desse mundo velho que tenha subido lá em cima pra recusar bebida. Digo lá em cima, porque aqui embaixo eles não bebem.
- Aqui embaixo eles não bebem?
- De jeito nenhum.
- Por quê?
- Porque não pode.
- E por quê não pode?
- Você não sabe? Santo não bebe em serviço. Quando tem que descer aqui eles vão logo tomando uma extra lá em cima. Santo não bebe em serviço. Não tem um. Pode procurar.
- O rapaz tão estimado, desce mais uma, que eu vou morrer no chão, que é pra onde se volta. Não é?
- Mais morto e mais no chão você não fica. Basta por hoje. Essa foi a última.
- Não foi não!
E nisso, começava um discurso:
- Achais que poderes podares minhas liberdades. Queres matares-me por dentro de mim mesmo. Morrerei no chão, que é pra onde se volta! Tá me ouvindo? Estais a me ouvirdes? Eu pago-te sempre o que, devendo a ti, devo-te.
Assim disse o velho, enfiando a mão no bolso direito da calça de linho. E acrescentou:
- Morrer-me-ei no chão, que é pra onde voltar-me-ei.
Era o velho “tão antigo quanto o sexo”, assim dizia ele. Alguns diziam que era mais velho que Raul Seixas, que nascera “há dez mil anos atrás”. Ninguém sabia ao certo quantos anos tinha, nem ele mesmo, até porque lhe falhava a memória depois de tantos dias alcoolizados.
Deitava-se encharcado e secando ao sol, na única calçada da cidade que ficava aos redores donde ele bebia para os santos. Para os santos sim, pois que eram a única razão de sua bebedeira. Afinal, para cada dose havia um santo homenageado. E é claro que nunca lhe falhava a memória pra lembrar nomes e mais nomes de santos que ninguém sabia que existiam. Dizia ele que no céu, aonde já estivera várias vezes, ninguém pagava pela bebida, desde que servisse uma ou outra para os santos.
- Olha, digo uma coisa: santo nenhum, entendeu? Santo nenhum. Olha, não tem um. Não tem um santo que recusa bebida. Não tem. Pode procurar. Pode procurar que não encontra. Não encontra. Digo porque eu sei. Vou mentir pra quê?
De sábado em sábado, ou de domingo em domingo, alguém acabava ouvindo sobre a cidadezinha mais próxima onde havia uma queda d’água de nome “Pedra Azul”. E visitava São Jorge. E querendo ou não, gostando ou não, acabavam conhecendo e ouvindo o velho. A verdade é que todos iam de uma forma ou outra se divertindo, e curiosamente perguntavam:
- Santo nenhum?
Ao que o Velho não se intimidava:
- NENHUM.
E insistiam:
- Tem certeza?
- Certeza? Digo porque eu sei. Olha: não há santo desse mundo velho que tenha subido lá em cima pra recusar bebida. Digo lá em cima, porque aqui embaixo eles não bebem.
- Aqui embaixo eles não bebem?
- De jeito nenhum.
- Por quê?
- Porque não pode.
- E por quê não pode?
- Você não sabe? Santo não bebe em serviço. Quando tem que descer aqui eles vão logo tomando uma extra lá em cima. Santo não bebe em serviço. Não tem um. Pode procurar.
Silvana
No levantar da persiana
dá pra lembrar
do ar que voa, nas paisagens serranas
dos abraços molhados
na minha e na sua
garoa
onde sempre hão de tocar
as músicas mais insanas.
O meu ar também é o seu
que emana teus traços
e me faz respirar o meu dom
que é tua alma, teu corpo, teu som.
Numa janela
de longe
a nota soa e sente
nas gotas de garoa
que a silhueta segue
rente, às paisagens serranas
das músicas mais insanas
dos ares
que voam
das notas que se tocam
e soam.
dá pra lembrar
do ar que voa, nas paisagens serranas
dos abraços molhados
na minha e na sua
garoa
onde sempre hão de tocar
as músicas mais insanas.
O meu ar também é o seu
que emana teus traços
e me faz respirar o meu dom
que é tua alma, teu corpo, teu som.
Numa janela
de longe
a nota soa e sente
nas gotas de garoa
que a silhueta segue
rente, às paisagens serranas
das músicas mais insanas
dos ares
que voam
das notas que se tocam
e soam.
Por que não?
– E agora?
– Quê?
– E agora??
– Agora?
– É. E agora?
– Não, agora não.
– Agora não?
– Não, agora é melhor não.
– Por que não?
– Porque não.
– “Porque não” não é resposta.
