Oi pessoal! "Os que não foram fora" são os textos, poemas e poesias que sobreviveram à autocrítica. Sempre quis editar um livro mas vou escrevendo na mesma medida em que vou selecionando os textos e jogando alguns fora. Por essa e por outras, não consegui pensar num título que representasse um conjunto de poesias que eu queria editar. Foi quando me deram uma sugestão de título que eu gostei: "as que não foram fora".
Thursday, February 25, 2010
O vento
Era uma volta, de bicicleta.
Era uma volta, que ia a pé,
era uma volta, que às vezes, nem é.
Uma volta que,
completa,
ia daqui
até,
nem perto nem longe,
mas aí.
E a volta não há,
só há um vento que sopra
só pra ir
ou voltar.
O vento que faz a bicicleta voar.
Monday, October 26, 2009
O chão
Se eu puder voar
antes de chegar ao chão
o chão voará,
voará por entre as árvores...
que estarão cantando,
A revoada,
o vento e o nada, que são.
E às passadas,
aos saltos e foles,
as notas serão
Como é o vento,
entoando sua canção de ar.
soando o movimento
as vidas que vão,
nas músicas que voam,
Vão levantando vôo
levam a enlevar,
Os vôos,
antes de chegar ao chão
o chão voará,
voará por entre as árvores...
que estarão cantando,
A revoada,
o vento e o nada, que são.
E às passadas,
aos saltos e foles,
as notas serão
Como é o vento,
entoando sua canção de ar.
soando o movimento
as vidas que vão,
nas músicas que voam,
Vão levantando vôo
levam a enlevar,
Os vôos,
Tuesday, September 01, 2009
Qualquer coisa
Gosto de escrever nas horas vagas. Mas se escrever é uma tarefa, sinto a preguiça chegando, invadindo a minha sala e me dizendo que está com saudades. No entanto, logo me diverti com a idéia de que posso escrever qualquer coisa. Principalmente quando ficou claro que “qualquer coisa” é uma concessão. “Qualquer coisa” é uma coisa, assim, tipo, sei lá, que tem a ver. Não é qualquer coisa. É uma coisa específica.
Mas então que coisa seria essa?? A princípio, me parece uma coisa liberal, direcionada e objetiva. Só que depois de alguma análise, a coisa pode ser subjetiva também e até mesmo sem uma direção fixa. E como se não bastasse a simples complexidade da coisa toda, a coisa tem lá suas restrições. Enfim, é uma coisa realmente difícil.
E foi pensando nessa dualidade da coisa que surgiram algumas soluções. A primeira foi a mais óbvia. Relembrando a sabedoria popular, sabemos que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Ou seja, uma coisa é escrever “qualquer coisa”. Outra coisa é escrever uma coisa qualquer. Todavia, não satisfeito com o tratamento simplório dado à questão, surgiu a segunda possível solução: a coisa, nesse caso, seria uma coisa taoísta, que vai além da dualidade desse mundo de concepções equivocadas, incompletas e ilusórias. Para definir “a coisa”, seria necessário entender as nuanças entre muitos extremos e opostos que se sobrepõem, delineando assim o caminho de sua compreensão.
Contudo, o significado real da coisa ainda não parecia contemplado. Foi quando descobri uma terceira solução e esta sim, me passou mais segurança e satisfação: percebi que a coisa não precisava ser conceituada ou explicada. A coisa, em si, não carregava sua auto-definição. A coisa era o reflexo direto da intenção. Se a intenção fosse correta, não escreveríamos qualquer coisa. E por outro lado, com a intenção correta, poderíamos escrever qualquer coisa.
Mas então que coisa seria essa?? A princípio, me parece uma coisa liberal, direcionada e objetiva. Só que depois de alguma análise, a coisa pode ser subjetiva também e até mesmo sem uma direção fixa. E como se não bastasse a simples complexidade da coisa toda, a coisa tem lá suas restrições. Enfim, é uma coisa realmente difícil.
E foi pensando nessa dualidade da coisa que surgiram algumas soluções. A primeira foi a mais óbvia. Relembrando a sabedoria popular, sabemos que “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. Ou seja, uma coisa é escrever “qualquer coisa”. Outra coisa é escrever uma coisa qualquer. Todavia, não satisfeito com o tratamento simplório dado à questão, surgiu a segunda possível solução: a coisa, nesse caso, seria uma coisa taoísta, que vai além da dualidade desse mundo de concepções equivocadas, incompletas e ilusórias. Para definir “a coisa”, seria necessário entender as nuanças entre muitos extremos e opostos que se sobrepõem, delineando assim o caminho de sua compreensão.
Contudo, o significado real da coisa ainda não parecia contemplado. Foi quando descobri uma terceira solução e esta sim, me passou mais segurança e satisfação: percebi que a coisa não precisava ser conceituada ou explicada. A coisa, em si, não carregava sua auto-definição. A coisa era o reflexo direto da intenção. Se a intenção fosse correta, não escreveríamos qualquer coisa. E por outro lado, com a intenção correta, poderíamos escrever qualquer coisa.
Liberdade
Pra que amassar as folhas da grama,
sem passar por ela?
Pra onde perder o olhar,
que sequer se encontrou?
Como ouvir as músicas da água,
se não se ouve a própria respiração?
Por quanto se espera pra sorrir,
se o sorriso é estar aqui?
Qual a vida que se liberta,
se a vida é liberdade?
O que é que fará o teu dia,
se não basta o amanhecer?
Quando haverá a beleza,
senão quando o sol nascer?
sem passar por ela?
Pra onde perder o olhar,
que sequer se encontrou?
Como ouvir as músicas da água,
se não se ouve a própria respiração?
Por quanto se espera pra sorrir,
se o sorriso é estar aqui?
Qual a vida que se liberta,
se a vida é liberdade?
O que é que fará o teu dia,
se não basta o amanhecer?
Quando haverá a beleza,
senão quando o sol nascer?
Monday, June 08, 2009
Tele-marketing
O guri não atende ao telefone, está ocupado desenhando. E deixa o telefone tocar, porque sabe que ainda não sabe atender direito. O pai vem correndo atender, dá um “alô” meio ofegante. O guri logo se interessa, pára de desenhar e fica olhando o pai ao telefone.
E o pai diz:
- Não, não. Não. Não, muito obrigado. Não, eu realmente não quero, obrigado. Não, olha, obrigado, obrigado mesmo, mas eu não quero. Então. Eu fico muito agradecido, realmente, muito obrigado, mas não, obrigado. É, não, não quero não. Nããão, nããão... mas obrigado, viu? Infelizmente, minha resposta é não. Pois é, desculpe, mas não... Não, obrigado. Tchau-tchau.
Antes de voltar a desenhar, o guri fica pensativo.
- Pai, aquilo que você não queria...
- O que é que tem?
O guri pensa mais um pouco. E conclui:
- Tem certeza?
Wednesday, February 11, 2009
Elevadores
Todos tinham aquela expressão de elevador. Aquele silêncio de elevador. A respiração de elevador, o pensamento de elevador. A postura de elevador. A disposição itinerante, a fixação na busca ávida da luzinha que indica o fim da agonia - e finalmente, o andar que se quer descer.
De repente, há uma palavra imprópria para elevadores. Obviamente proibida à etiqueta em elevadores.
- Oi...
Soava como um pouso de pára-quedas forçado, no mínimo singular, isto é, num elevador. Além disso, a palavra descabida não era ninguém falando ao celular. E também não era um cumprimento discreto para ninguém.
Era, de fato, só um “oi” mesmo. Daqueles que socializam. Um “oi” bem intencionado, simples, sem grandes pretensões. Quer dizer, simpático. Daqueles que socializam.
Mas dentro do elevador. Fechado. Fechado, isolado, cerrado e em movimento, com pessoas dentro, entende? Daquelas que apertam os botões discretamente, ou que dizem “Ahm... quinto, por favor...”. Quer dizer, pessoas mesmo, passageiros, itinerantes, que entram no contexto da realidade de elevador. E que, uma vez dentro do contexto, ou do elevador, não sabem o que fazer: pessoas que olham para cima, que olham para baixo, que olham para a porta, que olham no celular, que olham o relógio, ou que olham para um nada específico, quando por uma dádiva divina, ainda há um. São pessoas de elevador, que realmente não têm escolha. Talvez até tivessem, afinal sempre se pode usar a escada. Mas agora já estavam ali.
Porém, como aquilo não podia estar acontecendo, só duas ou três pessoas se dignaram a olhar para trás, e, antes que pusessem seus olhos nos nadas de elevador novamente, acalmassem seus corações e voltassem aos seus pensamentos cotidianos, tiveram que ouvir de novo:
- Oi!!
Agora sim. Agora ainda mais alegre, o “oi” havia transcendido seu aspecto transgressor. Havia mais que uma simples transgressão da ética, dos bons costumes de elevador, da educação e da etiqueta em elevadores. Naquele elevador, já não se tratava mais de enfrentar meros constrangimentos ou afrontas aos itinerantes. Pois que então, naquele elevador, aqueles itinerantes tornavam-se os escolhidos pela vida, pelo tempo, pelo acaso, pelo destino. Ou, só pelo elevador, mesmo. Mas a grande questão é que era preciso sabedoria, para presenciar com firmeza o momento, o exato momento, em que a convivência em elevadores talvez mudasse - e nunca mais fosse a mesma. Toda aquela situação era provavelmente um marco biográfico, uma experiência única, algo que só ocorre a cada cinco ou seis eclipses, um contato imediato com algum tipo de vida alienígena, sei lá. E a vida alienígena ainda resolveu acrescentar:
- Tudo bom?
Também não era um vendedor. Tampouco uma criança e nem mesmo um moço do campo com costumes menos urbanos, tentando puxar conversa... Não era ninguém pedindo esmola. E não era alguém cordial, que procurava chamar a atenção para algo que pudesse ter caído do bolso de outrem.
Não. Para o terror de todos ali presentes, era uma jovem de ar disposto, dizendo um “oi” simpático - daqueles que socializam - como se não estivesse em um elevador. Ou, pior ainda, como se simplesmente ignorasse o fato. Vai saber se os alienígenas usam elevadores. Além disso, a moça se vestia bem, não aparentava insanidade mental. Tinha os olhos vivos e uma expressão saudável. Para uma alienígena então, estava ótima.
Em seguida, um senhor mais à frente da porta resolveu voltar-se e encarar a jovem. Se ela dizia "oi” em elevadores, teria que pelo menos se dispor a suportar a sua antipatia. Afinal, não se diz um “oi” socializador como aquele, assim, dentro de um elevador, impunemente. Se a moça tivesse assistido a um ou dois filmes de ficção científica já saberia como os extraterrestres podem ser incivilizados. Não seria surpresa alguma se ela estivesse ocultando um “laser” destruidor dentro da pochete, esperando o momento certo para agir. Era preciso detê-la o quanto antes. E para isso, o senhor da frente virou-se, estufou o peito e encarou a moça.
Mas nada a atingia. Nada a intimidava. Para a senhorita alienígena era como se o elevador e a sua moral fossem uma realidade paralela, uma insignificante ilusão. Talvez fosse, sei lá, a volta do messias, dessa vez em forma de mulher, aparecendo pela primeira vez em um elevador só pra testar a receptividade das pessoas. Ou podia ser uma campanha publicitária de pasta de dente, já que o mau hálito não permitiria proferir um "oi" coletivo daqueles dentro de um elevador cheio.
Contudo, antes que o senhor da frente encerrasse seu olhar reprovador, a moça disse, logo em seguida ao aterrorizante “Tudo bom?”, que estava fazendo uma pesquisa de campo e...
- Minha primeira pergunta é... o senhor socializa em elevadores?
Tuesday, January 27, 2009
Azul da manhã
Há um azul do dia.
Desde a manhã
há uma música azulada e fria,
que os olhos amanhecem
com o infinito.
Há uma manhã,
infinitamente sã,
que nasce todo dia
e toca a música que guia
o olhar bonito.
Tuesday, October 28, 2008
Hermenegildo
É óbvio que se você é o Hermenegildo, piadas com seu nome e afins já deixaram de ser interessantes há muito tempo. “Hermenegildo” não é engraçado. A maioria das pessoas só não percebeu ainda porque a maioria não se chama Hermenegildo.
Mas receber um nome como Hermenegildo e ter que aturar as situações que surgem por conta disso, não é o único, nem o maior problema do Hermenegildo. A questão é que não é fácil ser a pessoa, a personalidade, o ser humano em si, a individualidade e a peculiaridade cuja alcunha é, por culpa do destino ou de seja lá o que for, Hermenegildo. Isso porque um Hermenegildo não tem muitas opções: ou o indivíduo nunca supera o próprio nome, quer dizer, receberá sempre mais atenção por conta do seu nome peculiar do que pela pessoa que de fato é, ou então “Hermenegildo” será só uma piada de mau gosto da vida: que não passa de uma pequena e, quem sabe, divertida parte de toda uma personalidade, isto é, apenas um detalhe curioso a respeito do grande, do notável, do interessantíssimo e muito, muito bem apessoado, Hermenegildo.