– Ah, não?
– Não.
– Por quê?
– Porque não, porque não faz sentido.
– “Porque não”...?
– Não, mas não é assim.
– Ah, não?
– Não.
– Então como é?
– Não, é que eu, quando eu disse, foi mais assim, sei lá. Foi diferente.
– Ah, é?
– É, não foi assim, como se eu quisesse, pra terminar a idéia, como se fosse, tipo, “acabou”, entende?
– Claro.
– Quer parar com essa maldita ironia?
– O que você está dizendo, basicamente, é que “porque não” não é resposta. Mas é claro que, se você, o centro do universo, precisar usar um “porque não” ou outro, tudo bem, porque você é diferente.
– Eu não sou diferente.
– Ah, não?
– Não.
– Por quê?
– Porque quando as respostas são óbvias, ninguém pergunta nada sobre elas.
– Sim.
– E quando um porquê é obvio, não se pergunta “por que não”.
– Ah, não?
– Não!
– E por que não?
– Porque nã… Ah, vai pro inferno.
– Vou sim. Por que não?
Depois dos socos que trocaram, cansaço. Os dois sentam-se à mesa.
– Idiota.
– Eu? Eu é que sou idiota?
– É.
– Ah sim, certo. Eu sou o idiota.
– É sim. E por que não seria??
– Não provoca.
– Provoco sim, por que não??
– Por quê? “Por quê não”?
– É! Por que não?!?
– Por quê? Você quer saber por quê não?!?!?
– É isso aí!!! Por que não?!?!?
– PORQUE NÃO!!!!!! PORQUE NÃO!!!!!!
Voltam aos socos.
Sentados na sala. Compressas de gelo. Ela chega, pergunta o que houve.
– Nada.
– É, não foi nada não.
Ela pergunta:
– Quê?
– E agora??
– Agora?
– É. E agora?
– Não, agora não.
– Agora não?
– Não, agora é melhor não.
– Por que não?
– Porque não.
– “Porque não” não é resposta.
– Ah, não?
– Não.
– Por quê?
– Porque não, porque não faz sentido.
– “Porque não”...?
– Não, mas não é assim.
– Ah, não?
– Não.
– Então como é?
– Não, é que eu, quando eu disse, foi mais assim, sei lá. Foi diferente.
– Ah, é?
– É, não foi assim, como se eu quisesse, pra terminar a idéia, como se fosse, tipo, “acabou”, entende?
– Claro.
– Quer parar com essa maldita ironia?
– O que você está dizendo, basicamente, é que “porque não” não é resposta. Mas é claro que, se você, o centro do universo, precisar usar um “porque não” ou outro, tudo bem, porque você é diferente.
– Eu não sou diferente.
– Ah, não?
– Não.
– Por quê?
– Porque quando as respostas são óbvias, ninguém pergunta nada sobre elas.
– Sim.
– E quando um porquê é obvio, não se pergunta “por que não”.
– Ah, não?
– Não!
– E por que não?
– Porque nã… Ah, vai pro inferno.
– Vou sim. Por que não?
Depois dos socos que trocaram, cansaço. Os dois sentam-se à mesa.
– Idiota.
– Eu? Eu é que sou idiota?
– É.
– Ah sim, certo. Eu sou o idiota.
– É sim. E por que não seria??
– Não provoca.
– Provoco sim, por que não??
– Por quê? “Por quê não”?
– É! Por que não?!?
– Por quê? Você quer saber por quê não?!?!?
– É isso aí!!! Por que não?!?!?
– PORQUE NÃO!!!!!! PORQUE NÃO!!!!!!
Voltam aos socos.
Sentados na sala. Compressas de gelo. Ela chega, pergunta o que houve.
– Nada.
– É, não foi nada não.
Ela pergunta:
– Se vocês estão tão estressados por que não vão dar uma volta?
Entreolham-se e respondem, juntos:
– Porque não.
Entreolham-se e respondem, juntos:
– Porque não.