- Como??
- Hermenegildo.
- Ah.
Ser nomeado Hermenegildo é inegavelmente um desafio extra. Se o Hermenegildo fracassa, quer dizer, perde o emprego ou a namorada, investe num negócio que acaba não dando certo ou qualquer outra situação semelhante, a maioria freqüentemente procura pensar positivo porque poderia ser pior, mas acaba por concluir em seguida:
- Ainda por cima o nome do cara era Hermenegildo!
Ou ainda mais fatalista:
- Também, com um nome daqueles, não ia dar certo nunca!
Por outro lado, o Hermenegildo tem a vantagem de conhecer melhor as pessoas. Fica mais fácil separar os imbecis dos decentes e os falsos dos honestos no primeiro momento em que são apresentados. A reação ao ouvir “prazer, Hermenegildo...” com certeza serve como uma avaliação psicológica. Algumas pessoas tendem a repetir o nome em tom de pergunta. Outras tentam disfarçar a surpresa com um notável desembaraço: “posso te chamar de Gil?”. E outras preferem “Menê”, que apesar de também não ser uma ótima solução, evita confundir com algum Gilberto. Contudo, nenhuma personalidade surpreende mais do que a senhora que ouve “Hermenegildo” e não esboça nenhuma reação em especial. É claro que, mais tarde, o psicólogo descobre que a singular senhora se chama Gilda, é casada com o Hermen e, logicamente, tem um filho: o Hermenegildo. Dona Gilda fica menos nervosa porque durante a consulta, o Menê fica trabalhando com o Hermen, que antes era Emerson, como consta na carteira de identidade. O que é uma corruptela estranha, é verdade, mas a questão não é essa, a questão é que o filho dela explode de raiva toda vez que ela o lembra de ir tirar o próprio RG, e Dona Gilda com o coração apertado argumenta: "mas Hermenegildozinho...". E não adianta, ele se irrita e ela não sabe por quê.
É obviamente uma suposição comum. O senso estético ou a perspectiva particular dos pais, aliada à conseqüência inevitável da junção dos nomes “Hermen” com “Gilda”, resultou em Hermenegildo. Tudo bem, acontece. É preciso entender isso, acontece. O que não dá pra entender é quando logo depois de cumprimentar o Hermenegildo, você estende a mão para ser apresentado ao Hermenegildo Júnior. Quando falamos em Hermenegildo Júnior, não sabemos mais com o que estamos lidando. O Hermenegildo foi um acidente, mas Hermenegildo Júnior é um incidente. E perigoso, porque se um Hermenegildo pode chegar a ser um sujeito bastante revoltado, o Hermenegildo Júnior, então, será capaz de qualquer coisa. Para um Hermenegildo Júnior, nomear o filho como uma homenagem ao pai, é o de menos.
Thursday, August 28, 2008
Juvena
Juvena era trabalhadora. Dizia que não era questão de dignidade, era questão de inteligência: quem queria entender a vida e crescer em qualquer direção, tinha que aprender a trabalhar. Dizia isso, enquanto esfregava alguma coisa e esbarrava na vassoura, pela milionésima vez. Era o hábito que não perdia, vivia derrubando a vassoura a cada cinco minutos.
Todos sempre elogiavam a limpeza de Juvena e ela sustentava uma pose característica, orgulhosa. Declarava sua paixão pelo serviço bem-feito. E em seguida, derrubava a vassoura de novo.
As pessoas se incomodavam com a vassoura caindo de cinco em cinco minutos, claro. Mas raramente comentavam, porque a Juvena era um tipo difícil de achar: honesta, trabalhadora, confiável e eficiente. E daí se derrubava a vassoura a cada cinco minutos?
E no caso, “a cada cinco minutos” não era exagero. Juvena tinha tanta energia que por onde passava, parecia que havia pelo menos cinco mulheres limpando, conversando e derrubando vassouras. Além de tudo, Juvena tinha uma iniciativa inteligente, colocava-se ao trabalho sem precisar de muitos direcionamentos e tudo o que pudesse ser além de sua alçada, ela mesma perguntava e descobria. Por isso mesmo, nunca tivera problemas comuns de diaristas e empregadas domésticas que costumam quebrar ou estragar as coisas tentando limpá-las.
Juvena era tão boa no que fazia e tão enraizada nos valores que primavam pela qualidade que chegava a provocar sérias indagações em certos patrões mais abastados. Não entendiam como uma mulher com idéias tão claras a respeito da vida e da capacidade do ser humano, podia estar ali, simplesmente limpando a casa. Mas logo que viam a dona de pensamentos tão lúcidos derrubando a vassoura de cinco em cinco minutos, de certa forma, as indagações iam se dispersando.
E mesmo entre trabalho e mais trabalho ainda, Juvena arrumou um namorado. E no segundo dia de namoro, ele disse a ela: você é uma mulher quase perfeita. Só precisa aprender a não derrubar essa maldita vassoura, de cinco em cinco minutos. Até parece que você não sabe o que está fazendo.
Juvena terminou o namoro no terceiro dia. No dia seguinte, não derrubava mais vassouras. E no outro dia, sentiu-se tão cheia de si, tão perfeita por não derrubar mais a vassoura, que se demitiu. Inventou uma pequena presilha para evitar que vassouras caíssem quando mal posicionadas. Ficou milionária e ainda diz que só não inventou a caneta bic porque chegaram antes dela.
Todos sempre elogiavam a limpeza de Juvena e ela sustentava uma pose característica, orgulhosa. Declarava sua paixão pelo serviço bem-feito. E em seguida, derrubava a vassoura de novo.
As pessoas se incomodavam com a vassoura caindo de cinco em cinco minutos, claro. Mas raramente comentavam, porque a Juvena era um tipo difícil de achar: honesta, trabalhadora, confiável e eficiente. E daí se derrubava a vassoura a cada cinco minutos?
E no caso, “a cada cinco minutos” não era exagero. Juvena tinha tanta energia que por onde passava, parecia que havia pelo menos cinco mulheres limpando, conversando e derrubando vassouras. Além de tudo, Juvena tinha uma iniciativa inteligente, colocava-se ao trabalho sem precisar de muitos direcionamentos e tudo o que pudesse ser além de sua alçada, ela mesma perguntava e descobria. Por isso mesmo, nunca tivera problemas comuns de diaristas e empregadas domésticas que costumam quebrar ou estragar as coisas tentando limpá-las.
Juvena era tão boa no que fazia e tão enraizada nos valores que primavam pela qualidade que chegava a provocar sérias indagações em certos patrões mais abastados. Não entendiam como uma mulher com idéias tão claras a respeito da vida e da capacidade do ser humano, podia estar ali, simplesmente limpando a casa. Mas logo que viam a dona de pensamentos tão lúcidos derrubando a vassoura de cinco em cinco minutos, de certa forma, as indagações iam se dispersando.
E mesmo entre trabalho e mais trabalho ainda, Juvena arrumou um namorado. E no segundo dia de namoro, ele disse a ela: você é uma mulher quase perfeita. Só precisa aprender a não derrubar essa maldita vassoura, de cinco em cinco minutos. Até parece que você não sabe o que está fazendo.
Juvena terminou o namoro no terceiro dia. No dia seguinte, não derrubava mais vassouras. E no outro dia, sentiu-se tão cheia de si, tão perfeita por não derrubar mais a vassoura, que se demitiu. Inventou uma pequena presilha para evitar que vassouras caíssem quando mal posicionadas. Ficou milionária e ainda diz que só não inventou a caneta bic porque chegaram antes dela.
Monday, May 12, 2008
De sol
Dos ares da manhã
se vê teu gesto de sol:
onde nasce a alma sã,
onde o dia que canta, não está só.
E o nascer dos olhos, que há em ti
me lembra dos pássaros,
cantando por aí.
se vê teu gesto de sol:
onde nasce a alma sã,
onde o dia que canta, não está só.
E o nascer dos olhos, que há em ti
me lembra dos pássaros,
cantando por aí.
Friday, May 02, 2008
Você vai?
As mais simples relações sociais nacionais ainda podem ser bastante confusas. Uma mesma conversa pode ter diferentes significados, tudo depende de um entendimento abstrato e intangível que só nós brasileiros entendemos, ou quase entendemos. Por exemplo, na hora de marcar alguma coisa:
- Legal, legal. Então... você vai?
Nesse momento cria-se uma tensão surda. Tão surda que o outro até pergunta:
- Ahn?
- Perguntei se você vai.
É aqui, nesta reafirmação, que o ego de quem pergunta se levanta de repente, desembainha uma espada e atira, aos brados, o desafio: “Em guarda, soldado!! Aceita-me agora e pouparei tua vida, infeliz miserável!!”
E o outro, meio desconcertado, responde:
- Ahm... vou sim. Quer dizer, vou tentar ir, com certeza.
Sim! É a resposta do fidalgo, outrora despreparado para o combate!! Mas agora, meus convivas, agora a ofensa foi instigada... o desafio é eminente!! O ego desafiante expôs o próprio peito em franca contenda, perguntando se você vai!
Em outras palavras, você deve, portanto, decidir se vai ser um antipático insensível e recusar, ou se vai dar uma desculpa esfarrapada, ou ainda, se vai, enfim, para lá mesmo, para onde está sendo convidado:
- E que comam o pó da terra, aqueles que desafiam a estabelecida simpatia subjacente social brasileira!!
- Como?
- Ahm, nada. Que bom que você vai. A gente se vê lá, então.
Afinal, não importa o quanto o outro quer ir ou não. Não se pode deixar de comparecer com a simpatia brasileira assim, de repente, como se sinceridade fosse artigo de armazém.
Mas há ainda outra questão. Dependendo da entonação da pergunta, pode não ser um desafio e a resposta, por sua vez, também pode não ser uma mentira diplomática. Algumas pessoas dizem que tentam ir e, por estranho que possa parecer, de fato tentam. Umas conseguem, outras não. Contudo, há aquelas que, favorecidas pelo destino, não tentam nada e simplesmente vão - mas não por causa do convite: são pessoas que simplesmente acabaram indo parar lá, no mesmo lugar que você. Pura coincidência. Em seguida ,recebem aquele "que bom, você veio!". E se aproveitam disso:
- É claro que eu vim! Mas que coisa, rapaz.
É a virada! A repentina mudança do destino, o destino, aquele canalha que muda de amigos só pra se divertir.
- É que você parecia que...
- Pô. Até parece que você não confia.
O ego desafiador, que provocava e que expunha o próprio peito ao combate, agora se envergonha da sua incivilidade:
- Não, é que eu...
- Eu não te disse que ia tentar vir??
- Disse.
Então o desafiado desfere o golpe final, sem qualquer demonstração de clemência:
- Pois eu estou aqui ou não estou?!?!?
E já que não tem como negar a presença de quem fisicamente pergunta, o assunto está encerrado - a derrota eminente se fez triunfal e solene sobre o desconfiado desafiante.
Os simpáticos cavalheiros, normalmente se cumprimentam após o combate, a tal simpatia subjacente mantém o ocorrido em segredo e não se fala mais nisso. Quer dizer, tudo acaba ali, no golpe final. Mas isso, é claro, se forem cavalheiros.
- Aliás, você é que anda sumido. Não aparece mais...
- Não, é que eu...
Aqui, o ego desafiado não há de se contentar com a derrota do outro. Não! É preciso fazê-lo pagar pela ousadia, pelo atrevimento!
- Você parece que não liga mais pros amigos... não aparece.
E antes que o outro possa dizer, “bom, eu estou aqui, não estou?” para se defender, a espada da vingança penetra mais fundo no dorso do ego moribundo:
- Pô, cadê você, cara?!?
Contudo, mesmo após a derrota, o desafiante infamador corre pelas veladas planícies antipáticas, às vezes feliz por encontrar um pouco de antipatia, às vezes rabugento por não encontrá-la. Quando reencontra casualmente aqueles que empenharam sua palavra dizendo que estariam presentes, aqueles que aceitaram o convite só para manter a etiqueta da simpatia, regozija-se com o momento da vitória, lança-lhes o olhar de reprovação e, só pra começar, diz:
- Pô, cadê você, cara?!?
- Legal, legal. Então... você vai?
Nesse momento cria-se uma tensão surda. Tão surda que o outro até pergunta:
- Ahn?
- Perguntei se você vai.
É aqui, nesta reafirmação, que o ego de quem pergunta se levanta de repente, desembainha uma espada e atira, aos brados, o desafio: “Em guarda, soldado!! Aceita-me agora e pouparei tua vida, infeliz miserável!!”
E o outro, meio desconcertado, responde:
- Ahm... vou sim. Quer dizer, vou tentar ir, com certeza.