Friday, June 09, 2006
Um dia descobri porque minhas reflexões são tão superficiais. Mas era um motivo tão pueril que eu não me lembro. Mesmo porque, hoje em dia eu sei que “idéias não são metais que se fundem”. Isso quem dizia era meu avô, Deus o tenha. E meu pai passou pra mim, num daqueles momentos em que o pai é o herói do filho. Alguma coisa que meu pai fizera e que eu achara genial, então perguntei, admirado: que legal pai, como você teve essa idéia? E meu pai ergueu o queixo e balançou o indicador, como quem adverte fundamentado por uma fonte de sabedoria superior: “Aí é que está, meu filho. Idéias não são metais que se fundem...” Percebendo o meu fascínio e a minha expressão de óbvia incompreensão, meu pai arrematou com um tom mais corriqueiro: “...mas isso era seu avô que dizia, eu não tenho a menor idéia do que significa.” O interessante é que eu não me decepcionei. Ao contrário, fiquei algumas semanas rindo da célebre frase do meu avô, pensando que aquilo era uma herança, algo que deveria ser passado de geração em geração. Simplesmente porque é tradição e pronto. Também fiquei tentando decifrar a frase, é claro. E decidi que genial mesmo é o que você entende mas não consegue explicar. Por isso, quando acontece de me perguntarem aquelas ardilosas armadilhas filosófico-universitárias eu balanço meu indicador e digo de queixo erguido, “idéias não são metais que se fundem”. E saio logo dali, antes que alguém me pergunte o que significa.
Sunday, May 28, 2006
Em caso de pane
Se você já viajou de avião deve ter ouvido algo assim: “em caso de pane, máscaras cairão sobre a sua cabeça, prenda-as com o elástico”. Leia-se que ninguém virá te salvar ou irá se responsabilizar por quaisquer danos vitais mas você ganha uma máscara de presente. Não sei não. Toda vez que dou uma olhada nessas máscaras de avião tenho a impressão de que elas já foram usadas e reutilizadas. E que não vão funcionar. Da última vez que viajei reparei bem no tamanho do elástico e tenho quase certeza de que aquilo não caberia na minha cabeça. Depois vem aquele papo de que meu assento é inflável e flutua e que é só puxar aqui e ali para montar. É quando me lembro que passei um tempão pra montar um armário com um amigo meu e depois de umas duas horas ainda ficou meio torto. E nessas horas não dá tempo de pensar, mas você deve proceder conforme o indicado na cartilha que se encontra no bolso do banco da frente. A demonstração dos comissários de bordo sempre faz a pane parecer um evento organizado e ordinário, que deve, por obséquio, ser vivenciado de forma ordenada e civilizada. Dá até pra imaginar um passageiro mais revolto numa situação dessas:
- Senhor, devo pedir para que recoloque a máscara, estamos tendo uma pane na pressurização.
- Eu aceito usar a sua, gatinha.
- Senhor, por favor, devo pedir para que recoloque a sua máscara e mantenha o cinto afivelado.
- Você não sabe o barato que dá ficar sem essa coisa aí. Vamos voar juntos, gata.
Nisso chega o comissário e ameaça jogá-lo pela janela, já que agora ela está aberta mesmo.
O curioso é que ninguém tem que fazer curso de pára-quedismo pra viajar de avião. Em caso de pane já está tudo preparado para que você tenha uma morte confortável. Você só tem que manter a calma, usar as máscaras com elástico, colocar a poltrona na posição vertical e se você estiver com pressa de chegar ao chão, há quatro saídas de emergência, duas na parte frontal da aeronave e mais duas na parte traseira.
- Senhor, devo pedir para que recoloque a máscara, estamos tendo uma pane na pressurização.
- Eu aceito usar a sua, gatinha.
- Senhor, por favor, devo pedir para que recoloque a sua máscara e mantenha o cinto afivelado.
- Você não sabe o barato que dá ficar sem essa coisa aí. Vamos voar juntos, gata.
Nisso chega o comissário e ameaça jogá-lo pela janela, já que agora ela está aberta mesmo.
O curioso é que ninguém tem que fazer curso de pára-quedismo pra viajar de avião. Em caso de pane já está tudo preparado para que você tenha uma morte confortável. Você só tem que manter a calma, usar as máscaras com elástico, colocar a poltrona na posição vertical e se você estiver com pressa de chegar ao chão, há quatro saídas de emergência, duas na parte frontal da aeronave e mais duas na parte traseira.
Thursday, May 11, 2006
Divisórias de um banheiro
Num banheiro, o suor escorria-lhe o rosto. “Tem entrevista às três”. Do toalete vizinho, um desabafo:
- Huuuummmpppffff!!!
Resolveu comunicar-se.
- Ó, amigo! Tem papel aí?
Silêncio. Não deve ter ouvido. E agora? Sem papel, sem relógio e sem comunicação. Mas o pior de tudo era ainda não ter terminado. Decidiu tentar de novo:
- Ó, amigo! Tens papel, aí?
- Huuummmppppffff...
Mais silêncio. Subitamente, houve comunicação:
- Papel, é?
- É! Papel, tem aí?