Sim! É a resposta do fidalgo, outrora despreparado para o combate!! Mas agora, meus convivas, agora a ofensa foi instigada... o desafio é eminente!! O ego desafiante expôs o próprio peito em franca contenda, perguntando se você vai!
Em outras palavras, você deve, portanto, decidir se vai ser um antipático insensível e recusar, ou se vai dar uma desculpa esfarrapada, ou ainda, se vai, enfim, para lá mesmo, para onde está sendo convidado:
- E que comam o pó da terra, aqueles que desafiam a estabelecida simpatia subjacente social brasileira!!
- Como?
- Ahm, nada. Que bom que você vai. A gente se vê lá, então.
Afinal, não importa o quanto o outro quer ir ou não. Não se pode deixar de comparecer com a simpatia brasileira assim, de repente, como se sinceridade fosse artigo de armazém.
Mas há ainda outra questão. Dependendo da entonação da pergunta, pode não ser um desafio e a resposta, por sua vez, também pode não ser uma mentira diplomática. Algumas pessoas dizem que tentam ir e, por estranho que possa parecer, de fato tentam. Umas conseguem, outras não. Contudo, há aquelas que, favorecidas pelo destino, não tentam nada e simplesmente vão - mas não por causa do convite: são pessoas que simplesmente acabaram indo parar lá, no mesmo lugar que você. Pura coincidência. Em seguida ,recebem aquele "que bom, você veio!". E se aproveitam disso:
- É claro que eu vim! Mas que coisa, rapaz.
É a virada! A repentina mudança do destino, o destino, aquele canalha que muda de amigos só pra se divertir.
- É que você parecia que...
- Pô. Até parece que você não confia.
O ego desafiador, que provocava e que expunha o próprio peito ao combate, agora se envergonha da sua incivilidade:
- Não, é que eu...
- Eu não te disse que ia tentar vir??
- Disse.
Então o desafiado desfere o golpe final, sem qualquer demonstração de clemência:
- Pois eu estou aqui ou não estou?!?!?
E já que não tem como negar a presença de quem fisicamente pergunta, o assunto está encerrado - a derrota eminente se fez triunfal e solene sobre o desconfiado desafiante.
Os simpáticos cavalheiros, normalmente se cumprimentam após o combate, a tal simpatia subjacente mantém o ocorrido em segredo e não se fala mais nisso. Quer dizer, tudo acaba ali, no golpe final. Mas isso, é claro, se forem cavalheiros.
- Aliás, você é que anda sumido. Não aparece mais...
- Não, é que eu...
Aqui, o ego desafiado não há de se contentar com a derrota do outro. Não! É preciso fazê-lo pagar pela ousadia, pelo atrevimento!
- Você parece que não liga mais pros amigos... não aparece.
E antes que o outro possa dizer, “bom, eu estou aqui, não estou?” para se defender, a espada da vingança penetra mais fundo no dorso do ego moribundo:
- Pô, cadê você, cara?!?
Contudo, mesmo após a derrota, o desafiante infamador corre pelas veladas planícies antipáticas, às vezes feliz por encontrar um pouco de antipatia, às vezes rabugento por não encontrá-la. Quando reencontra casualmente aqueles que empenharam sua palavra dizendo que estariam presentes, aqueles que aceitaram o convite só para manter a etiqueta da simpatia, regozija-se com o momento da vitória, lança-lhes o olhar de reprovação e, só pra começar, diz:
- Pô, cadê você, cara?!?
Sunday, April 27, 2008
Afterwards
On rainy days,
Every word is poetry
For it is life that says, which soul is free,
and what kind of rain comes,
as freedom has to be.
It comes rising with our words
For each beam of light
That drops the rain.
All it is afterwards, once it stops for a while
Is freedom rising again.
Every word is poetry
For it is life that says, which soul is free,
and what kind of rain comes,
as freedom has to be.
It comes rising with our words
For each beam of light
That drops the rain.
All it is afterwards, once it stops for a while
Is freedom rising again.
Saturday, April 19, 2008
Do mesmo ar
Quando abrir o céu
Será vista, a sinfonia.
Quando rir ao léu
e abraçar o dia
antes da conquista
só então se ouvirá
a paisagem que se vê.
Quando antes do sol, nascer
um canto de sabiá
nos olhos de caminhar
será vista, a sinfonia
tocando no ar.
Será vista, a sinfonia.
Quando rir ao léu
e abraçar o dia
antes da conquista
só então se ouvirá
a paisagem que se vê.
Quando antes do sol, nascer
um canto de sabiá
nos olhos de caminhar
será vista, a sinfonia
tocando no ar.
Friday, March 07, 2008
Monday, February 25, 2008
Írio
Írio gostava de fazer nada. Mas não era um nada qualquer. Para Írio, encontrar com os amigos no bar sem hora pra voltar já era fazer alguma coisa. Aliás, muita coisa. Írio detestava quando diziam que iam ligar para ele pra “marcar de sair e fazer alguma coisa”. Era um exagero aquilo. Além de sair ainda tinham que fazer alguma coisa. Incomodava-se constantemente com esse tipo de atitude. E fazia questão de deixar claro que não simpatizava. Afinal, ele tinha mais o que não fazer.
Írio era verdadeiramente um amante da “não-atividade”, um apaixonado pelo “fazer nada”. Estava sempre incomodado porque as pessoas eram umas desocupadas, viviam interrompendo o nada que ele estava fazendo. Por isso fazia questão de ressaltar que ninguém entende nada de nada e que a grande maioria não saberia reconhecer o nada se o visse, mesmo que estivesse debaixo do próprio nariz. Quer dizer, nada tem em todo o lugar, as pessoas não vêem porque não querem, porque não querem nem saber de nada.
Mas o fato é que ele era obrigado a conviver com todos aqueles incautos e incivilizados, imersos em ignorância: e que viviam como se o nada não existisse. Quer dizer, como se o nada não fosse nada.
- Vamos sair um pouco, Írio. Você não está fazendo nada...
- Estou sim. E você está me interrompendo.
- Mas... o que você está fazendo?
- NADA!! Quantas vezes tenho que repetir?!?
Assim que entrou na faculdade, Írio ficou viciado em trabalhar como fiscal nos vestibulares. Fazia-se muito pouco no começo das provas e minutos depois havia horas de nada pra fazer, plenas de nada inerente. Melhor ainda era quando tinha que esperar os candidatos que pediam tempo adicional. Írio freqüentemente se referia a eles como “meus preferidos”.
Írio era verdadeiramente um amante da “não-atividade”, um apaixonado pelo “fazer nada”. Estava sempre incomodado porque as pessoas eram umas desocupadas, viviam interrompendo o nada que ele estava fazendo. Por isso fazia questão de ressaltar que ninguém entende nada de nada e que a grande maioria não saberia reconhecer o nada se o visse, mesmo que estivesse debaixo do próprio nariz. Quer dizer, nada tem em todo o lugar, as pessoas não vêem porque não querem, porque não querem nem saber de nada.
Mas o fato é que ele era obrigado a conviver com todos aqueles incautos e incivilizados, imersos em ignorância: e que viviam como se o nada não existisse. Quer dizer, como se o nada não fosse nada.
- Vamos sair um pouco, Írio. Você não está fazendo nada...
- Estou sim. E você está me interrompendo.
- Mas... o que você está fazendo?
- NADA!! Quantas vezes tenho que repetir?!?
Assim que entrou na faculdade, Írio ficou viciado em trabalhar como fiscal nos vestibulares. Fazia-se muito pouco no começo das provas e minutos depois havia horas de nada pra fazer, plenas de nada inerente. Melhor ainda era quando tinha que esperar os candidatos que pediam tempo adicional. Írio freqüentemente se referia a eles como “meus preferidos”.
Em pouco tempo, profissionalizou-se e tornou-se um autônomo especializado em fiscalização de provas. Agendava sua semana pelas datas de concursos, exames psicotécnicos ou qualquer tipo de avaliação.
Desde que houvesse bastante nada pra fazer, Írio não se importava com o dinheiro, apesar de já estar cansado de ouvir da sua família o tempo todo que “nada não enche barriga” e que nada não leva a nada. Mas, a verdade seja dita: nada convencia Írio. Selecionava cuidadosamente seus trabalhos pelo tipo de nada que proporcionavam. Írio era quase um especialista em nada, sabia valorizar o nada e executá-lo como poucos. Nada lhe dava, na verdade, mais satisfação. Não havia nada que não gostasse e sempre buscava um nada que fosse nada mesmo. Um nada que, a princípio, fosse nada, mas que no fundo, intimamente, fosse nada também. Um nada simples, verdadeiro, íntegro,... nada desses nadas que não valem nada. Quer dizer, um nada que valesse a pena.
Havia poucos horários em que não fazia nada. Mesmo quando não estava trabalhando, Írio mantinha-se sempre muito ocupado fazendo nada em casa. Filosofava sobre o nada. E explicava que havia um ponto ideal para “o fazer do nada”, que era quando a noção de tempo começava a desaparecer.
- O ponto ideal, é quando você já não sabe mais se ontem foi ontem mesmo e se hoje ainda é o hoje de ontem, ou se, na verdade, já é o amanhã de hoje, ou seja, o hoje que teria então, se tornado ontem.
- O que???
- Nada, nada.
Alguns anos se passaram e Írio já não se incomodava tanto com a dificuldade que as pessoas tinham em entendê-lo. Írio era feliz, ficava satisfeito com nada. Com algum esforço encontrava bastante nada no mercado de trabalho. Além disso, aprendera a tirar lucro do nada. Era convidado para dar palestras sobre nada, uma área pouco explorada até então.
Nas férias, costumava freqüentar salas de espera de consultórios. Alguns pacientes o consideravam um exemplo, pois nunca tinham visto alguém numa sala de espera com tamanha serenidade e paz de espírito. Outros o invejavam pela mesma razão e desconfiavam dele e de toda aquela tranqüilidade aparente. Quando perguntavam a ele o que ele realmente estava fazendo ali, ele respondia, honestamente:
- Nada.
Mas ninguém acreditava nele. Não adiantava explicar.
Desde que houvesse bastante nada pra fazer, Írio não se importava com o dinheiro, apesar de já estar cansado de ouvir da sua família o tempo todo que “nada não enche barriga” e que nada não leva a nada. Mas, a verdade seja dita: nada convencia Írio. Selecionava cuidadosamente seus trabalhos pelo tipo de nada que proporcionavam. Írio era quase um especialista em nada, sabia valorizar o nada e executá-lo como poucos. Nada lhe dava, na verdade, mais satisfação. Não havia nada que não gostasse e sempre buscava um nada que fosse nada mesmo. Um nada que, a princípio, fosse nada, mas que no fundo, intimamente, fosse nada também. Um nada simples, verdadeiro, íntegro,... nada desses nadas que não valem nada. Quer dizer, um nada que valesse a pena.
Havia poucos horários em que não fazia nada. Mesmo quando não estava trabalhando, Írio mantinha-se sempre muito ocupado fazendo nada em casa. Filosofava sobre o nada. E explicava que havia um ponto ideal para “o fazer do nada”, que era quando a noção de tempo começava a desaparecer.
- O ponto ideal, é quando você já não sabe mais se ontem foi ontem mesmo e se hoje ainda é o hoje de ontem, ou se, na verdade, já é o amanhã de hoje, ou seja, o hoje que teria então, se tornado ontem.
- O que???
- Nada, nada.
Alguns anos se passaram e Írio já não se incomodava tanto com a dificuldade que as pessoas tinham em entendê-lo. Írio era feliz, ficava satisfeito com nada. Com algum esforço encontrava bastante nada no mercado de trabalho. Além disso, aprendera a tirar lucro do nada. Era convidado para dar palestras sobre nada, uma área pouco explorada até então.
Nas férias, costumava freqüentar salas de espera de consultórios. Alguns pacientes o consideravam um exemplo, pois nunca tinham visto alguém numa sala de espera com tamanha serenidade e paz de espírito. Outros o invejavam pela mesma razão e desconfiavam dele e de toda aquela tranqüilidade aparente. Quando perguntavam a ele o que ele realmente estava fazendo ali, ele respondia, honestamente:
- Nada.
Mas ninguém acreditava nele. Não adiantava explicar.
Sunday, January 13, 2008
Crônicas
Eram muitas crônicas. Papéis amassados. Cabelos amassados, olhos amassados. Tudo parecia amassado. Ele não escrevia mais. Porque queria dizer a ela que... Bom, ele queria dizer a ela que...
Se ele soubesse as palavras, eu poderia escrevê-las aqui. O que ele disse, na verdade, foi que naquele momento, o desperdício do papel não era o mais importante. E em seguida amassou este parágrafo também. Só saiu aqui porque eu resgatei do arquivo “descartados, amassados, desprezados, deletados”. Não é muito, mas é o que ele escreveu, aquele louco. Jogando tudo fora, sempre. Como se nos erros não houvesse algo pra aproveitar.