- Ih, rapaz. Sabe que não tem?
- Como “não tem”? É um absurdo. Isso aqui é um banheiro.
- Toma.
- Que é isso?
- Caderno dois do jornal. Substitui, né?
- Puxa. Obrigado.
Barulho de papel. Aproveitou o restante pra enxugar a testa. Calor. Papel. Banheiro. Comunicação. O que era mesmo? A entrevista!
- Ó amigo! Tem horas, aí?
- São duas e meia.
- Duas e meia? Dá tempo. Tem que dar.
- Compromisso, é?
- Tô quase me atrasando.
- Eu estou de carro, posso te dar uma carona. Hoje é minha folga.
- Puxa. Obrigado.
- Podemos ir agora. Estou terminando.
Ao som de duas descargas barulhentas, os dois saíram de suas cabines e da proteção que tinham de ver um ao outro. Fitaram-se: um deles engravatado, barba feita, pasta na mão; o outro, adolescente, cabelo comprido e um brinco no nariz.
- Olha, não precisa de carona, não.
- Sim. Digo, não. Na verdade eu tinha mesmo o que fazer agora que já são... que horas são?
- Pois é.
E cada um foi pra cada lado.
- Huuuummmpppffff!!!
Resolveu comunicar-se.
- Ó, amigo! Tem papel aí?
Silêncio. Não deve ter ouvido. E agora? Sem papel, sem relógio e sem comunicação. Mas o pior de tudo era ainda não ter terminado. Decidiu tentar de novo:
- Ó, amigo! Tens papel, aí?
- Huuummmppppffff...
Mais silêncio. Subitamente, houve comunicação:
- Papel, é?
- É! Papel, tem aí?
- Ih, rapaz. Sabe que não tem?
- Como “não tem”? É um absurdo. Isso aqui é um banheiro.
- Toma.
- Que é isso?
- Caderno dois do jornal. Substitui, né?
- Puxa. Obrigado.
Barulho de papel. Aproveitou o restante pra enxugar a testa. Calor. Papel. Banheiro. Comunicação. O que era mesmo? A entrevista!
- Ó amigo! Tem horas, aí?
- São duas e meia.
- Duas e meia? Dá tempo. Tem que dar.
- Compromisso, é?
- Tô quase me atrasando.
- Eu estou de carro, posso te dar uma carona. Hoje é minha folga.
- Puxa. Obrigado.
- Podemos ir agora. Estou terminando.
Ao som de duas descargas barulhentas, os dois saíram de suas cabines e da proteção que tinham de ver um ao outro. Fitaram-se: um deles engravatado, barba feita, pasta na mão; o outro, adolescente, cabelo comprido e um brinco no nariz.
- Olha, não precisa de carona, não.
- Sim. Digo, não. Na verdade eu tinha mesmo o que fazer agora que já são... que horas são?
- Pois é.
E cada um foi pra cada lado.
Saturday, May 06, 2006
Lembrança
Do vento que não faz
a árvore balançar,
do vôo que a ave voa
sem se cansar,
da nota que soa,
quase à toa,
mas diz da paz
que há.
Da paisagem mais bonita
que não se alcança.
É daí que me vem
tua lembrança.
a árvore balançar,
do vôo que a ave voa
sem se cansar,
da nota que soa,
quase à toa,
mas diz da paz
que há.
Da paisagem mais bonita
que não se alcança.
É daí que me vem
tua lembrança.
Sim, não e sei lá
Não,
é uma boa palavra
para definir o mesmo que
sim
Então assim se define
que sim ou que não.
Mas a manhã viva ou não,
também,
mal ou bem subjetiva
vira a vida
e sua lógica subversiva
sua louca definição.
E é aí que se percebe
como dizer o que há
e não se diz nem sim nem não
mas sim,
sei lá.
é uma boa palavra
para definir o mesmo que
sim
Então assim se define
que sim ou que não.
Mas a manhã viva ou não,
também,
mal ou bem subjetiva
vira a vida
e sua lógica subversiva
sua louca definição.
E é aí que se percebe
como dizer o que há
e não se diz nem sim nem não
mas sim,
sei lá.
Julia
Quando aqui,
aqui é longe.
E quando lá,
lá é perto.
Quando perto,
quase lá.
E quase longe,
quando aqui.
A saudade,
não finda em si.
E fica linda,
quando finda em ti.
aqui é longe.
E quando lá,
lá é perto.
Quando perto,
quase lá.
E quase longe,
quando aqui.
A saudade,
não finda em si.
E fica linda,
quando finda em ti.
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