Mas enfim. Eram muitas crônicas. E muitas delas, amassadas. Muitas. E algumas delas saíam mais amassadas ainda, como esta.
Se ele soubesse as palavras, eu poderia escrevê-las aqui. O que ele disse, na verdade, foi que naquele momento, o desperdício do papel não era o mais importante. E em seguida amassou este parágrafo também. Só saiu aqui porque eu resgatei do arquivo “descartados, amassados, desprezados, deletados”. Não é muito, mas é o que ele escreveu, aquele louco. Jogando tudo fora, sempre. Como se nos erros não houvesse algo pra aproveitar.
Mas enfim. Eram muitas crônicas. E muitas delas, amassadas. Muitas. E algumas delas saíam mais amassadas ainda, como esta.
Meu sabiá
Avisto um sabiá
em árvores que a minha vista dá.
E não é longe.
É só olhar e ouvir, o canto soar.
Mas me perguntam, onde está?
Dizem que daqui, não se vê nenhum sabiá.
Mas todos ouvem, por aí, um sabiá cantar.
E se perguntam, onde está?
E eu aponto:
lá.
E se perguntam:
será?
Como se só na minha vista houvesse um sabiá!
Mas não é longe, é só olhar. E ouvi-lo cantar.
em árvores que a minha vista dá.
E não é longe.
É só olhar e ouvir, o canto soar.
Mas me perguntam, onde está?
Dizem que daqui, não se vê nenhum sabiá.
Mas todos ouvem, por aí, um sabiá cantar.
E se perguntam, onde está?
E eu aponto:
lá.
E se perguntam:
será?
Como se só na minha vista houvesse um sabiá!
Mas não é longe, é só olhar. E ouvi-lo cantar.
Wednesday, December 19, 2007
Horário
Às vezes, ele é muito exigente. Um chato, mesmo. É verdade que há alguns momentos flexíveis. Quando acontece, nem parece que é o mesmo horário. E sempre tem uns horários tentando se passar por outros. É preciso estar atento.
Passamos por muita coisa, meu horário e eu. Trabalhos de faculdade atrasados, compromissos de última hora, e agora, o início das férias. Nos separamos, desde então. Foi um adeus meio curto, distante. Quase indiferente. Não vi mais meu horário. Cheguei a esquecer do horário por um tempo e quando percebi, já tinha me afastado dele, já não era mais a mesma coisa, fui um insensível. Agi como se ele nunca tivesse existido, entende? Eu realmente devo desculpas ao horário.
Desculpa, horário. Eu quis manter contato. Até comprei um despertador. Sério. Também pensei em comprar um relógio de pulso e dar um basta nessa mania de olhar as horas só no celular. Mas é uma correria essa vida, não sobra tempo nem para horários.
E não é só isso. Para ser bem franco, eu estou numa fase da minha vida em que não posso ter um horário. Simplesmente não dá. É complicado isso, mas é fato: preciso de mais liberdade, quero curtir mais a minha vida, sem horários. Viver uma fase, sei lá, atemporal. Não estou psciologicamente preparado para ter um horário. Não agora. Agora não é hora de horário.
Porque o importante não é ter um horário só pra ter e dizer que tem, entende? É preciso amar o horário, aceitar os defeitos dele, manter aquele clima. Mesmo porque, antes sem horário do que mal organizado. Ou seja, não é tão fácil: se há uma coisa que me irrita em horários é a obsessão pela exatidão, a inflexibilidade com atrasos, mesmo que pequenos. Aliás, o cerne do problema é esse, os horários não acompanham o ritmo de cada um. São uns egoístas. Só querem saber de si próprios e nos julgam pela pontualidade. Como se o ser humano pudesse abdicar de algo tão peculiar, que o diferencia dos outros animais, que é a capacidade de realmente se atrasar. Afinal, o homem é o único animal que marca as coisas, combina com exatidão os horários e esquece.
Outra característica bastante peculiar e exclusiva do ser humano é a de ficar confuso com o óbvio. Ele marca um horário, chega em outro e pensa que ainda é o mesmo horário. Ou age como se fosse.
- Mas você não falou cinco horas?
- Falei! E agora são cinco e vinte e cinco!
- Isso, é por aí, cinco, cinco e pouco...
É provável que os seres humanos mais relativistas defendam a relação humano e horário, dizendo que a concepção de horário de cada um é um conceito absolutamente sagrado. Mas é óbvio que isso já é outro assunto. Então marquemos um horário pra gente se encontrar e conversar depois.
Desculpa, horário. Eu quis manter contato. Até comprei um despertador. Sério. Também pensei em comprar um relógio de pulso e dar um basta nessa mania de olhar as horas só no celular. Mas é uma correria essa vida, não sobra tempo nem para horários.
E não é só isso. Para ser bem franco, eu estou numa fase da minha vida em que não posso ter um horário. Simplesmente não dá. É complicado isso, mas é fato: preciso de mais liberdade, quero curtir mais a minha vida, sem horários. Viver uma fase, sei lá, atemporal. Não estou psciologicamente preparado para ter um horário. Não agora. Agora não é hora de horário.
Porque o importante não é ter um horário só pra ter e dizer que tem, entende? É preciso amar o horário, aceitar os defeitos dele, manter aquele clima. Mesmo porque, antes sem horário do que mal organizado. Ou seja, não é tão fácil: se há uma coisa que me irrita em horários é a obsessão pela exatidão, a inflexibilidade com atrasos, mesmo que pequenos. Aliás, o cerne do problema é esse, os horários não acompanham o ritmo de cada um. São uns egoístas. Só querem saber de si próprios e nos julgam pela pontualidade. Como se o ser humano pudesse abdicar de algo tão peculiar, que o diferencia dos outros animais, que é a capacidade de realmente se atrasar. Afinal, o homem é o único animal que marca as coisas, combina com exatidão os horários e esquece.
Outra característica bastante peculiar e exclusiva do ser humano é a de ficar confuso com o óbvio. Ele marca um horário, chega em outro e pensa que ainda é o mesmo horário. Ou age como se fosse.
- Mas você não falou cinco horas?
- Falei! E agora são cinco e vinte e cinco!
- Isso, é por aí, cinco, cinco e pouco...
É provável que os seres humanos mais relativistas defendam a relação humano e horário, dizendo que a concepção de horário de cada um é um conceito absolutamente sagrado. Mas é óbvio que isso já é outro assunto. Então marquemos um horário pra gente se encontrar e conversar depois.
Thursday, November 01, 2007
Gaitas-de-fole
Eu ouvia gaitas-de-fole.
Havia chuvas torrenciais
e sóis nascendo em quatro direções.
Amanheciam manhãs.
Entardeciam dias e anoiteciam luas.
O tempo era,
e fora,
o tempo é,
e será.
As lágrimas eram sorrisos
de um júbilo tão triste...
A tristeza era a felicidade,
a saudade, do nada que existe.
O infinito passava ainda mais,
porque era lei.
E teus olhos me disseram:
é,
eu sei.
Havia chuvas torrenciais
e sóis nascendo em quatro direções.
Amanheciam manhãs.
Entardeciam dias e anoiteciam luas.
O tempo era,
e fora,
o tempo é,
e será.
As lágrimas eram sorrisos
de um júbilo tão triste...
A tristeza era a felicidade,
a saudade, do nada que existe.
O infinito passava ainda mais,
porque era lei.
E teus olhos me disseram:
é,
eu sei.
Tuesday, October 23, 2007
Conversando
Outro dia, eu queria conversar comigo mesmo. E nada de nós nos encontrarmos, ando muito sem tempo. Mandei-me um email, que eu li correndo e nem me respondi. Pensei: vou me adicionar no msn.
Nós nos encontramos então, no msn, eu e eu. E foi estranho, não porque era uma conversa de msn comigo mesmo, mas porque eu sou muito diferente de mim. Foi bom, pra me conhecer melhor e saber como lidar comigo. Mesmo assim, ficamos ambos surpresos e perplexos um com o outro. Nós não concordávamos em muita coisa e, claro que as pessoas são contraditórias, mas enxergar as próprias contradições é impactante.
Mas o outro disse:
- Que impactante, que nada. Você já sabia, disso tudo.
- Eu não.
- Sabia sim.
- Eu não sabia de nada. É você que já sabia. Eu fiquei sabendo agora.
- Sim. Mas você sou eu.
Foi aí que eu descobri que tinha coisas que eu sabia e não sabia ao mesmo tempo. E que na verdade, era uma ignorância muito grande achar que eu era sempre inocente. Ou seja, passei a entender que chegar atrasado, por exemplo, não era necessariamente obra do acaso. Muitas vezes, o outro eu, com quem eu não conversava tanto, já sabia que eu ia me atrasar. Porque eu queria me atrasar. Mas ao mesmo tempo não queria. Então, era possível que dentro de mim co-existissem duas opiniões, de fato contraditórias. E que, de alguma forma, eu escolhia qual delas eu ia manter visível pra mim mesmo. Se alguém me perguntasse eu diria com convicção que não tinha intenção alguma de me atrasar.
- Você queria ficar mais tempo na internet, vamos, confesse!
- Não, não!!
- Queria sim!
- Mas eu queria chegar na hora!
- Confessa logo, o papo estava bom e você não quis olhar no relógio!
- Eu queria chegar na hora, você é que queria se atrasar!
- Certo, certo. Eu admito isso. Mas você, meu caro, sou eu.
- Eu nunca sei se eu fico feliz ou irritado quando você diz isso.
- Sabe sim.
- Chega!!
Passei a discutir mais comigo mesmo, tentando antecipar a visão sobre as minhas intenções ocultas a mim. E ao discutir comigo, surgiu outro problema: eu sempre tinha razão e ao mesmo tempo nunca tinha. Em compensação, eu comecei a ficar mais matreiro:
- Eu sei que você sabe que eu sei, que você sabe que eu sei o que eu sei.
- Certo, certo. Mas isso não interessa.
- Ah, não?
- Claro que não. O que interessa é o que você vai fazer com o que você sabe.
- Pois é. Tens razão. Mas isso eu ainda não sei.
- É, isso eu já sabia.
Essa mania de já saber tudo e não saber de nada me dava nos nervos. Ou não.
- Eu sei o que você está pensando.
- Claro que sabe. Você sou eu. Será que eu sempre tenho que te lembrar isso?
- Não me enrola. To te sacando, cara.
- Como é??
- É isso aí. To te sacando, cara.
- Ora, cale-se.
- Não muda de assunto não. Eu já te saquei.
- Pronto. Endoidou de vez.
Mas o outro disse:
- Que impactante, que nada. Você já sabia, disso tudo.
- Eu não.
- Sabia sim.
- Eu não sabia de nada. É você que já sabia. Eu fiquei sabendo agora.
- Sim. Mas você sou eu.
Foi aí que eu descobri que tinha coisas que eu sabia e não sabia ao mesmo tempo. E que na verdade, era uma ignorância muito grande achar que eu era sempre inocente. Ou seja, passei a entender que chegar atrasado, por exemplo, não era necessariamente obra do acaso. Muitas vezes, o outro eu, com quem eu não conversava tanto, já sabia que eu ia me atrasar. Porque eu queria me atrasar. Mas ao mesmo tempo não queria. Então, era possível que dentro de mim co-existissem duas opiniões, de fato contraditórias. E que, de alguma forma, eu escolhia qual delas eu ia manter visível pra mim mesmo. Se alguém me perguntasse eu diria com convicção que não tinha intenção alguma de me atrasar.
- Você queria ficar mais tempo na internet, vamos, confesse!
- Não, não!!
- Queria sim!
- Mas eu queria chegar na hora!
- Confessa logo, o papo estava bom e você não quis olhar no relógio!
- Eu queria chegar na hora, você é que queria se atrasar!
- Certo, certo. Eu admito isso. Mas você, meu caro, sou eu.
- Eu nunca sei se eu fico feliz ou irritado quando você diz isso.
- Sabe sim.
- Chega!!
Passei a discutir mais comigo mesmo, tentando antecipar a visão sobre as minhas intenções ocultas a mim. E ao discutir comigo, surgiu outro problema: eu sempre tinha razão e ao mesmo tempo nunca tinha. Em compensação, eu comecei a ficar mais matreiro:
- Eu sei que você sabe que eu sei, que você sabe que eu sei o que eu sei.
- Certo, certo. Mas isso não interessa.
- Ah, não?
- Claro que não. O que interessa é o que você vai fazer com o que você sabe.
- Pois é. Tens razão. Mas isso eu ainda não sei.
- É, isso eu já sabia.
Essa mania de já saber tudo e não saber de nada me dava nos nervos. Ou não.
- Eu sei o que você está pensando.
- Claro que sabe. Você sou eu. Será que eu sempre tenho que te lembrar isso?
- Não me enrola. To te sacando, cara.
- Como é??
- É isso aí. To te sacando, cara.
- Ora, cale-se.
- Não muda de assunto não. Eu já te saquei.
- Pronto. Endoidou de vez.
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